Crônica: Gato por lebre

Diogo Veiga, especial para o Aplauso Brasil (Diogo@aplausobrasil.com)

SÃO PAULO – É com imenso prazer que apresento o mais novo colaborador do Aplauso Brasil, Diogo Veiga que escreverá crônicas relacionadas à  arte, tem do site, dando um viés literário. Doravante deleitem-se com esse novo talento.

É, realmente o ser humano é levado a fazer as coisas pela curiosidade. E foi a bendita curiosidade que aflorou em mim fisgando minha atenção para um espetáculo que entrara em cartaz há uma semana.

Aquelas letrinhas brilhantes entre dois olhos saltados, mulheres e homens coloridos, cheios de pêlos e plumas, em maquiagens extravagantes, a compor o cartaz, mexeram com os meus estímulos.

Curioso ao extremo fiz questão de escarafunchar na internet tudo a respeito do espetáculo. O enredo não era lá grande coisa – para dizer a verdade, bem comezinho -, porém, naquele momento, não foi o conteúdo que me prendeu, mas a embalagem , e como uma dona de casa que sempre se arrisca diante de um rótulo bonito, uma oferta tentadora, decide levar para casa o produto convencida de que aquele é o melhor no momento.  Dessa forma eu também estava convencido de que aquele era o melhor espetáculo do ano.

Incrível, quando você está intrigado por algo, o universo lhe esfrega na cara a todo instante que aquilo é bom e indiscutível para sua vida como num namoro novo. E não é que dentro do carro, no meio de um congestionamento no fim de tarde, já cansado, ligo o rádio e qual a primeira coisa que ouço? O nome do musical! A música de fundo ficou ali, na minha cabeça, e, sem exagero nenhum, cantarolei o resto da viagem toda, o mesmo refrão. Aquilo virou um mantra. E uma batucada com os dedos no volante, na mesa ou qualquer outro objeto que conseguisse lembrar a cadência da música, já me acalmava. E, no tóc-tóc no sofá de minha casa, com os olhos compenetrado na televisão, veio o comercial anunciando os atores famosos que faziam parte da peça, mostrava o diretor empolgado convidando o telespectador a assistir o musical.Quando ele disse que a peça já fora vista por mais de 50 milhões de apreciadores, fiquei letárgico. Precisava dar aos meus ouvidos e olhos aquilo de presente. Sem titubear comprei os ingressos

aaEra o primeiro da fila a entrar no teatro. Quando as cortinas se abriram, poxa vida, estava suando em bicas de emoção. Já matutava a ideia de dar de presente os ingressos a amigos queridos, para assistirem a mega produção.

Bem, trinta minutos havia se passado, muito colorido, muita correria, um mexe-mexe danado dos bailarinos. O clímax do musical certamente estava por vir. Não sei por que os meus pensamentos começaram a divagar e uma pontada de dor de cabeça foi me dando, talvez o calor, talvez a ansiedade por estar ali. E quando a personagem central começou a cantar, fazendo um sol, me concentrei realmente no musical, mas, surpresa: acabou o espetáculo.

As pessoas começaram a se levantar, luzes foram acessas e eu fiquei ali, sem reação. E a primeira palavra que veio a minha cabeça foi: cafona! Será por que eu estou no Brasil e não na Broadway? E o que era para ser esplendoroso acabou saindo uma cópia pirata mal feita. Não correspondia a nada do que havia pesquisado por horas a fio na internet. Não poderia pensanr dessa maneira, como? Olhe quanto colorido! Olhe a propaganda feita em cima! Olhe tem gente famosa!!! O diretor convicto de que é uma obra fenomenal! Ingresso caro! É coqueluche do momento! Foi até capa de revista! Como não gostar?

É, apesar de todo esse brilho que me venderam, os meus olhos não transmitiram brilho algum para o que estava acontecendo no palco; faltou, como posso usar a palavra certa, para isso? Mas faltou magia, a magia que o teatro pode proporcionar aos olhos de seu apreciador. A mesma magia que faz a criança gritar quando assiste a uma peça que há uma bruxa e ela se esconde, e, quando a mocinha aparece, a criança grita: TÁ ALI! TÁ ALI! Porque para ela isso se tornou real, não se importando se é uma árvore que fala ou uma bruxa que voa ou um gato que canta. E para mim é a mesma coisa, o que seria um faz de conta, vira um faz de verdade. Sai do teatro, desci as escadarias, entrei no carro e voltei para casa com a maior cara, infelizmente, com a maior cara de nádegas.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

8 Comentários
  1. Diogo, muito legal, já me senti assim, e comparo essa sensação de decepção a bombinha que falha,tapamos o ouvido e esperamos a explosão e nada, não acontece nada rsrsrs…mas que tal irmos assistir na Broadway?Bora querido para o state…bjo

  2. “Nem tudo que brilha é ouro” . Assim inicio meu comentário , devido ao poder , influêntivo que a midía exercer sobre as pessoas , pois o texto acima traduz a insatisfação do público . Não adianta ter super , mega produção , sendo que o espetáculo , não existiu, subestimão , nossa inteligencia e capacidade critica-analitica , tal evento recebe pessoas com bagagem e gosto cultural. Talvez seja essa a questão, querem empurrar , em nossas guela abaixo , produções que não , superam em nada , nossas espectativas, assim como no comentário foi solicitado , cadê o esplendor , a mágia do espetáculo, afim de nos deixar na ponta da cadeira ,ansioso com o desfeixo da trama, o desevolvimento da história capaz de hipnotizar-nos, de ficarmos perplexos e ansiosos com a finalização, com aquele gostinho : ” ah porque acabou , eu quero mais”.
    Bem! tomara que os produtores, autores,diretores ,atores tenham autonomia de produzirem espetaculos dignos de aplausos.

  3. ” Você é responsavel por aquilo que cativas”. Um pensamento que desceve o seu trabalho Diogo. Parabens…
    Não assiti o musical, mas lendo sua crônica, pude visualizar a insatisfação do público. E não adianta ter o rótulo bonito sendo péssimo o produto. Disperdicio de tempo e dinheiro.

  4. Diogo

    Quantas vezes compramos gato por lebre?!

    Nessa vida encontramos de tudo: ovelha que é lobo; anjos que são demônios; pombas que são serpentes… e assim vai!

    Em todo tempo as pessoas querem fazer-nos comprar algo pela embalagem, com laço vermelho cintilante e dentro é totalmente vazio.

    Sua crônica é perfeita!

    Nos encantamos e acreditamos na perfeição e de repente nos deparamos com a decepção e só resta ficarmos com ‘cara de bunda’, desculpa, apesar de ser uma lady, as vezes me vejo num lado “Dercy Gonçalves” … rsrsrs….

    Bem, eu adorei sua crônica. Viajei em suas palavras e concretizei as imagens em minha mente. Senti suas sensações, vivi sua ansiedade e me afligi com a sua decepção. Seu texto tem poder, menino!!!

    Que muitos e muitos outros textos venham. Quero saboreá-los como quem saboreia uma maçã suculenta e doce e que mastiga muitas vezes até engolir e que mesmo depois ainda fica o gosto na boca….quero ler suas crônicas e ficar remoendo na memória suas palavras e sair contando para os amigos a boa leitura que fiz.

    Parabéns….

    Você deixou um gostinho de “quero mais”!

    Sucesso e Brilho e Reconhecimento em sua trajetória de Crônista.

    Grande abraço, Grande Beijo

    Nanda Berthoud

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