Crônica: que inimigo, o quê?

EM REDE – Eu devo pertencer ao alto escalão de inimigos de muita gente. É o que imagino, sem muita certeza, claro. Digo isso por conta das provações que recebo todos os dias: buzinaços no trânsito, esperas intermináveis em filas, ameaças veladas, maus tratos, injustiças de toda espécie, implicância gratuita. Gente, a vida poderia ser um inferno, se eu desse alguma importância para isso.

Talvez as pessoas precisem mais de inimigos do que de amigos para sobreviver – ou para ter alguma motivação na vida. Mas as coisas não funcionam assim comigo. Sou muito exigente com meus inimigos. Mais exigente do que sou com meus amigos. Acredito que Oscar Wilde tenha razão:

Devem-se escolher os amigos pela beleza, os conhecidos pelo caráter e os inimigos pela inteligência.

Não é possível escolhermos uma pessoa qualquer e torná-la nossa inimiga. Eu peço desculpa para esta gente toda que vive de provocações, talvez na tentativa de se tornarem meus inimigos. Não dá. Sinto muito. Já tenho inimigos suficientes. Quer ver?

Fernando Pessoa é meu inimigo. Morro de inveja dele. Shakespeare, aquele bardo de Stratford-upon-Avon. O que dizer de Platão? Aquele filho da puta que fundamentou todo pensamento ocidental. E tenho muitos outros inimigos: Voltaire, Herman Melville, Antônio Vieira, Helena Blavatsky, Machado de Assis, Rousseau, John Milton…

O que restou pra mim? Nada! Eles não me deixaram nada. Reduziram-me a pó. Tudo que eu vier a escrever não será mais do que um resquício do pensamento desses grandes gênios da humanidade.

Leio todos eles, incansavelmente, com uma mistura de orgulho e devoção. Somos velhos inimigos. Eu procuro falhas em suas obras, questiono seus ensinamentos, duvido de suas magnitudes. E tudo isso em busca de algum engrandecimento próprio, de algum brilho que possa faiscar minha pobre vida.

Agora, me diga o que dizer a essas pobres almas que me provocam todos os dias?

Não estou a fim de seus problemas. Meus inimigos já me consomem o suficiente. Se quiserem, podem fazer o mesmo e escolher melhores inimigos que eu.