De gorgeios e pios cariocas

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

IN ON IT é ótimo espetáculo da safra carioca

Os  dois primeiros meses do ano nos trazem os destaques cariocas da temporada anterior. Pressionados pelos festejos carnavalescos, os produtores do Rio de Janeiro preferem protelar suas estréias, optando pela praça paulistana, onde só se descansa no Natal e no Ano Novo. Daí a proliferação em nossos palcos das recentes montagens de lá.

Musicais da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho à parte, nem tudo são flores neste início de 2010. Falando figuradamente, raquíticos pios têm disputado espaço com harmoniosos gorjeios. Impulsionados por indicações a prêmios locais – como conseqüência, talvez, de estréias fracas em número superior ao desejável-,por aqui aportaram os  francamente  dispensáveis Play,  Palavras da Brisa Noturna e Corte Seco (a 1a. e a última ainda em cartaz).

1o. Pio :  PLAY

O texto teria como inspiração primeira o filme, já antigão, “sexo, mentiras e vídeo tape”. O autor foi indicado ao Shell carioca, fato no mínimo intrigante, já que o texto é um cipoal de maneirismos pós-dramáticos, o que nem a direção, nem o elenco (Maria Maya à parte, por seu brilho próprio) conseguem atenuar.Um espetáculo condenado ao inferno das boas intenções.

2O. Pio : PALAVRAS DA BRISA NOTURNA

Com temporada recém-encerrada, ficou como um dos raros fiascos da sempre sugestiva programação do SESC-Paulista.

Com  texto e direção de Fábio Porchat, cinco atrizes, com tom monocórdico pairando todo o tempo em seus solitários lamentos, procuram justificar invenções  imagéticas do diretor, na ligação entre os  depoimentos, que não conseguem fugir, estes, da sua origem literária. O ritmo lento, o quase sussurro de boa parte das cenas, transformam 60 minutos em horas intermináveis.

3O. Pio : CORTE SECO

É outra investida da diretora-criadora Christiane Jatahy (herdeira expontânea do teatro frívolo de Gerard Thomas, que decidiu, de vez e para sempre, bandear-se para a ópera) no gênero “lúdico” que lhe tem valido o incenso de júris e programadores (aqui, de novo, o SESC).

Vamos amenizar, entendendo que Christiane – aliás, muito simpática, cheia de juventude e descontraida em seu posto no palco, a direita do espectador- gosta de exercitar sua inteligência criativa fora dos limites de uma sala de aula de interpretação, sem se deixar envolver absolutamente nos questionamentos menos óbvios do relacionamento familiar.

Pena que, para tal prática,  Christiane tenha que arrastar ao  palco nomes respeitáveis do teatro, cinema e tv, tipo Eduardo Moscovis, que não conseguem apagar nos espectadores mais atentos a melancólica sensação de desperdício de tempo, de dinheiro e de talentos.

DOIS BELOS GORJEIOS

FESTA DE FAMÍLIA

Já falamos (bem) em matéria anterior de O Estranho Casal, atual sucesso do Teatro Folha. Sobram, então, nesse patamar, Festa de Família e In On It.

Uma empolgada ( o que é raro) Maria Lúcia Candeias, nossa parceira neste APLAUSO BRASIL, ocupou-se de Festa de Família, o contundente retrato de uma família da classe média dinamarquesa , dirigido com dolorida sensibilidade por Bruce Gomlovsky, nome de respeito na cena carioca, encabeçando ele mesmo um elenco sem pontos fracos.

Um espetáculo que deverá figurar no pódio dos melhores do ano da crítica paulistana (APCA).

In On It é outro magnífico exemplar do bom, sério e visceral experimentalismo cênico que se faz no Rio, esporadicamente. Ocupando-se de um engenhoso texto canadense (Daniel Macivor), desenvolvido em três planos simultâneos de realidade cênica, o trio Enrique Diaz (o super premiado e já mítico diretor carioca), mais os atores Emílio de Mello e Fernando Eiras (extraordinários, ambos), cria permanente adesão do público neste aparente quebra-cabeça formado por “peças” dos mais pungentes temas da humanidade: o desamor, a doença, a morte e a insegurança do presente, porém, sem deixar, ao final, uma sensação de amargura sem cura.

Belos e melodiosos “gorjeios”, ambos.

P.S.: vale lembrar, aqui,ainda, a presença, no Teatro FAAP, às 4as. e 5as. da sugestiva trama de Lúcia Veríssimo, cujo título – Usufruto –  só vai adquirir sentido no final do espetáculo. Maria Lucia Candeias, neste site, enfatizou as qualidades da autora, da atriz, do diretor e demais elementos da encenação, por nós agora endossadas.

SERVIÇO:

FESTA DE FAMÍLIA/SESC Paulista, av. Paulista, 119, fone 3234-3700/6a. a domingo 2lh30/ R$ 20,00/ 90 minutos/ 14 anos/até 14-3

IN ON IT/ Teatro FAAP, rua Alagoas, 903/ 506 lugares/fone 3662-7233/R$ 40, e 50,(sab) / 6a. 2lh30, sab. 21h, dom.18h/16 anos/até 28-3

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

3 Comentários
  1. É sempre um prazer ouvir as críticas de Afonso Gentil. São verdadeiras matérias sobre o fazer teatral. O seu texto extrapola a visão de um comentário sobre determinado espetáculo para nos dar um panorama amplo do que está acontecendo na cena paulistana. Parabéns, Michel, pela sua turma de articulistas.

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