Crônica: O Vírus da Verdade

EM REDE – De repente, Eliza começou a emitir sons guturais para o garçom que lhe trouxera a comida no restaurante. Números e palavras sussurrados esvaíam deseus lábios e, de olhos arregalados, ela escreveu algumas coisas em um pedaço de guardanapo e entregou ao garçom, que o leu com certo espanto antes de deixar a bandeja cair no chão.

“Você é muito ruim de cama, seu pinto parece um João bobo, sem ninguém pra empurrar”, dizia o bilhete.

Foi uma grande confusão. Gente apresada no caixa, gente engolindo o resto da comida, gente desistindo do pedido…
Não era para menos. Um vírus assolava o mundo, mais do que isso, assolava a mente das pessoas.

Gotículas de saliva, espirros, acessos de tosse, contato físico… tudo poderia contaminar a superfície daquele lugar… O vírus, qual spray, suspenso no ar. O pânico a se espalharpor todos os lados.

Vocês já ouviram falar, não ouviram? Sobre um vírus que se alastra rapidamente pelo mundo e que já contaminou boa parte das pessoas? Se não, fiquem atentos. É o Vírus da Verdade. E, pelo rosto desfigurado do garçom, era possível perceber que Eliza apresentava sintomas compatíveis com aquela doença. Além disso, para aumentar a tensão, morreu hoje no Brasil a centésima milésima vítima desse vírus. Era um pobre coitado que chegou em casa sem saber que estava contaminado e deu de cara com a esposa no portão. Trocou cinco, seis frases no máximo, e logo em seguida recebeu um golpe fatídico.

Em todo o mundo, oito milhões de pessoas já testaram positivo para o novo vírus, com taxa de mortalidade altíssima. Cerca de 55 mortes para cada mil infectados. Por isso a propagação desse vírus no Brasil era motivo de tanta preocupação, principalmente para a classe política.

― Onde já se viu? Um vírus coagir as pessoas a dizer a verdade? Como pode? ― se perguntava Eliza, ainda descrente.

Foi para casa.

Pelo caminho se meteu ao menos em mais cinco confusões. A verdade era pior que a doença: brigou com o motorista do táxi porque ele parou o carro em cima da faixa de pedestre; brigou na venda do Seu Luís porque o troco não veio correto; fez um verdadeiro furdúncio com uma amiga só porque ela atrasou seus habituais 15 minutos…

Era sorte Eliza ainda estar viva.

Mas não havia outra saída, precisava fazer um exame e entender o que estava acontecendo. Ligou para a farmácia, não sem dizer umas verdades. Agendou um teste rápido. Deu positivo.

Durante 15 dias não viu sequer a luz do dia.

Eliza passa bem, não teve sequelas.

Autoridades no assunto apontam a China como o possível local para o surgimento do vírus, mas o Governo Chinês já emitiu uma nota de esclarecimento dizendo que: “o vírus da verdade é uma mentira e eles não tem nada a ver com esse assunto”, embora o primeiro caso tenha sido registrado por lá.

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