SÃO PAULO – Impressionante a força de um texto classificado como “clássico”, caso de A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt, que se despede, no próximo domingo (), do Teatro Popular do Sesi, depois de exitosa temporada que começou no ano passado. A leitura dada pelo diretor Luiz Villaça reafirma os preceitos da atriz Denise Fraga, protagonista da montagem, levantado desde A Alma Boa de Setsuan: extrair do riso matéria-prima para a reflexão sobre nosso próprio momento histórico. E é o grito grotesco e abafado que nos apavora ness’ A Visita… esfregando sob nossos narizes a dúvida: “Será a Justiça realmente Justa?”

Uma cidade moribunda, onde nem os trens de grande importância fazem parada, cujos investimentos governamentais são simplesmente ignorados, enfim a miserável cidade de Güllen, está ansiosamente excitada com a visita de Claire Zahanassian (Denise Fraga), ilustre (leia-se milionária) filha pródiga que retorna, depois de 30 anos à terra natal, trazendo esperança aos miseráveis güllinenses. Um coro de cidadãos, sabiamente arquitetado para que seja a própria plateia – o que, ao mesmo tempo, a insere no contexto espetacular e confere maior responsabilidade ao que está por vir – e a promessa de que Alfred krank (Tuca Andrada), namorado de Claire na juventude, será o próximo prefeito da cidade.

Sem que os preparativos para a chegada de Claire estejam finalizados, eis que o freio de emergência de um trem que, habitualmente, não pára na cidade é acionado e a excêntrica milionária surge com um peculiar séquito formado por um de seus maridos (até o final da peça ela trocará duas vezes de marido), o mordomo, dois eunucos cegos (interpretados com diferentes nuances de voz por Ary França) e um violonista que toca trilhas à seu pedido (efeito que, ao mesmo tempo, evoca risos e sublinha o caráter anti-ilusionista proposto pela encenação).

Com a sede em vingar toda a humilhação que Güllen a fez passar em sua juventude, Claire – uma Medeia que age objetivamente para chegar a seu intento, sem precisar utilizar de feitiços, mas com a certeza de que os privilégios financeiros que oferece podem corromper a moral dos güllinenses. Denise Fraga impõem-se em cena com todas as camadas da paleta, infinita de cores, a qual desenhou Claire Zahanassian: da soberba altiva, típica dos donos do capital, à brejeirice de ex-prostituta; do mistério – visto como excentricidade – quando de sua chegada, em pura objetividade quando propõe o que veio fazer na cidade; do grotesco – potencializado pela perna e braço mecânicos, com movimentação corporal plenas de domínio da atriz – aos lampejos românticos nas cenas com Alfred, em que o sopro romântico logo recebe uma lufada de ironia quebrando qualquer possibilidade de ficar presa em sentimentalismo; enfim, Fraga tem a medida da dosagem da arrogância cega da vingança e da fragilidade macerada por um falso moralismo que, agora com a oferta financeira que faz, sabe que a máscara logo será dissolvida. E à primeira oferta, o prefeito, em nome da cidade, a recusa. Mas os fatos que se sucedem vão desenhando a queda da “moral humanista” que tanto envaidece os güllinenses.

Em contrapartida ao circo armado por Zahanassian, um dos que preserva a consciência real do porvir, sobretudo pelo instinto de autopreservação, é Alfred Krank, em composição que revela um emaranhado de sentimentos: a ansiedade adquirida com o medo, o saudosismo seguido pelo arrependimento, até, fechando o ciclo percorrido pelo herói trágico, o entendimento de que Claire se tornou o que é devido às suas ações no passado e a aceitação com seu sacrifício.

Entretanto, em sua derradeira conversa com o prefeito, é taxativo ao sublinhar que sabe que vai morrer, mas que não pode aliviar a culpa de cada um dos güllinenses o que remeteu ao conceito de “culpa coletiva”, refutado por alguns filósofos alemães como Jasper, Harendt e Voeglin, em que ressaltam a responsabilidade individual de cada cidadão alemão que colaborou ou mesmo se calou fingindo não saber das atrocidades cometidas pelo Partido Nazista tendo em vista a ascensão de uma Alemanha falida e humilhada no pós Primeira Guerra. E, aproximando fisicamente e temporalmente de nossa realidade: até que ponto bater panela, enxotar esse ou aquele partido, acusar alguns políticos e fazer vistas grossas a outros realmente foi um efeito de justiça? Ou seriam nossas panelas como as palmas dos güllinenses, inclusive a plateia que também segue os atores, artefatos que, somente, lidam com apenas um dos pontos de vista da situação, ressaltado pelo cinismo sensacionalista da narrativa do jornalista (Ary França)?

