Ele nunca usou black-tie

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

José Renato Pécora morre aos 85 anos

Esse JOSÉ RENATO nunca precisou (nem quis) usar o black-tie cultural (leia-se marketing) para provar que, em matéria de teatro, a tônica é arregaçar as mangas e ordenar “Ação!”.

Desde que se formou na 1a. Turma do Curso de Interpretação na EAD (Escola de Arte Dramática) de São Paulo, em 1950, José Renato não parou um minuto: quando não estava em Paris como assistente de expoentes do teatro da época, como Jean Vilar e René Clair, ou na Itália, desvendando com Giorgio Sthreller  os segredos dos palcos, sua primeira iniciativa (que ficaria como um marco do teatro paulista) foi importar dos Estados Unidos uma nova modalidade de espaço de representação teatral: a arena, com os tensos atores rodeados por uma desconfiada platéia de chiques do velho TBC. Isso aconteceu no Museu de Arte Moderna, exatamente no dia 11 de abril de 1953.

O estranhamento dessa estreia, não intimidou o pragmático encenador, que algumas montagens  e um ano depois inaugurava o Teatro de Arena, esse mesmo da rua Teodoro Baima.

Os primeiros anos do novidadeiro Arena foram de respeitável repertório internacional, que incluiu os franceses Marcel Achard e Molière, Pirandello (O Prazer da Honestidade e Não Se Sabe Como), Tennessee Williams (À Margem da Vida), e John Steinbeck, com seu denso Ratos e Homens (consta que, numa noite, chegando atrasada, uma amiga da atriz Riva Mimitz, desconhecendo o espaço cênico, foi direto abraçá-la efusivamente, gafe que só percebeu ao  olhar ao redor …).

Porém, à medida que a arena se impunha na cena cultural paulista, José Renato, na dupla função de empresário e diretor artístico, enfrentava as dificuldades financeiras impostas pelo tamanho diminuto da platéia. È bom lembrar que naquela época não existiam essas (suadas) facilidades de hoje em dia, fomentadas pelas leis voltadas à cultura: o empreendedor tinha que assumir todos os riscos por sua conta, para o que desse e viesse.

O Teatro murcho: morreu Zé Renato

Foi preciso chegar 1958 e com ele Gianfrancesco Guarnieri com  aquela revolução comportamental e da prosódia  invadindo eletrizantemente o teatro brasileiro, mais pròpriamente o Teatro de Arena, com  Eles Não Usam Black-tie. O sucesso foi estrondoso e José Renato, aliviado, pôde, ao que parece, incluir brioches no seu café da manhã!

O que se seguiu foi um torvelinho de montagens de textos nacionais, nascidos no Seminário de Dramaturgia, com o novato Augusto Boal alternando as direções com José Renato. Mas, ao que parece, o convívio com Boal e sua turma, Guarnieri inclusive, teve interesses artísticos conflitantes e José Renato após uma vigorosa montagem de Os Fuzis da Senhora Carrar, de Brecht, decidiu-se por uma nova, prolífica e bem sucedida carreira solo de empresário-diretor com uma sucessão de comédias de irresistível apelo popular, sem jamais descambar para a chanchada grosseira. Por muito tempo José Renato foi o Rei  da Comédia, título que acabamos de inventar para melhor situá-lo como aquele que quer ação acima dos palavrórios infindáveis das assembléias grevistas.

Nosso tímido (e não é que ele é?) operário das artes, nesse tempo todo da sua carreira, escreveu  sete peças de teatro, montou outras 70, deu aulas de direção teatral em universidade carioca e foi até presidente da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), a agora polêmica sociedade de arrecadação de direitos autorais.

Pesarosos por sua morte, reafirmamos: diferentemente de um talentoso, mas marqueteiro, como por exemplo, Caetano Veloso ou José Celso Martinez Corrêa, José Renato nunca trocou as mangas arregaçadas da camisa pelo black-tie para merecer o brilho das estrelas.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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