Deus da Carnificina coloca a ideia do “politicamente correto” em cheque

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

Elenco de "Deus da Carnificina" - foto Guga Melgar

Segundo o filósofo alemão Max Webber, somos éticos quando criamos uma expectativa e agimos de acordo com a mesma. Logo, podemos chamar os dois casais que compõem o quadro das personagens de Deus da Carnificina, em cartaz no Teatro Vivo, de seres desprovidos de quaisquer resquícios de ética, já que estão submersos num comportamento que vai da máscara da polidez social ao rasgo agressivo e primitivo.

Yasmina Reza, autora francesa de Arte, Um Homem Inesperado e Três Versões da Vida, entre outras, re-afirma sua extraordinária habilidade em urdir palavras que preenchem um enredo, aparentemente, singelo: dois casais se encontram para resolver um problema ocorrido na escola de ambos os filhos – uma agressão física que custou dois dentes de um dos garotos. Os pais da vítima recebem os pais do agressor para que juntos decidam a atitude que devem tomar.

Num primeiro momento, as tintas pasteis adequadas ao estilo “politicamente correto”, esperada pelos “cidadãos civilizados”, preenchem os pinceis desses pais. O documento que deverá registrar o ocorrido é lido e, feita apenas a alteração em uma palavra, é aprovada por todos. Ainda no tom da civilidade, salvo pequenas rusgas entre a mãe do agredido e o pai do agressor, os anfitriões oferecem café e uma guloseima que,segundo o dono da casa, é especialidade da esposa.Ao final do encontro,  pelo menos os pais do agressor assim pensavam, os pais de ambos, acordam com a ideia de promover um encontro reconciliatório entre os garotos.

"Deus da Carnificina" - foto Guga Melgar

Entretanto, a solução pacífica que se sinalizava, toma rumos inesperados. Pequenos detalhes são o estopim para que o vulcão primitivo que habita todos os seres entre em erupção.

Em um de seus livros, o Dalai Lama conta uma curiosa história que pode ser aplicada aqui: em resumo, a história fala sobre um monge que decidiu se isolar na montanha para aprender a lidar com a raiva, no entanto, quando um pastor o inquiriu insistentemente sobre o que fazia lá, ele respondeu com o azedume da raiva que armazenou em seu coração. Assim o é com esses dois casais da classe média, escondem sua agressividade sob o manto das boas maneiras, contudo seu barril interior está repleto de pólvora e basta sutil chamuscada para haver a explosão.

Emílio de Mello, quem assina a direção da peça, moldou a encenação com simplicidade e clareza de objetivos. A direção é assertiva ao valorizar os intérpretes e as nuances de cada uma de suas falas. Deborah Evelyn, Júlia Lemmertz, Paulo Betti e Ora Figueiredo formam o quarteto afinado e equalizado de Deus da Carnificina.

Flávio Graff criou um cenário, ao mesmo tempo, simples e inventivo: uma mesa feita de peças de lego.

Marília Carneiro, responsável pelos figurinos, e Renato Machado, iluminação, caminham na senda da discrição, assim como todos os elementos externos.

Originalmente composta para o espetáculo, a trilha sonora de Marcelo Alonso Neves tem um movimento interessante no início da peça como se nos chamasse a um espaço ritualístico onde será contada uma história.

Deus da Carnificina, uma comédia sem juízo. Texto: Yasmina Reza; tradução: Eloisa Ribeiro; direção: Emílio de Mello; elenco: Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Paulo Betti; cenário: Flávio Graff; figurino: Marília Carneiro; iluminação: Renato Machado. Música original e projeto de som: Marcelo Alonso Neves. Produção: Cinthya Graber e Nacho Laviaguerre
Serviço: Teatro Vivo, Av. Chucri Zaidan, nº 860, Morumbi, São Paulo. Dias e horários: Sexta às 21h30/ Sábado às 21h/ Domingo às 19h. Bilheteria: 3ª a 5ª feira das 14h às 20h/ 6ª a domingo das 14h até o início do espetáculo.
Ingressos: Sexta e domingo – R$ 50,00, sábado – R$ 70,00. Classificação etária: 14 anos. Duração: 1h30m. Serviço de valet. Temporada: até 03 de julho.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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