O Teatro Épico é assim: não dá respostas, mas deixa questões. E temos muitas perguntas a nos fazer. Luiz Villaça, Denise Fraga, Tuca Andrada, Ary França, Fábio Herford, David Taiyu, Maristela Chelala, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Beto Matos, Renato Caldas, Luiz Ramalho e Rafael Faustino, obrigado por nos proporcionar diversão e reflexão da melhor qualidade.

 

UM DEUS CHAMADO DINHEIRO

Assim como um sanguessuga capaz de se reproduzir em massa e em diferentes esferas, o “dinheiro” invade A Visita da Velha Senhora: ele dilui a moral da família – o filho de Alfred compra um veículo (ainda que do mais barato), enquanto que a mulher de Krank reforma a loja e ostenta seu novo casaco de peles, tudo comprado à prazo -, a noção real da amizade – os fregueses do comércio de Alfred passam a “colocar na conta” os produtos que compram. O prefeito, outrora aliado de Krank, ao saber da sentença de Claire, o avisa sobre a incapacidade de indica-lo à sua sucessão como prefeito da cidade. O policial rejeita acolher denúncia de um Alfred desesperado. Até o pároco – sabendo que vai sucumbir à tentação da proposta da milionária – aconselha Alfred a fugir de Güllen.

O único que prefere se embriagar à admitir a queda dos ideais humanistas que defende é o professor, personagem interpretado com muito talento por Romis Ferreira. Entretanto ele afirma ao próprio Alfred se sucumbirá e participará da fatal decisão ao amigo, embora tenha consciência de que algum dia chegará “uma velha senhora que pedirá” sua própria vida.

E imersa na própria engrenagem do dinheiro, Claire, também, é vitima do próprio veneno. Seus casamentos e divórcios tem praticamente a mesma duração, durante o espetáculo conhecemos três maridos e sabemos de pelo menos meia dúzia de ex. O dinheiro, fica claro, que não comprou a felicidade de Zahanassian, ao contrário, sua vida segue a engrenagem dos negócios financeiros com altas quedas e altos lucros, inclusive da mídia (outra crítica à futilidade da cobertura exaustiva de trivialidades de vidas de celebridades) que busca os assuntos mais inóspitos.

Vale ressaltar o magnifico figurino criado por Ronaldo Fraga, autor do não menos exuberante cenário que, além da beleza, consegue criar diferentes ambientes com sua estrutura de pequenos blocos que se encaixam.

 

Ficha Técnica

Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria
Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrade, Ary França, Fábio Herford, Davi Taiyu, Romis Ferreira, Maristela Chelala, Renato Caldas, Eduardo Estrela, Beto Matos,
Luiz Ramalho e Rafael Faustino
Direção de Arte: Ronaldo Fraga
Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Direção de Movimento: Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Visagismo: Simone Batata
Assistente de Direção: André Dib
Assistente de Produção Musical: Nara Guimarães
Engenheiro de Mixagem: Fernando Gressler
Produção Executiva: Marita Prado
Assistente de Produção: Cristiane Ferreira
Camareira: Maria da Guia
Assistente de Iluminação: Robson Lima
Design de Som: Carlos Henrique
Cenotécnicos: Jeferson Batista de Santana, Edmilson Ferreira da Silva, Douglas Caldas
Assessoria Financeira: Valkíria Góes
Fotografia: Cacá Bernardes
Assessoria de Imprensa: Morente Forte Comunicações
Produção: NIA Teatro
Apoio: Bradesco
Realização: SESI-SP

Serviço

A VISITA DA VELHA SENHORA
TEATRO DO SESI-SP (456 lugares)
Av. Paulista, 1313 – Bela Vista (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô)
Informações: www.centroculturalfiesp.com.br e (11) 3146-7439

Quarta a Sábado às 20h | Domingo às 19h

Entrada gratuita
Reservas antecipadas de ingressos online pelo portal www.sesisp.org.br/meu-sesi
Para apresentações entre dias 1º e 15, reservas divulgadas na internet a partir do dia 25 do mês anterior.
Para apresentações entre dias 16 e 31, reservas divulgadas na internet a partir do dia 10 do mesmo mês.

Ingressos remanescentes são distribuídos por sessão, no dia do espetáculo, a partir do horário de abertura da bilheteria (quarta a sábado, das 13h às 20h; domingo, das 11h às 20h).

Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 120 minutos
Gênero: comédia trágica

Estreou dia 18 de agosto de 2017

Temporada 2018: de 24 de Janeiro até 18 de Fevereiro