Elias Andreato e Leonardo Miggiorin em interpretações vigorosas

Nanda Rovere, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

"Equus"

SÃO PAULO – Alan Strang (Leonardo Miggiorin) cegou cinco cavalos com estilete, sem um motivo plausível, e está condenado à prisão. Para tentar salvar a vida do menino, a advogada (Mara Carvalho) conta com a ajuda de um famoso psiquiatra, Martin Dysart ( Elias Andreato) . O destino desse menino está nas mãos desse médico que precisa entender os motivos do crime para ajudá-lo. Eis a base da trama do inglês Peter Schaffer em Equus, cartaz do Teatro Folha.

Leonardo Miggiorin e Patrícia Gasppar em "Equus"

Dysart narra o encontro com o menino e divaga sobre a sua profissão. A solução do caso que tem em mãos é como um quebra-cabeças.  Alan é internado e o público acompanha as sessões com o psiquiatra, as lembranças do rapaz e sua relação com os pais. Aparentemente,  sua vida é normal, com os percalços comuns a qualquer ser humano, mas,  aos poucos, desvendamos seus traumas, suas paixões e fatos que demonstram um comportamento cotidiano a delinear perturbações psicológicas.

"Equus", de Peter Schafer, direção de Alexandre Reinecke

Um espetáculo que disseca a alma humana; que fala de amor, desejo, loucura, religião e hipocrisia de maneira envolvente e impactante. Aos poucos, o médico conquista a confiança de seu paciente.

Não há uma resolução do caso, mas fica claro que Alan não consegue controlar as suas emoções. O cavalo, Equus em latim, é a sua obsessão; significa o desejo de liberdade, é sagrado e ao mesmo tempo tem apelo sexual; mas também é o elo que possui com os seus pais e com a dificuldade em se relacionar com eles.

O público não presencia a resolução do caso, mas são apresentados indícios que desvendam o porquê do crime.

Seus pais são superprotetores. A mãe (Patrícia Gasppar), religiosa fervorosa; o pai ( Jorge Emil), é um comunista que não admite TV em sua casa e coíbe atitudes do filho que sinalizem religiosidade e mesmo ações típicas de quem está descobrindo a vida, como aceitar andar a cavalo com um desconhecido quando criança, ou frequentar um cinema pornô com a namorada.

"Equus"

Descobrir que o seu pai não é tão correto quanto sua mãe pregava é uma decepção que pode ter contribuído para o ato insano, assim como a dificuldade em se relacionar com a primeira namorada ( Bruna Thedy).

Os encontros com Alan suscitam no psiquiatra reflexões sobre a sua atuação profissional e a sua vida pessoal. Neste sentido, Equus é um trabalho que rende reflexões interessantes sobre o ser humano e o modo como conduzimos a nossa vida e nos relacionamos com o outro.

O cenário lembra uma prisão e um estribo e se transforma em ambientes, como a casa de Alan, cinema e praia. A luz contribui para desenhar a emoção dos personagens e, nos momentos em que a força das cenas se acentua, luz e trilha se unem para criar um clima de dramaticidade, em que a loucura e os devaneios dos protagonistas atingem o ápice.

Em alguns momentos, a estrutura é movimentada pelos atores, o que dá dinamismo às cenas e delimita os espaços diferenciados dos acontecimentos, sobretudo dos que ocorrem fora da clínica em que Alan está internado.

A direção de Alexandre Reinecke é competente. Guia com maestria os atores e consegue criar cenas dinâmicas, que prendem a atenção pela palavra e pela imagem.

Leonardo Miggiorin tem a tarefa de dar ao seu personagem nuances que revelam uma personalidade que pode ser extremamente dócil num determinado momento e logo em seguida apresentar um comportamento inquieto e perturbador. Consegue um desempenho primoroso.  O ator interpreta com vigor o seu personagem e sua fisionomia apresenta a alma inquieta e perturbada de seu personagem. Seus movimentos físicos são exaustivos e ressaltam os devaneios de Alan.

O texto é forte, mas mesmo nos momentos mais tensos Reinecke conseguiu imprimir sutileza às cenas, através das expressões corporais, sobretudo quando os atores se transformam em cavalos. Não há imitação, mas a representação de toda a voluptuosidade desse animal.

Elias Andreato é ator experiente, que traz a cada trabalho vigor impressionante porque se entrega aos seus personagens, desenha com competência seus gestos e emoções. É um ator que conquista pela empatia, carisma e qualidade das interpretações, independentemente das características do personagem que interpreta. O seu psiquiatra é questionador, seguro em suas ações e diagnóstico, e também pronto para tirar desse tratamento lições para a sua vida pessoal. Não há um apego emocional entre ele e Alan, mas a sua função é tentar ajudar o menino e os dois estabelecem um jogo em que a cumplicidade vai ganhando cada vez mais espaço. Dysart sabe como investigar a vida de seu paciente e suas ações são precisas. Elias e Leo protagonizam cenas marcantes, conseguindo uma empatia que merece aplausos. A relação médico/ paciente é intensa nos diálogos e o embate entre os personagens acontece via diálogo, contato físico e olhar.

Mara Carvalho, Jorge Emil e Patrícia Gasppar têm participações pontuais e que contribuem para a qualidade do espetáculo. Mara é a advogada. Segura e competente profissional, é quem solicita a ajuda do psiquiatra para evitar que Alan seja punido com a prisão perpétua. Jorge Emil e Patrícia Gasppar interpretam os pais, que não conseguem estabelecer uma relação harmoniosa e, apesar de amarem o filho, estão sempre punindo, ameaçando e brigando com Alan. Os demais atores têm pequenas participações, mas contribuem para que a narrativa tenha força.

Eqqus não é um espetáculo fácil, daqueles em que saímos da sala de espetáculos e esquecemos a encenação. As cenas permanecem em nossa memória e o teatro consegue, portanto, atingir o seu objetivo maior, que é suscitar reflexão.

A ligação de Alan com os cavalos e os momentos em que o menino demonstra imenso prazer em estar montado no animal, num misto de medo, gozo e felicidade são marcantes.

Ficha Técnica:

Dramaturgia: Peter Shaffer

Adaptação e Direção: Alexandre Reinecke

Elenco: Elias Andreato, Leonardo Miggiorin, Patrícia Gasppar, Jorge Emil, Mara Carvalho, Léo Steinbruch, Gustavo Malheiros, Bruna Thedy e Fernanda Cunha.

Cenários: André Cortez

Cenotécnico: Fernando Bretas (Onozone)

Figurinos: Renata Young

Iluminação: Paulo Cesar de Medeiros

Direção musical: Tunica

Preparação Corporal: Carol Mariottini

Fotografia: Chris Ceneviva

Assessoria internacional: Claudio Erlichman

Coordenação de Produção: Isabel Gomez

Assistente de Produção:Manuela Figueiredo

http://pecaequus.tumblr.com/

Serviço:

Equus

Teatro Folha

Temporada: até 1º de julho

Horários: Sexta, 21h30, sábado, 21h e domingo, 20h.

Ingressos: R$40 (setor 2) e R$60 (setor 1)

Duração: 90 minutos

Classificação indicativa: 16 anos

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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