ENTREVISTA: ARGENTINO FALA DE PEÇA EM PARCERIA COM COMPANHIA BRASILEIRA QUE ESTREIA EM SP

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"Santiago Serrano", autor argentino, estreia espetáculo em parceria com a Cia Plágio. Foto/crédito: Humberto Araujo.
Santiago Serrano, autor argentino, estreia espetáculo em parceria com a Cia Plágio. Foto/crédito: Humberto Araujo.

SÃO PAULO: A Cia Plágio de Teatro, de Brasília, estreia o espetáculo Noctiluzes,  a partir de oito de julho, no Teatro Pequeno Ato. A peça foi escrita pelo autor argentino Santiago Serrano especialmente para o grupo. O elenco é formado pelos mesmos atores do premiado espetáculo CRU (ganhador de 13 prêmios), Chico Sant`Anna, Vinicius Ferreira e Sérgio Sartório (que também assina a direção). O espetáculo fica um mês em cartaz, de quarta a domingo. 

O Aplauso Brasil conversou com o autor argentino sobre o espetáculo, América Latina e muita arte.

Serrano, que é psicanalista também, diz que sua profissão não influência de forma consciente na escrita. E que ele gosta “de partir do amor como temática em um sentido amplo”. Segundo o autor, “Noctiluzes é uma peça reflexiva, de muito humor, mas também que chega até a sensibilidade do espectador. Um espetáculo cheio de magia e poesia”.Notluzes

Serrano já é velho conhecido dos brasileiros e entre os sucessos que encenou por aqui está espetáculo Dinossauros, que tem percorrido quase todos os festivais de Brasil e Portugal.

O autor argentino diz que tem uma especial conexão com o Brasil. “Meu pai morreu em um acidente aéreo em São Paulo quando eu tinha seis anos. Sempre digo: eu sou brasileiro por morte de pai”.

Em Noctiluzes, Serrano convoca o risco criativo para mais um desafio: de criar uma peça feita para três atores “tão talentosos e cheios de vontade para fazer teatro”. O espetáculo foi feito por ele com toda a liberdade, mas surgiu de uma conversa com a Cia Plágio.

Na entrevista, Serrano celebra o teatro latino: “o melhor teatro e o mais provocativo sai deste continente”. Mas, lembra o quanto a arte tem perdido progressivamente o apoio do Estado à cultura.

Uma entrevista cheia de força e vida. Com um ‘hermano’ argentino que tem muito de brasileiro e amor ao teatro!

Confira:

 Aplauso Brasil: Você se encontrou com a Cia Plagio depois de ver Cru, último espetáculo do grupo. Como chegou a Cru?

Santiago Serrano: Eu conhecia muito o Chico Sant´Anna e o Sérgio Sartório. Gostava muito da trajetória deles e ainda mais dos dois como pessoas. O Chico é um ator de luxo. Acho que ele no palco dá sempre uma verdadeira lição autoral. O Sérgio é um animal teatral, cheio de talento e força. Logo assisti ao trabalho do Vinicius Ferreira e fiquei admirado do resultado.

AB: O que fez você querer fazer um projeto para o grupo?

SS: Acho que o desafio de criar uma peça feita para três atores tão talentosos e cheios de vontade para fazer teatro. Eu adoro o risco. A vida não tem sentido sem ele. Todo artista tem que correr riscos criativos.

AB: Você conversou com o grupo e eles lhes pediram uma peça sobre amor nos nossos tempos de intolerância. Podemos chamar isso de um projeto encomendado?

SS: Em realidade eles não pediram nada em especial, tudo apareceu na conversa. Eu gosto disso: compartilhar ideias e criar depois. Eu não fui condicionado por nada. Sai do encontro e eles ficaram dentro de minha cabeça. Seus corpos, vozes e possibilidades autorais. Eu não sou capaz de escrever uma peça como Cru, pois não é minha estética e poética. Gosto de partir do amor como temática em um sentido amplo.

AB: Como foi o processo para escrever o espetáculo?

SS: Cheio de adrenalina e muito gostoso. Adorei! Eu viajei por países muito diferentes e acho que a peça tem muito desses espaços que percorri. Eu escrevia e enviava o texto aos três atores. Eu ficava surpreendido do que acontecia e eles também. Sempre esperava seus comentários para continuar. Foi um trabalho de ida e volta. Um modo colaborativo de produção, mas com muita liberdade para mim. Eles foram extremamente generosos e abertos. Noctiluzes é uma peça reflexiva, de muito humor, mas também que chega até a sensibilidade do espectador. Um espetáculo cheio de magia e poesia.

AB: Você tem uma relação forte com o teatro brasileiro. Essa não será sua primeira peça aqui. Por que esse intercâmbio artístico?

SS: Não é minha primeira peça. Foram estreadas muitas outras no Brasil. Eu sinto um profundo agradecimento ao Guilherme Reis por fazer conhecido meu trabalho com a peça Dinossauros, que tem percorrido quase todos os festivais de Brasil e Portugal. É muito louco, mas quando eu escrevo uma peça para Brasil penso em sua língua e em vocês. Amo este pais. Sou estrangeiro, mas tenho uma particular conexão. Meu pai morreu em um acidente aéreo em São Paulo quando eu tinha seis anos. Sempre digo: “eu sou brasileiro por morte de pai”.

AB: Qual seria, para você, o grande mérito do teatro brasileiro?

SS: Eu acho que é a variedade e a grande riqueza de artistas. O melhor para mim é que tem teatro diferente e de qualidade. E isso não só em São Paulo e Rio de Janeiro, são em muitas outras cidades como Brasília, Belo Horizonte, etc.

AB: O que seu lado psicanalista influencia no dramaturgo?

SS: Não é consciente para mim. Não escrevo como psicanalista. Eu fui ator e logo dramaturgo. Escrever para mim é uma atividade totalmente teatral. É possível que a sensibilidade de minha escuta profissional tenha influência, mas acredito que não é a mais importante. O centro de meu olhar é criar peças pelos atores em um espaço cênico dirigido a um público. O resto fica para a consulta psicanalista.

AB: Como latinos carregamos semelhanças no fazer teatral?

SS: Todo o teatro latino tem semelhanças, mas também não podemos generalizar. Eu conheço muito bem o teatro de quase todo o continente e cada um tem um jeito próprio. Acho que atualmente a maior semelhança, desgraçadamente, é a perda progressiva do apoio do Estado à cultura. Por outro lado, é também a força para reverter essa situação. O melhor teatro e o mais provocativo sai deste continente.  Então, viva o teatro!!!

Ficha técnica:

Texto e supervisão: Santiago Serrano. Direção e tradução: Sérgio Sartório. Codireção: Rachel Mendes. Elenco: Chico Sant’Anna, Sérgio Sartório e Vinícius Ferreira. Iluminação: Sérgio Sartório e Vinícius Ferreira. Cenário e figurino: Roustang Carrillho. Trilha sonora: Tomás Seferim. Direção técnica: Chico Sassi. Produção Geral :Guinada Produções. Direção de Produção: Guilherme Angelim, Produção executiva: Daniela Vasconcelos. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 80 minutos. Temporada: 8 de julho a 9 de agosto. De quarta a domingo, 20h30. Ingressos: R$30,00 e R$15,00 (meia).

 Teatro Pequeno Ato – Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – Vila Buarque. Telefone: 11 99642-8350. Bilheteria aberta com uma hora de antecedência. Não aceita cartões. Ar condicionado. Capacidade: 40 lugares.

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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