EM CARTAZ: PEÇA “CONVERSAS COM MEU PAI” ENCERRA PROJETO DE CIRCULAÇÃO

SÃO PAULO – O ponto de partida de Conversas Com Meu Pai é uma caixa que guarda uma infinidade de bilhetes recolhidos por Janaina Leite e que trazem frases escritas por Alair, seu pai, que sofreu uma traqueostomia, perdeu a capacidade da fala e passou a se comunicar unicamente por escrito. A atriz, do Grupo XIX de Teatro, em parceria com o premiado dramaturgo Alexandre Dal Farra, flagra nesses papéis, o mote para a dramaturgia de uma comunicação silenciosa entre pai e filha.

Alguns anos mais tarde, essa comunicação silenciosa ganha mais um capitulo triste: desta vez a filha descobre sofrer de uma doença degenerativa que vai deixá-la surda. Nesse novo contexto, em silêncio, pai e filha, “conversam”. Em cerca de sete anos de trabalho, mais de 500 páginas de escritos e 60 horas de vídeos e áudios compõem a memória de uma espécie de performance de longa duração que teve seu término em outubro de 2011, com a morte do pai, o senhor Alair.

Uma infinidade de material foi produzido – entrevistas, diários e ficções – e diversos temas se sobressaíram como separação, silêncio, isolamento e morte, gerando tentativas formais que foram descartadas para que Alexandre Dal Farra produzisse o texto.

“Precisava ter um fluxo verbal para levar o espetáculo aos palcos e assim permitir me colocar como atriz. Pedi então ao Alexandre Dal Farra, que já estava acompanhando o processo, que organizasse a dramaturgia e encontrasse um texto final. A dramaturgia que ganhou força é, justamente, a que procura então cruzar as histórias – as versões – não só de memórias e visões sobre uma mesma pessoa, mas sobre o próprio processo. Foi o suporte para realmente eu entrar em cena”, conta Janaina.

A narrativa, assim como a montagem, foi organizada em três fases: a sala de jantar, o viveiro e o porão, correspondendo a três grandes movimentos do processo. Em a sala de jantar, o público é recebido pela atriz, que precisa contar um segredo, no saguão da Oficina Cultural Oswald de Andrade. Já em o viveiro, que acontece em uma sala no andar superior, a atriz faz uma autocrítica e desconstrói a narrativa da cena anterior e em o porão as memórias são resgatadas e o segredo anunciado na primeira parte pode ser desvendado.

Janaina conta que as primeiras ideias para um projeto artístico baseado nas “conversas” que ela mantinha com seu pai que não podia falar e que ficavam, em parte, registradas nos papeizinhos que ele usava para se fazer entender surgiram em 2008.

“Essas frases, tiradas de seu contexto, acumuladas aleatoriamente numa velha caixa de sapatos, me pareciam sugerir um possível ponto de partida para a criação de uma dramaturgia que, como a memória, colocasse o registro do vivido à mercê da complexa relação entre presente e passado, experiência e registro, viver e contar”, explica ela.

O pai de Janaina saiu de casa quando ela tinha quinze anos. Alguns anos depois, ele foi diagnosticado com um câncer na laringe, e só então, eles se reaproximaram. Em março de 2005 ele teve de ser submetido a uma traqueostomia e nunca mais voltou a falar. Alair Pereira Leite faleceu em outubro de 2011.

“A reaproximação entre meu pai e eu só se deu quando ele já não podia mais falar. Finalmente conversamos as conversas que nunca tínhamos tido antes. Passei a recolher, ainda sem saber para que fim, esses fragmentos, resíduos das tardes que passávamos juntos, sentados numa mesa de bar, pescando, ouvindo um disco na vitrola. Tinham as conversas e tinham os silêncios”, lembra a atriz.

Numa grande tela de projeção, são projetadas sequências aleatórias do material em vídeo captado por anos pelo cineasta Bruno Jorge. Remetendo a um depósito, o cenário da peça é composto de papéis – infinitos esboços –, objetos como plantas vivas, uma vitrola, uma piscina de plástico, um antigo quadro desproporcionalmente grande –, materiais que entulham o espaço remetendo ao excesso de um processo que se recusa a encontrar uma forma-síntese, um sentido único, e opta então por preservar seus elementos na forma bruta, acomodando os resíduos desta longa experiência.

Ficha técnica

Concepção e Interpretação: Janaina Leite.
Texto: Alexandre Dal Farra.
Direção e cenografia: Janaina Leite e Alexandre Dal Farra.
Vídeos: Bruno Jorge.
Iluminação: Wagner Antônio.
Figurino: Melina Schleder.
Direção de Palco: Michel Fogaça.
Design Gráfico: Rodrigo Pereira.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli.
Duração: 65 minutos. Classificação etária: 14 anos.

Serviço

OFICINA CULTURAL OSWALD DE ANDRADE
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro (próximo à estação Tiradentes do metrô).
Informações (11) 3221-4704.
De 2 a 24 de junho – Sextas-feiras às 20h e sábados às 18h.
Capacidade: 40 lugares.
Ingressos: Grátis (retirada com uma hora de antecedência).

Oficinas POÉTICAS AUTOFICCIONAIS NA ARTE CONTEMPORÂNEA.
De 10 a 17 de junho, sábados das 13h30 às 16h30.
Inscrições: Até 2 de junho.
Seleção: por ordem de inscrição.
Público alvo: atores, diretores e dramaturgos a partir de 18 anos
Capacidade: 25 vagas.
Gratuito.

Redação Aplauso Brasil (redacao@aplausobrasil.com.br)

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