Crônica: A Borboleta Faladeira

EM REDE – A borboleta era incomum, não só por suas asas de um amarelo vibrante, mas também por seus assuntos intermináveis. Não hesitava em dar pitaco em todo tipo de conversa, e a cumprimentar até quem não era de cumprimento, e a dar bom-dia para todos, e a parar em qualquer jardim para conversar, e a bater as asinhas com euforia. Logo cedo ela assuntava com o universo e falava de como se adaptou fácil ao sair do casulo.

Certa manhã, eu percebi que um brilho diferente aparecera em seus olhos.

― Sou muito curiosa, ― disse a Borboletinha ― quero saber sobre tudo. Principalmente sobre as paixões…

― Ué?! Sua vida me parece apaixonante.

― Não é isso! ― completou a Borboletinha.

― Eu não penso assim.

A Borboletinha se encolerizou, fez cara de choro, no entanto, nem por isso deixou de falar.

― Ele me fazia sentir tão bem, mas agora nem olha pra mim…

E pôs-se a chorar de verdade.

― Calma, o que aconteceu? Ele quem?

― Eu estava voando para cá e o vi, sentado sozinho em uma janela, olhando em minha direção. Como não sabia o que dizer, disse apenas “Bom dia!”. E ele não me respondeu, virei as costas e voei até aqui.

Chamei-a para mim, carinhosamente.

― Você é muito vaidosa, para que tanto capricho? O amor é assim mesmo e é melhor aprender o quanto antes. Esse sentimento é porque o amor já bateu à sua porta, e até mesmo uma tola faladeira como você não sabe o que dizer nessas horas. Vá até ele, novamente, e abra o seu coração, antes que outra borboleta o faça.

A Borboletinha levantou-se, muito confusa.

― Obrigada ― disse a Borboletinha enxugando as lágrimas. ― Mas por que a vida é assim?

― Não sei dizer.

A Borboletinha levantou voo novamente.

― Desculpe, não quero lhe incomodar ― disse ela. ― Apenas preciso de um conselho.

― Sobre o quê?

― É que quando eu… eu…

― Vamos, diga logo.

― Quando eu não sentia nada pelo Borboleto, ele conversava comigo, dizia que eu era sua melhor amiga e que eu era a borboleta mais bonita do mundo. Falava comigo todos os dias, me procurava quando eu estava ausente. Ele era fabuloso e eu achava que tudo aquilo era mais do que amizade. Por isso fiquei tão confusa.

― Quem lhe garante que ele não está tão confuso tanto quanto você agora?

Então, rimos um bocado daquela conversa boba.

― É mesmo! ― respondeu a Borboletinha enxugando mais uma lágrima, agora de felicidade. ― Mas eu ainda não sei o dizer quando encontrá-lo novamente.

― Então não diga nada. Apenas pouse ao seu lado e deixe as coisas acontecerem.

E, olhando para trás, ela ainda disse:

― Ai! É muito complicado este negócio de bater asas.