Dez anos após sua estreia, ‘O Despertar da Primavera’  ganha nova versão de Charles Möeller & Claudio Botelho

 

Rio de Janeiro  – A versão musical de O Despertar da Primavera, de Charles Möeller & Claudio Botelho, chegou aos palcos brasileiros em 2009, com uma encenação que marcou época, arrematou dezenas de prêmios e revelou uma série de talentos que dominariam a cena artística nacional nos próximos anos. Exatamente uma década após a estreia, os diretores voltam ao musical com o elenco formado – mais uma vez – por jovens artistas, entre atores/cantores revelados em disputadas audições.

O espetáculo é uma adaptação da versão da Broadway de 2006, um eletrizante musical de rock vencedor de oito prêmios Tony, o mais importante do teatro americano. Baseado na obra de 1891 do dramaturgo alemão Frank Wedekind, um dos precursores do movimento expressionista, o espetáculo aborda o universo de um grupo de adolescentes que vivenciam situações de descoberta pessoal, despertar sexual e opressão, entre outras questões.

O Musical na Broadway (2006)

Com música de Duncan Sheik e letras de Steven Sater, Spring Awakening estreou na Broadway em 2006, e recebeu inúmeras críticas favoráveis. Segundo o New York Times, “A Broadway nunca mais pôde ser a mesma após Spring Awakening”. Já o crítico do The New Yorker afirmou que “Com uma poderosa e poética inteligência, o despertar aqui não é apenas o da sexualidade, mas o da narrativa musical”.

“A união do rock com um texto de 1891 foi um escândalo. É diferente de tudo o que vinha rolando nos Estados Unidos nos últimos anos, absolutamente vanguardista”, declara o diretor Claudio Botelho.

“A grande sacada é colocar a música de hoje relacionada aos jovens daquela época. Seus gritos e buscas permanecem os mesmos. O tempo passou, mas a essência do homem se mantém oprimida muitas vezes, especialmente diante da família, da Igreja e do Estado”, afirma o diretor Charles Möeller.

 

A montagem de Möeller & Botelho (2009)

O espetáculo foi considerado um fenômeno cultural, sucesso de público e crítica, colecionou fãs e conquistou diversos prêmios. Cultuado por um público, em sua predominância formado por jovens e adolescentes, a maioria indo pela primeira vez ao teatro, o espetáculo marcou toda uma geração. A comoção era tanta que muitos voltavam para ver a peça, duas, três, 10, até 20 vezes, e organizavam encontros e eventos, como flash mobs.

A versão brasileira de ‘O Despertar da Primavera’ conseguiu autorização para ser a primeira non-replica no mundo. Assim, usando o mesmo texto e canções, Charles Möeller e Claudio Botelho realizaram a primeira direção e concepção artística diferente da original, obtendo um resultado primoroso e grande repercussão.

“Foi um fato inédito montarmos uma produção tão recente da Broadway com a autorização para uma direção autoral. Geralmente, os espetáculos de grande sucesso levam muitos anos para que comecem a ser ‘licenciados’ pelos autores sem a obrigatoriedade da cópia. Tive total liberdade para a tradução dos textos e as versões das canções”, revelou Claudio.

“Eu já era muito apaixonado pela peça, antes mesmo de virar um musical. Várias vezes, em adaptações para musicais, perde-se a força do texto, mas o caso do ‘Despertar da Primavera’ é uma coisa raríssima, pois o musical consegue ser ainda mais contundente do que o original”, afirmou Charles.

 

O Despertar Original e seu autor

‘O Despertar da Primavera’ se passa na Alemanha no final do século XIX e conta a história de Melchior e Wendla. Ele, um jovem brilhante e rebelde que ousa questionar os dogmas vigentes. Ela, integrante de uma família de classe média alta, educada por uma mãe com rígidos princípios morais e religiosos. O encontro dos dois irá provocar a explosão do desejo, da vontade de conhecer o sexo e o amor. A história deles se cruza com a de vários outros jovens, como o oprimido e trágico Moritz ou a bela Ilse, que tem a coragem de usufruir de sua liberdade e se aventurar pelo mundo. Todos precisam enfrentar o peso da repressão e do conservadorismo, nos mais diversos estágios da sociedade. Questões como abuso sexual, violência doméstica, gravidez na adolescência, suicídio e homossexualidade, entre outros, vêm à tona na vida desses jovens.

