Do Começo ao Fim: ausência de conflitos indica desejo utópico

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo (michelfernandes@superig.com.br)

 

 

 

Francisco e Thomás, amantes, irmãos
Francisco e Thomás, amantes, irmãos

 

Incomodo até aos mais acostumados aos temas que envolvem algum tabu, que dirão os moralistas-de-plantão?, o novo longa-metragem, de Aluízio Abranches, Do Começo ao Fim, coloca na telona o incesto e um relacionamento gay como temas de fundo. À medida que notamos a ausência de conflitos, que direcionaria o filme ao realismo cotidiano, mais nos convencemos estar diante de um manifesto do cineasta para a celebração de temas tabus, para quase todos os círculos sociais, de maneira natural. No foco do discurso cinematográfico está o Amor.

 

 

A questão do Amor que cresce do simples afeto entre os meio-irmãos, Francisco e Thomas, a sua efetiva identidade sexual não ecoa em conflitos familiares e/ ou sociais o quê, por um lado foge do lugar-comum que uma dose de realismo acarretaria, isso porque temas como homossexualidade e, mais ainda, não são aceitos com tanta facilidade. A opção de Aluízio Abranches não é, sobremaneira, a discussão da sexualidade nem de qualquer ponto polêmico da estrutura social – se a intenção for essa, o roteiro se revela quebradiço e insatisfatório –, mas provocar o espectador pessimista, descrente das relações inter-pessoais, de que a única possibilidade de seu fracasso reside no próprio agente da relação. 

do-comeco-ao-fim03Júlia Lemmertez na pele de Julieta, médica e mãe dos protagonistas, só precisa da câmera a focalizando enquanto olha aturdida os dois irmãos, “íntimos demais”, para deixar sua mais bela contribuição de Do Começo ao Fim.

Os irmãos Francisco (João Gabriel Vasconcellos) e Thomas (Lucas Cotrin) protagonizam o poético idílio amoroso desse filme que incomoda porque somos descrentes e pessimistas, pelo menos é o que penso. Ao deixar a sala do cinema em que vi Do Começo ao Fim saí com o real desejo de que o Amor, o Afeto, que anda tão distante de nossos dias, deixe sua máscara de utopia e ocupe a face da realidade.

 

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Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.