DENISE FRAGA É “GALILEU GALILEI”

Michel Fernandes do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

SÃO PAULO – “Divertir para comunicar”. Tal pensamento de Bertolt Brecht reflete o que a atriz Denise Fraga acredita ser a missão do ato teatral. Ela deu vida a Shen Tê e Shui Tá em A Alma Boa de Setsuan, fábula do autor alemão, que ganhou as graças da crítica e do público (ficou mais de dois anos em cartaz), a partir de hoje ela protagoniza Galileu Galilei (versão de A Vida de Galileu), sob a batuta da diretora Cibele Forjaz, no TUCA.

O matemático e astrônomo Galileu Galilei, com bases em observações pelo telescópio – que, apesar de sua origem holandesa, foi por ele sofisticado – pode contestar o Modelo Geocêntrico aceito desde a Antiguidade Clássica por todas as esferas de poder, inclusive a Religião, que discordava de sua metodologia científica ao aristotelismo até então aceito.

Dito assim, o objeto motriz abordado por Bertolt Brecht, Galileu Galilei, ligado à disciplinas exatas, está fadado a gerar uma obra sem espaço para a obsessão do autor: a diversão. Mas aí é que fica clara sua genialidade, transformar em solo fértil o que aparente ser terreno árido.

“O Brecht queria falar para muitos, ele queria ser popular. Tinha ânsia da popularidade. Por isso, que eu me identifico tanto com ele, essa coisa que falo tanto dele: “divertir para comunicar”. Ele acreditava que podia fazer isso a partir de história bem contadas, com música…”, explica a atriz Denise Fraga. “Em Mãe Coragem (e Seus Filhos) é incrível porque ele usa o humor e a ironia juntos! Ele não separa: agora é engraçado, agora não. O tempo inteiro a ironia corre junto com o terror”, defende.

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

“Ele fala de coisas trágicas, traz reflexões profundas fazendo a plateia rir. Isso que eu acho genial, com o que me identifico, porque a hora que você ri, você captura uma ideia. Você está quase assinando um recibo de eu entendi. Ele conquista a plateia”,

Segundo a atriz a peça aborda a relação entre um homem e as estruturas de poder que o cercam. Como Brecht teve de “lidar com muitas estruturas de poder (inclusive precisou se exilar para fugir do Estado Nazista Alemão) tornou inevitável a identificação entre o autor alemão e o cientista italiano.

“Não é verdade que Galileu Galilei é uma crítica à igreja, é sim uma crítica ao poder. Na época a igreja era poder e exercia esse poder, a ponto de criar a Santa Inquisição que usava a tortura e, inclusive, matava pessoas em praça pública. Então, o que Brecht, na verdade, fala é da questão das estruturas e jogos de poder que todos nós estamos subjugados. Qualquer estrutura que você se insira você é obrigado a engolir sapo, a negar um pouco de si para ser conveniente e seguir adiante”, pontua Denise Fraga.

Fraga conta que o fascínio pela obra começou na época da turnê de A Alma Boa de Setsuan, em 2009, quando fizeram um grupo de leituras de peças do autor e ela se apaixonou pelo texto.

“Quando a Cibele (Forjaz, a diretora) disse que não tinha problema de ser uma mulher fazer o Galileu, eu embarquei”, comenta.

De “olhos brilhantes” como identifica o personagem que representa, Denise Fraga filosofa sobre a razão em se encenar a peça hoje:

“A grande estrela da peça é uma pessoa de olhos brilhantes que tem como provar a sua verdade, Galileu Galilei. Mas a verdade é a verdade que interessa ao sistema. E, é esse ‘o quanto eu abdico de mim mesma’ para não ir à fogueira, uma das grandes reflexões que a peça propõe. Até que ponto você vai se vender? E eu acho que hoje a gente serve a uma grande ditadura oculta que é a ditadura do poder econômico. A peça cria ramos para a reflexão econômica. Eu queria muito fazer agora, eu quis muito dizer esse texto e por isso eu tive a ‘ousadia’ de fazer Galileu que, obviamente, não é um papel para mim. A grande questão da peça é: o quanto deixamos que os ideais sejam diluídos dentro de estruturas a que servimos? Nos vemos fazendo pequenas concessões para não desagradar, para não perder o emprego. As estruturas de poder funcionam para que você se esqueça de si mesmo. Assim como Galileu, que negou tudo que fazia  seus olhos brilharem”, pontua.

Embora Denise considere ser impossível viver fazer “conchavos”, ela acredita haver um limite para que não abdiquemos de nossas reais convicções.

“O ponto limite é o coletivo, a gente tem que ter muito cuidado por que estamos sendo forçados a nos descompromissar com o coletivo. Somos apenas uma peça dessa engrenagem. Não quero ditar regra nem defender este ou aquele partido, mas sinto que falta o ponto limite para dizer até onde você vai. -Se eu passar daqui deixo de ser a ‘Denise’, deixo de existir, minha alma morre. Tem que ter atenção em se perceber cidadão do mundo, responsável por um coletivo”, considera. “Mas o Brecht não finaliza nada. Ele deixa o questionamento. O que dá uma  esperança danada. Ele tem texto que atinge a plateia. Duranteos ensaios abertos e a plateia, formada por um público bastante heterogêneo, reagiu. Tinha gente que nunca ouviu falar de Brecht e falava: o conteúdo, o texto. Tenho prazer em pegar um ator alemão e você ver como ele tem popularidade e alcança a massa. Por isso ele queria o cinema e não conseguiu quando o poder começou a meter a mão nos roteiros dele, ele ficou enlouquecido e foi perseguido pelo Macarthismo. O Brecht teve envolto com as estruturas de poder e fez Galileu. Como achar brechas nessa estrutura louca para estar em dia consigo?”, conclui.

GALILEU GALILEI
GALILEU GALILEI

Ary França e Jackie Obrigon, companheiros de A Alma Boa de Setsuan, compõem o elenco   de 10 atores (Rodrigo Pandolfo, Lúcia Romano, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Luís Mármora, Silvio Restiffe e Théo Werneck– como ator e músico), sob as mãos da “maga da teatralidade”, conforme apelido dado por Denise, Cibele Forjaz.

“São 10 atores em cena. É um elenco grande. Maior produção. É uma peça enorme. No cinquentenário do TUCA que é um teatro enorme. Quando eu vejo a reação do público eu entendo o porquê eu estou aqui.O teatro tem um valor, é um ritual, esse ao vivo, o pacto que é. Por isso, recebo elas na porta. Agora é o ritual de transformação que é o teatro. Pacto de atenção durante as duas horas que estamos conectados nessa história. Mergulho raro. O tempo todo participamos, fazemos contrarregragem, me visto em cena como Galileu, tiro a peruca e falo como Denise a toda hora. A Cibele se ocupa em contar uma história e como contar a história”, finaliza.

GALILEU GALILEI
Gênero: Comédia
Censura: 12 anos.
Datas/Temporadas:
Estréia hoje Temporada: até 28 de Junho
Sessões: sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h
Onde: TUCA – Teatro da Universidade Católica

R$ 50 a 70

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.