Duelo no vagão de trem

Maurício Mellone, para o Favo do Mellone – parceiro do Aplauso Brasil  (mellone@aplausobrasil.com

“O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas”

Produção carioca reproduz no palco o interior de um trem, a plataforma da estação e uma cidade: há o encontro e o desencontro de dois passageiros enquanto o espectador sente-se coadjuvante da cena

SÃO PAULO – Ao terceiro sinal e ao apagar as luzes da sala de espetáculo, a plateia é envolvida no clima criado por Xico Abreu em sua peça O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas. Com o cenário, o vídeo e a trilha sonora, o espectador parece que não está sentado na poltrona do Teatro Ágora, mas numa verdadeira estação de trem, prestes a embarcar na última viagem do dia, em que a citada moça de luvas entra no vagão onde está somente um homem. 

De uma animosidade inicial, diálogos ríspidos, eles iniciam uma troca de confidências, chegando à afetividade e ao sexo, em pleno vagão em movimento. No entanto, da mesma forma como entram, eles partem daquele trem para a solidão de suas vidas corriqueiras. O espectador pode ser um passageiro sentado ao lado daquela moça e daquele rapaz, graças à identificação com as cenas: que morador de uma grande cidade não passa por situações idênticas àquelas vividas pelos personagens da peça?

Para completar o clima nebuloso do enredo, a viagem de Ana (interpretada por Flávia Pyramo, que ao lado do diretor Renato Rocha assina a concepção do espetáculo) e de Ernesto (Ernani Sanchez) é numa noite de muito frio e aquele trem (ou metrô) é o último do dia.

Ambos já no vagão, quem puxa conversa é o rapaz, mas a moça, além de luvas, é de poucas palavras e muita agressividade. Graças à insistência de Ernesto, Ana resolve se abrir e, sem perceber, faz confidências e diz que é operadora de telemarketing e mora só. Pouco se sabe de Ernesto, mas a solidão une aqueles passageiros: de um contato ríspido inicialmente, eles chegam a fazer amor com o trem em movimento.

“O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas”

Mesmo depois deste encontro, as diferenças entre eles permanecem e as discussões também.

“Cuidado com o vão entre o trem e a palavra.”

Se Ana é contemporânea, trabalha para sobreviver e não consegue arranjar tempo para si mesma (é sugada pelo sistema opressor), Ernesto é uma pessoa sem passado e provoca um atrito na vida daquela mulher.

“Assim como o deslocamento físico é dificultado por congestionamentos, o trânsito emocional encontra-se represado no individualismo e na solidão. O trem significa a sociedade moderna em pleno movimento. O vagão é o espaço do encontro, onde a moça tem a oportunidade de trocar, de ver o outro e se ver por meio dele. Percebe, enfim, a possibilidade de trilhar novos caminhos, quebrando o círculo vicioso de auto-proteção-solidão”, diz a atriz.

“O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas”

Em 70 minutos de espetáculo, O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas deixa o espectador sob tensão, pois vivencia aquele inusitado encontro de Ana e Ernesto. Até que ponto não somos como aqueles personagens ou vivemos situações no mínimo parecidas com as de Ana e Ernesto?

“Encontrar alguém. Encontrar nós mesmos. Vagões cheios de vazios. Às vezes é preciso seguir viagem e não olhar pra traz, colocar a cabeça na janela e sentir o vento trazendo a esperança”, filosofa Pierre Santos, codiretor da peça.

Além do texto instigante do mineiro Xico Abreu e a interpretação visceral de Flávia Pyramo e Ernani Sanchez, o destaque da peça fica para o clima gerado no palco, graças à iluminação de Paulo César Medeiros, a projeção dos vídeos de Bruno Queiroz, a trilha sonora de Pedro Bernardes e o cenário de Flávio Papi. A cenografia é tão impactante que ao final o público é convidado a subir no palco para apreciar de perto a criativa instalação.

Roteiro:

O Trem, o Vagão e a Moça de Luvas. Texto: Xico Abreu. Concepção: Flávia Pyramo e Renato Rocha. Direção: Renato Rocha. Co-Direção: Pierre Santos. Elenco: Flávia Pyramo e Ernani Sanchez. Cenografia: Flávio Papi. Iluminação: Paulo César Medeiros. Trilha sonora original: Pedro Bernardes. Videomaker e mapping: Bruno Queiroz. Figurinos: Gabriella Marra. Fotos: Guto Muniz e Priscila Villas Bôas. Coordenação geral: Flávia Pyramo.
Serviço:

Teatro Ágora (88 lugares), Rua Rui Barbosa, 672. Informações: 3284-0290 e 3141-2772. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 19h.  Ingresso: R$ 30 (inteira). Pagamento: dinheiro ou cheque (não são aceitos cartões).  Bilheteria: terça a domingo a partir das 14h. Duração: 70 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 16 de dezembro.A

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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