Crônica: eu mudei

― Senhor Fábio, os dados são divergentes. Não posso dar continuidade nessa operação! ― disse o caixa.
― Impossível! ― respondeu o cliente com um sorriso no rosto. ― É o cheque de um dos meus melhores clientes. Chame o seu gerente, por favor!
Veio o gerente com ar de seriedade.
― Boa tarde, senhor!
― Não acredito! Roberto? Robertinho? Não se lembra de mim?!
O gerente ficou pasmo de alegria.
― Fabinho! É você garoto?
O gerente abandou as formalidades bancárias atravessou o balcão e deu um abraço no amigo. Depois o levou até sua mesa.
― Rapaz… está diferente…
― E você parece o mesmo menino de sempre, com menos cabelo, é claro!
― Sabe, às vezes eu pensava em você. Ficava me perguntando: “Onde se meteu aquele moleque que só fazia besteira?”.
― Eu mudei.
― Dá pra ver… todo bem vestido, esse terno deve ter custado uma nota.
― Custou. É uma grife muito seletiva.
― E o que faz da vida?
― Sou empresário.
― Não brinca!?
― Movimento milhões, tenho mais de mil funcionários, filiais por todo país… fica com meu cartão. Aí tem o meu endereço, telefone, tudo…
― Quem diria?! Você devia voltar pra nossa cidade. Só pra passear. Já pensou na cara do pessoal daquela vila? A nossa professora da quarta série…
― Dona Zeni!? Ela me odiava. Dizia que eu nunca seria nada nessa vida.
― Mas você era um capeta. Era da pá virada…
― E você era o queridinho da professora, melhor aluno…
― Eu me esforçava bastante.
― Lembra quando o Padre foi conversar com a minha mãe porque a gente ia mudar pra cidade?
― Como esquecer? Ele repetiu tudo de novo na missa.
― Ele disse: “se a senhora não dá conta desse capeta em um vilarejo, como é que vai ser na cidade grande?”
― Queria ver a cara dele agora.
― E você? Não virou doutor por quê?
― Tive que trancar a matrícula da faculdade…
― Dinheiro?
― De certa forma sim. A faculdade era pública, mas eu precisava trabalhar para me alimentar e pagar os livros. O banco consumindo cada vez mais o meu tempo, depois eu casei, vieram os filhos e o sonho foi ficando distante. Ficou faltando só a entrega do TCC, mas aí o prazo expirou…
― É assim que o país vai desperdiçando os seus talentos.
― Bem, eu nem vou perguntar se você estudou porque sei que você odiava aquilo.
― Eu estudei. Tenho cinco diplomas. Sou matemático, contador, advogado, administrador de empresas e psicólogo…
― Você? Nossa!!! Lembro do tempo em que não sabia fazer uma conta simples de matemática, muito menos conjugar um verbo.
― Pra você ver. Eu mudei.
― Mudou mesmo.
O caixa interrompeu a conversa.
― Desculpe-me, senhor Roberto, mas eu preciso fechar o meu caixa e ainda falta o seu cliente.
― Nossa! Dezesseis e dez… Me dá aqui o cheque. Deixa eu vistar a operação. Esse aqui é um amigo meu de infância. Éramos vizinhos.
― Você sempre muito honesto e batalhador, né, Robertinho? Devia ser o diretor do banco.
― Nem me fala… Estou na fila. Mas é muito difícil. A concorrência é muito desleal. Eles querem vendas a todo custo. E você sabe, eu tenho um limite moral. Não vou vender capitalização pra velhinha em coma.
― Mas se é o que eles querem… eu faria! Já estaria na presidência do banco.
― Você sempre foi muito esperto, Fabinho. Não posso negar. Sei que você faria, mas você me conhece…
― Conheço, Robertinho. É por isso que estou aqui.
Volta o caixa.
― Aqui está o seu comprovante, senhor.
― Obrigado, Robertinho. Nem tenho como agradecer. Quando tiver um tempinho me liga.
― Pode deixar.
E depois de um abraço emocionado, Fabinho vai embora.
Uma semana depois, chega o inspetor do banco.
― Bom dia, Roberto. O senhor confirma essa operação?
― Sim, claro. Um amigo meu veio aqui. Gente conhecida.
― Amigo?
― Sim, amigo de infância. Empresário…
― Já que o senhor é amigo dele eu além de demiti-lo terei que chamar a polícia.
― Por quê?
― Porque esse homem é um estelionatário. Aplica golpes no país inteiro…
― E a empresa dele.
― É de fachada.
― Ele tem cinco diplomas.
― Todos falsificados.
― Eu vou ligar pra ele…
― Não adianta! Ele já fugiu. Apenas sente-se e aguarde a polícia…
Robertinho se senta, pálido, envergonhado, inconformado. Afogava-se em um mar de lágrimas enquanto em um mar calmo do Caribe Fabinho se divertia.
Não, Fabinho não havia mudado, havia apenas se aprimorado.