A peça original denunciava os preconceitos e o conservadorismo das três principais instituições que regem a educação do homem: a família, a igreja e a escola. É considerada um dos precursores do expressionismo, movimento artístico que se caracterizou por uma oposição ao naturalismo. O teatro expressionista é anti-realista, se utilizando, quase sempre, de uma dramaturgia combativa com ênfase nos conflitos sociais e de um estilo de cenografia que optava pela fantasia, com espaços que não são mero fundo para a ação teatral, mas interagem e atuam como um novo personagem.

O original de Wedekind causou imensa polêmica na época de seu lançamento por tocar em tabus e levantar a bandeira da liberdade, questionando a repressão tanto no seio da família quanto no sistema de ensino alemão. Sem encontrar editores que bancassem o projeto, o próprio autor financiou a publicação, em edição limitada. A primeira montagem foi apenas em 1906, tendo o jovem Peter Lorre no papel de Moritz e Lotte Lenya como Ilse, mas logo o espetáculo foi proibido e, em 1908, foi vetada qualquer manifestação sobre ‘O Despertar’, com punições que poderiam levar os infratores para a prisão.

Em 1912, Wedekind conseguiu novamente montar o texto na Inglaterra, mas somente em alemão e com portas fechadas.  Nos Estados Unidos, a autorização para uma versão em inglês foi obtida apenas em 1917, mas um dia antes da estreia, em Nova York, o espetáculo foi novamente vetado. Com a mobilização da classe artística local, foi possível uma única apresentação. No ano seguinte, Wedekind faleceu e não pôde assistir ao renascimento da sua peça, que, com o apogeu do nazismo, ficou esquecida durante anos.

A filha de Wedekind, Kadidja, se exilou na América e conseguiu montar o espetáculo na Universidade de Chicago, em 1958. Logo, O Despertar da Primavera se tornou obrigatório nas escolas norte-americanas e virou um hino entre os jovens, com uma série de encenações ao redor do mundo.

A primeira montagem profissional e não adulterada de O Despertar da Primavera se deu apenas em 1974 na Inglaterra, 83 anos após o texto ter sido escrito. A produção foi extremamente incensada e reverenciada pela crítica, e muito de sua força vinha da brilhante tradução de Edward Bond, “escrupulosamente fiel à poesia e ironia de Wedekind”, segundo o London Times. Esta versão inglesa foi a base de todo o trabalho de adaptação para o musical.

FICHA TÉCNICA:

Baseado na obra de Frank Wedekind

STEVEN SATER – Texto e Letras                               

DUNCAN SHEIK – Música

CHARLES MÖELLER – Direção

CLAUDIO BOTELHO – Versão Brasileira

Um espetáculo de CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO

Elenco:

Bel Kutner (Mulher Adulta), Augusto Zacchi (Homem Adulto), Rafael Telles (Melchior), Tabatha Almeida (Wendla), João Felipe Saldanha (Moritz), Maria Brasil (Ilse), Bia Lomelino (Martha), Carol Pita (Anna), Daniele Thomaselli (Emma), Davi Pithon (Rupert), Diego Martins (Ernst), Gabriel Lara (Otto), Gabi Camisotti (Manu), Giovanna Rangel (Thea), Leonardo Rocha (Georg), Sara Chaves (Inga), Thiago Franzé (Hanschen) e Victor Leal (Dieter).

MARCELO CASTRO – Direção Musical

CLAUDIO BOTELHO – Supervisão Musical

ROGÉRIO FALCÃO – Cenário

MARCELO MARQUES – Figurinos

PAULO CÉSAR MEDEIROS – Iluminação

ALONSO BARROS – Coreografia

CHARLES MÖELLER – Direção de Movimento

ANDRÉ BRETAS e FELIPE MALTA – Design de Som

GABRIEL D´ANGELO e ERICK FIRMAMENTO – Design de Som associado

CRIS REGIS – Visagismo

LUCIANA CONDE – Produção Executiva

TINA SALLES – Coordenação Artística

CARLA REIS – Coordenação de Produção

Realização: M&B PRODUÇÕES

Temporada RJ:

Local: Theatro Net Rio – Copacabana

Data: 01 novembro a 22 dezembro

Horários: Sexta 20h, sábado 19h, domingo 19h

Duração: 120 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Temporada SP:

Será realizada em 2020. Data e local serão divulgados em breve.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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