Crônica: Liguei 136

SÃO PAULO – Fiquei sabendo que uma pessoa do meu convívio social estava internada por COVID-19. Olhei para os meus filhos, entrei em pânico. Depois de 24 horas de hesitação tomei coragem.

 

Liguei 136. Com o c… na mão. Achei que minha vida iria virar do avesso.

Imaginei que, assim que ligasse, uma central tecnológica imediatamente iria identificar a minha ligação. Pelo número do meu celular vasculhariam meus dados. Um helicóptero seria designado para as imediações de casa, a polícia seria acionada, assim como os bombeiros e toda uma parafernália de médicos e paramédicos. E todos iriam acampar em frente de casa. Globo, Record, SBT e muitos outros meios de comunicação iriam grampear a conversa e antecipar o furo. Ao vivo. Em um satélite, a 36.000 quilômetros de distância, uma luz vermelha começaria a piscar. Na China um agente seria designado para hackear o meu cartão de crédito e apagar minhas últimas compras na Rua 25 de Março e no Alibaba. Uma pop-up abriria no notebook de Vladmir Putin e ele, silenciosamente, colocaria a mão no queixo e bateria em seus lábios cerrados com a ponta do dedo indicador. Não obstante, Donald Trump abriria sua gaveta e pegaria o seu talão de cheque. O prefeito Bruno Covas, muito contente, faria uma vala sob medida para mim.

Eu suava frio. Mas eis que veio a mensagem:

“Disque um para isso, disque dois para aquilo, disque três para não sei o quê…”

Nem de longe aquilo parecia tão chato quanto realmente é, e pela primeira vez na vida eu não fiquei irritado com aquela gravação ridícula com a qual as operadoras telefônicas adoram nos torturar, embora eu tenha ligado mais de três vezes até conseguir falar com uma atendente, que tinha um sotaque difícil de entender.

“Pois não, senhor…”

Expliquei o meu caso:

“Escuta, na sexta-feira eu tive contato com uma pessoa e depois descobri que ela está internada com coronavírus.”

Ela iniciou uma ladainha sobre medidas de proteção, a mesma que a gente ouve a todo momento pela televisão.

“Um, lavar as mãos; dois, usar máscaras…”

E eu desesperado:

“Moça… ô moça… você escutou o que eu falei?”

Mas era inútil, ela estava muito concentrada na leitura.

Tentei insistir no problema, mas a mulher era mais lisa do que baba de quiabo. Nada tinha importância, nada era relevante. Ela só pensava em me dispensar e contabilizar mais uma chamada.

“Posso lhe ajudar em mais alguma coisa, senhor?”

“Quê?!!! Ajudar? ― pensei ― Você nem parece ter ciência da importância de sua função em um momento tão crítico.”.

Fiquei espantado, depois triste. A moça nem se deu ao trabalho de perguntar o meu nome. E eu que nas últimas 24 horas revirei todas as minhas gavetas em busca de documentos… e preocupado por não ter encontrado o último protocolo de vacina contra a febre amarela.

Quem sou eu? Um CPF? Não! Nem isso…

A moça tentou desligar. Fiz terror psicológico.

“Sei que você não perguntou… mas eu não estou com febre, ainda… nem estou com tosse, ainda… talvez eu seja assintomático… e se alguém morrer por minha culpa?…

Indiferente, ela falou pela última vez.

“Posso lhe ajudar em mais alguma coisa, senhor?”

Depois emendou.

“O senhor se importa em avaliar o meu atendimento?”

E eu:

“Hã?”

Desliguei o telefone. Por via das dúvidas olhei pela janela, para ver a movimentação.

Nada! Ninguém nas ruas. Era somente o barulho dos televisores.

O Brasil é fake, é e sempre será o país do carnaval.

Aqui se brinca até com coisa séria.

 

Escrito pelo colaborador Ricardo Reis

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.