Crônica: Caio

EM REDE – São Paulo. Avenida Faria Lima. Um prédio qualquer. Nono andar. Funcionário novo. Caio chegou às nove horas e arrumou a mesa com uma paciência intrigante – o que demorou ao menos 40 minutos –, e depois, muito educado, pediu licença para ir ao banheiro.

─ Claro que sim, nem precisa pedir, deu vontade é só pegar a chave ─ respondeu Maggi, o chefe da seção.

Caio então pegou uma enorme necessaire e partiu. Uma hora depois, Maggi se deu conta de sua ausência.

─ Cadê o Caio? ─ perguntou ao primeiro que apareceu.

─ Não sei.

Ficou intrigado. Procurou a chave do banheiro. Não encontrou.
─ Será que ele ainda está lá? Puta que pariu!

Foi até o corredor, viu a porta fechada, mexeu na maçaneta. Nada! Foi em outros departamentos procurar pelo rapaz até desistir. Minutos depois a porta do banheiro se abre e Caio sai tranquilamente. Maggi, boquiaberto, não quis tocar no assunto, apenas se limitou a perguntar:

─ Tudo bem com você, Caio.

─ Sim, tudo bem ─ ele respondeu com certa timidez.

Ficou por isso mesmo. Devia ser algum mal súbito ou incontinência.

Dia seguinte. Horário: 9h40min. Caio pega a chave do banheiro. Maggi o acompanha com os olhos. Ele fecha a porta. Maggi espera 20 minutos, depois a curiosidade o domina. Vai até a porta e espera.

Nesse meio tempo outros funcionários aparecem para usar o banheiro. Maggi cochicha.

─ Está ocupado.

Uma pequena fila se forma. Eles se entreolham com aflição silenciosa. Maggi encosta o ouvido na porta.

─ Nenhum barulho.

Olha pelo buraco da fechadura.

─ Tudo escuro.

A curiosidade aumenta.

─ O que será que aconteceu? Chamo o zelador?

Ninguém sabe o que dizer. Ele bate na porta. Nenhuma resposta. Fica inquieto, olha no relógio: 10h20min. Mais uma vez desiste.

─ Todo mundo para o trabalho.
─ Não dá, estou apertado ─ responde o mais aflito.

─ Vá em outro departamento.

Trinta minutos depois Caio abre a porta. Maggi espera algum tipo de satisfação. Nada. Somente aquele gestual languido até sentar à mesa. Maggi vai até o banheiro, dá uma fungada no ar. Nenhum cheiro.

Terceiro dia e, pontualmente às 9h40min, Caio pega a chave e parte para o banheiro.

Quando Maggi se dá conta os passos de Caio já estão adiantados. Ele corre. Tarde demais. Caio fechou a porta e nunca mais voltou.