Crônica: Um Gesto Diz Tudo

EM REDE – Estou envolvido em uma questão assustadoramente simples e preciso da opinião dos leitores. Acontece que sou complexo e as coisas simples me aborrecem mais do que tudo, principalmente porque acredito que existe uma relação de causalidade no universo. Algo como: “a parte contém o todo”.

Portanto, assim como Heisenberg analisou o conceito do pensamento antigo dos gregos – para compreender a visão histórica da ciência manifestada por duas correntes antagônicas: o materialismo e o idealismo –, pretendo buscar um entendimento unificado sobre o aconteceu agora comigo; e tenho certeza que o sábio leitor será capaz de estender esse entendimento para muitas outras coisas e, por fim, me ajudar.

Mas essa é a parte do pensamento complexo, vamos voltar para a parte simples. Prática. Assim como ela aconteceu…

Um conhecido meu, que por acaso trabalha comigo, me ofereceu algo para comer e eu não aceitei. Logo em seguida, porém, fui surpreendido por ele enquanto a “Tia” repartia o seu lanche comigo.

O questionamento foi inevitável:
― Acabei de oferecer o meu lanche e você disse que não estava com fome!
O sangue sumiu das minhas veias. Fiquei branco feito um fantasma.
― Sr. Osvaldo…
― Sem querer desrespeitar a Tia, porque eu jamais faria isso, o lanche que ofereci era de ricota italiana com presunto espanhol. Paguei uma fortuna. E você prefere esse pão com mortadela?
― Eu explico…
― Acho difícil explicar, mas vamos lá, pode começar.
Nesse instante fui salvo pelo gongo, porque a recepcionista veio lembrá-lo de seu horário com o dentista.
― Ok. Estou indo ― ele respondeu para a recepcionista. Depois se voltou para mim. ― Amanhã você explica essa história.

Essa é questão! Preciso dar uma resposta para ele até amanhã e não sei o que dizer.

Agora vem a explicação… O meu real motivo para não aceitar o que o Senhor Osvaldo me ofereceu. Sei que a razão nunca chega até mim, porque o complexo escancara a porta da controvérsia.

O Senhor Osvaldo sempre consome o lanche em sua mesa, nunca no refeitório, e geralmente sobra alguma coisa no prato ou algum suco na jarra e ele, muito educadamente, oferece. Minha resposta é sempre a mesma.

― Obrigado, Seu Osvaldo, mas não estou com fome.

Tanto é que ele chegou sozinho à conclusão de que sou o tipo de pessoa que não come nada durante o expediente.

Da primeira vez cheguei a perguntar se ele falava sério ou se estava brincando. Ele se levantou da cadeira e fez um discurso bastante orgulhoso.

― É claro que estou falando sério ― E sorriu. Depois continuou. ― Não sou como estas pessoas egoístas. O negócio tá aí. Acha que vou jogar fora sabendo que tem gente precisando comer alguma coisa? Jamais. Faço qualquer coisa pra ajudar o outro. Pode pegar.

Ele insistiu por alguns minutos. Eu relutei, agradeci. Ele insistiu na explicação de que a vida é uma troca e que aquilo não era motivo para eu sentir vergonha. Até que a contenda cessou e eu pude respirar.

― Santo Deus! ― Lembrei de uma frase de Machado de Assis: se a controvérsia não nasceu conosco é porque já existia antes de nós.

Por fim ele colocou tudo dentro de um saco e chamou alguém da limpeza.
― Toma, pode comer, se não quiser comer pode levar pros seus filhos.

A pessoa agradeceu e saiu se curvando.

― Obrigado, Seu Osvaldo.
― Psiu. Não precisa agradecer não. Faço o que posso.
E Seu Osvaldo regozijou-se, cheio de amor por si próprio.

Agora vem outra explicação. O motivo por eu ter aceitado aquele delicioso pão com mortadela.

Pode não parecer, porém aquele pão tinha um valor inestimável. Tanto na sua preparação, desde a compra da mortadela e do pão em um local comercialmente chique, até a delicada forma como ele foi oferecido. A Tia chegou timidamente.

― Você está com fome?
E eu respondi.
― Não.
E ela retrucou.
― Que pena, eu trouxe um pão quentinho da padaria. Quer ver?
― Sério?
E ela se desmanchou num sorriso. Abriu a sacola e lá estava o pão, cheiroso, quentinho, imaculado. Tal qual ela havia me dito. Imediatamente senti minhas glândulas salivarem. Ela sabe que eu não resisto a um pão francês quentinho porque sempre dividimos alguma coisa no refeitório.
― Sabe de uma coisa? Eu vou aceitar um pedacinho.

E com que alegria ela abriu aquela sacola, e com que satisfação ela dividiu aquele pedaço de pão. Aquilo certamente foi um gesto sublime, digno dos píncaros estrelados. Verdadeiro exemplo de generosidade. Recusar aquele presente seria uma ofensa não só àquela mulher, mas aos deuses. Eu estava pensando no quanto aquele lanche representava no orçamento de uma pessoa tão simples. Foi quando Seu Osvaldo chegou.

Percebem a diferença?

É por isso que preciso da ajuda de vocês. Se falo a verdade corro o risco de perder o emprego, se conto uma “mentirinha” entro em conflito comigo. Se tento explicar a diferença entre os gestos, Seu Osvaldo pode se sentir ofendido. Não sei o que fazer. As pessoas detestam questões simples, no entanto, para mim não existem questões simples, nem soluções fáceis, a não ser que a gente evite pensar sobre elas.

Fico no aguardo de sua resposta.