Crônica: Fala, meu bom…  

 EM REDE – Estava há muitos dias sem sair de casa. E, claro, com o coração partido pela morte de tantos cidadãos pelo mundo. Em alguns momentos cheguei a considerar tudo isso um pesadelo e, não fosse pela insistência do noticiário, testemunha oculta de tudo que não vi, eu já teria ignorado os apelos das autoridades médicas e evadido o meu isolamento.

Como de fato fiz uma tarde.

Coloquei minha máscara e fui ao mercado, como quem vai passear na Disney.

E ali estavam todos os meus vizinhos, assim, como um dia normal – não fosse o uso obrigatório das máscaras. E entre eles um sujeito que me parecia o mais estranho de todos. Não à toa, as pessoas o encaravam. Ele usava um enorme sobretudo preto de gola tão alta que roçava suas orelhas e que na outra extremidade varria a sola dos seus sapatos. Nas mãos dois pares de luvas: a de silicone era usada por baixo, a de lã ele usava por cima. Quando ia apalpar os legumes ele cuidadosamente tirava uma das luvas, apertava, e logo em seguida vestia a luva novamente. No rosto uma máscara muito bem arranjada combinando com seus óculos escuros e, para finalizar o figurino, um belo boné no estilo Pablo Neruda.

Entre todas as gôndolas, meu olhar se fixava nele – havia algo familiar em seus movimentos -, e tanto o encarei que ele apertou o passo, como quem vai fugir.

Foi quando gritei em meio à dúvida:

― Luluzão?!!!

O sujeito me encarou. Eu tirei minha máscara por meio segundo e ele me respondeu.

― Ahhh… é você.

Ficamos sem jeito de nos cumprimentar e por fim fizemos uma saudação pelos cotovelos. Uma cena hilária de se ver. Luluzão soltou seu famoso bordão:

― Faaalaaaaa, meu bom…

As pessoas se afastaram de nós. Luluzão tirou do bolso um antigo poema seu e começou a declamar.

― Cara, escuta isso.

Luluzão é uma figura incrível. Estudou Artes Cênicas comigo na USP e, além de ser meu vizinho, é um dramaturgo premiado e muito competente.

Mas eu só conseguia rir daquele modelo tão grotesco que me inspirou, de modo tão feliz, a escrever a minha crônica de hoje.

Que os deuses salvem os loucos, assim como salvam os bêbados!