Em Prazer quatro amigos lutam para ser felizes

Maurício Mellone, para o Favo do Mellone – parceiro do Aplauso Brasil  (mellone@aplausobrasil.com)

“Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.” (LISPECTOR, Clarice em “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”)

Tendo o livro Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice Lispector, como inspiração, os atores mineiros da Cia. Luna Lunera dividem, também, a direção do espetáculo, que está no CCBB-SP até 16/12 e volta em janeiro de 2013

SÃO PAULO – A premiada Cia mineira Luna Lunera acaba de estrear seu mais novo espetáculo Prazer, no CCBB-SP, e intensifica sua proposta criadora. Assim como já haviam feito com Aqueles Dois, baseado no conto de Caio Fernando Abreu, os atores além de atuarem assinam a direção da peça. Desta vez não quiseram adaptar ou ter como base uma obra, preferiram ter como fonte inspiradora tanto Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres como o universo da escritora Clarice Lispector. Mais precisamente, os atores ficaram impactados com um trecho desta obra:

 “Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.”

Com este mote que Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Zé Walter Albinati conceberam o espetáculo, em que quatro amigos, apesar das inquietações, angústias, perdas e dificuldades cotidianas, tentam a coragem de buscar a alegria. 

Ao entrar na sala de espetáculo, o público já encontra os quatro atores em cena, escrevendo frases, pequenos poemas ou mantras que no decorrer da peça fazem parte do drama vivido por cada personagem.

Na cena inicial, eles ficam sentados em roda e lembram imagens importantes de suas vidas. Em seguida, com imagens projetadas pelo cenário, eles se movimentam rapidamente e respondem e enviam mensagens eletrônicas entre eles.

Como em cada mensagem eles relatam o momento que estão vivendo, o espectador vai montando o perfil destes quatro amigos.

“Prazet”

Camilo (Cláudio Dias) é o único que está no Brasil, vende seguro de vida e está bem financeiramente, mas sente-se só e infeliz. Isadora (Isabela) é artista plástica e foi para o exterior acompanhando Osório (Odilon), que é médico: eles já se separaram, são bons amigos, mas ela está frustrada profissionalmente e ele, por estar longe de seu país e da família, sente que perdeu a confiança no irmão e em consequência, perdeu a confiança em si mesmo. Marcos (Marcelo) é comissário de bordo e não sabe lidar com a perda, sua mulher o abandonou.

Camilo abandona tudo no Brasil e sai pelo mundo só com uma mochila: eles se reencontram depois de anos e o velho ritual ainda é uma realidade: eles se reúnem regularmente e cozinham juntos. É desta união fraternal que eles buscam forças para superar suas dificuldade cotidianas.
A referência à obra de Clarice Lispector fica evidenciada: apesar da angústia, da insatisfação, da depressão e da perda, juntos eles conseguem se ajudar mutuamente. Se não superam todos os males, é desta fonte de energia vital — a amizade — que se abastecem para se fortalecerem.

Num mundo em que cada vez mais as pessoas se comunicam de maneira impessoal e fria (por meio dos aparelhos eletrônicos) e os vínculos afetivos estão fluidos, Prazer vem como um alento e uma esperança! Em diversos momentos da peça fiquei emocionado pela beleza plástica do espetáculo, mas principalmente pelo congraçamento e união daqueles quatro amigos. Saudade do que já vivi e esperança de poder romper o isolamento e a solidão, tão comuns a nós paulistanos. Que o modo de vida retratado no palco pelos mineiros de BH possa influenciar e motivar as plateias deste nosso imenso Brasil.

 

Fotos: Adriano Bastos e Carlos Hauck

Roterio:
Prazer
. Concepção e dramaturgia: Cia. Luna Lunera. Atuação e codireção: Cláudio Dias, Isabela Paes, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves. Codireção: Zé Walter Albinati. orientação dramatúrgica: Jô Bilac. Preparação corporal: Mário Nascimento. Residência artística: Roberta Carreri. Figurino: Marney Heitmann. Cenário: Ed Andrade. Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho.
Serviço:
Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – São Paulo. Informações: tel: (11) 3113-3651 / 3113-3652. Teatro (125 lugares). Horários: Sexta, às 20h, Sábado, às 17h e 20h e Domingo, às 19h. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (meia). Bilheteria: terça a domingo, das 9h às 20h. Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física. Duração: 75min. Classificação: 16 anos.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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