Entrevista: Colaborador do Aplauso Brasil lança livro com textos de Mauro Rasi hoje em São Paulo

Kyra Piscitelli do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Luís Francisco Wasilewski é o responsável pelo prefácio do Volume 2 do "Teatro de Mario Rasi" (foto). Crédito: arquivo pessoal
Luís Francisco Wasilewski (foto) é o responsável pelo prefácio do Volume 2 do “Teatro de Mauro Rasi”. Crédito: arquivo pessoal

SÃO PAULO – Hoje é um dia especial para o Aplauso Brasil. O nosso colaborador Luís Francisco Wasilewski lança hoje (8 de outubro), em São Paulo, o livro Teatro de Mauro Rasi Volume 2, da Giostri Editora.  O crítico teatral é o responsável pelo prefácio dessa edição, que une três textos do autor que é ícone do teatro do besteirol dos anos 80: Batalha de Arroz Num Ringue Para Dois, O Crime do Dr. Alvarenga e Alta Sociedade. Luís Francisco, como o chamamos por aqui, é um fã e estudioso do teatro do besteirol. Tem tese de mestrado sobre o tema e adora contar a quantidade de visualizações e downloads que ela recebe. O evento acontece a partir das 19h30, na Blooks Livraria, que fica no terceiro piso do shopping Frei Caneca.

Para o lançamento, Luis preparou uma palestra animada, cheia de informação e risadas para o público. A mesma que apresentou em Porto Alegre, cidade onde nasceu, mora e já lançou o livro. Nessa entrevista, nada formal e feita por facebook – nos limites da distância que nos separa, ele fala sobre o teatro do Besteirol, que tem um “não lugar” no mundo acadêmico, já que sua tese é a única sobre o tema. Fala muito sobre a obra de Mauro Rasi, que por ele “talvez mereça mais três volumes”.  Rasga elogios Miguel Falabella: o “Oscarito da sua infância” e nos brinda com um trecho engraçado da obra de Rasi.

Confira e se prepare para se divertir e aprender:

Aplauso Brasil: Como recebeu o convite da Giostri Editora para fazer o prefácio de um livro com peças de Mauro Rasi? E esse é o segundo volume, né?

Luís Francisco Wasilewski: Foi o seguinte: a Giostri Editora começou a editar as peças do Mauro Rasi. Chamaram Marcus Alvisi para fazer o Prefácio do Volume 1, que contém as seguintes peças: A Cerimônia do Adeus, A Estrela do Lar e A Dama do Cerrado. Como eu estudei Mauro Rasi no meu Mestrado – ele é um dos meus escritores prediletos – e tenho uma ligação antiga com sua obra, o Alex me convidou em Julho para fazer o Prefácio do Volume 2. E dessa vez, o livro traz outras três peças: Batalha de Arroz Num Ringue Para Dois, O Crime do Dr. Alvarenga e Alta Sociedade.

AB: Você é um fã do teatro do besteirol, então?

 LFW: Desde criança. Minha paixão pelo teatro começou quando eu tinha 10 anos e vi Sereias da Zona Sul com Miguel Falabella e Guilherme Karam. Descobri todo o encantamento do teatro vendo esta peça e tornei-me um espectador assíduo por causa dela. Falabella adora quando eu digo para ele que “foi o Oscarito da minha infância”.

AB: E você acha que este teatro tem um lugar merecido na história do teatro?

LFW: Não. Infelizmente, só existe um estudo acadêmico sobre ele que é a minha dissertação de Mestrado, defendida em Março de 2009, na USP. Há um “não lugar” para o Besteirol no meio acadêmico. O que resultou que ele ficasse esquecido pela Historiografia do Teatro Brasileiro.

AB: Então, ter já dois livros sobre Mauro Rasi é fundamental para tentar trazer à cena essas obras, não?

LFW: Sim. Mauro Rasi é um autor injustamente esquecido. Estes dois volumes que a Giostri editou são preciosos para que o público conheça o Teatro de um dos nossos maiores dramaturgos brasileiros.

AB: No dia do lançamento em São Paulo, você vai falar com o público sobre o autor. O que o público pode esperar desse bate-papo?

LFW: Já fiz um lançamento em Porto Alegre. Na minha palestra conto – respeitando o tempo que tenho – a trajetória artística de Mauro desde quando Antonio Abujamra premiou O Duelo do Caos Morto, peça que Mauro escreveu com treze anos em Bauru, interior de São Paulo. Passo pela importância dele no Teatro Besteirol. Falo de suas criações para a TV, como quando escrevia para o TV Pirata. E termino falando de suas peças memorialistas como Pérola, seu maior sucesso que ficou quatro anos em cartaz. Também abordo o seu trabalho como cronista. Ele foi cronista do Jornal do Brasil e do Jornal O Globo.

AB: Você tem um texto preferido dele? Qual seria?

LFW: Eu sou apaixonado, como o público foi por Pérola. Tive o privilégio de ver a encenação emblemática. No entanto, há dois textos dele que não são muito conhecidos e pelo qual sou apaixonado: A Mente Capta e A Família Titanic.

AB: Nenhum deles nos livros (vo.1 e vol.2), certo? Então, a obra de Rasi talvez mereça um terceiro livro? …risos….

LFW: Talvez mereça mais três volumes. A escolha dos textos publicados nas duas edições partiu da família dele e eles não têm acesso a todas as peças que ele escreveu. A Família Titanic, por exemplo, é uma raridade.

AB: Para terminar, faça um convite para que todos compareçam ao lançamento em São Paulo…

LFW: Espero todos no dia 8 de outubro, na Blooks Livros, às 19h30. Além do lançamento dos livros, posso garantir que a palestra tem momentos bem divertidos. Em Porto Alegre, muitos riram dos trechos que li das peças e crônicas de Mauro Rasi

AB: Ôpa!! Então, antes de terminarmos mesmo, você tem um trechinho de uma dessas peças?

LFW: Só um minuto…. aqui:  Um diálogo de A Mente Capta da Terapeuta com o analisando:

Doutora – Conta logo esse sonho.
Analisando (Continuando) – Tinha uma casa. Não era bem uma casa.
Doutora (Impaciente) – Era uma casa ou não era uma casa? Decida-se.
Analisando – Não sei. Era um lugar ermo, abandonado…
Doutora (Impaciente) – Sei…
Analisando – Tinha uma cerquinha quebrada, logo atrás uma moitazinha. E não era bem eu, Era eu e não era eu…
Doutora (Impaciente) – Era você ou não era você?
Analisando – Não sei. Não dava pra ver. Eu não sei se eu morava lá ou não. Só sei que eu tinha tanto medo daquela casa… E tinha um caminhozi-nho perto de um precipício, uma jaula, uns…
Doutora (Matando a charada) – Pode parar. Pode parar.
Analisando – O que significa esse sonho, doutora?
Doutora – Significa que você, quando era bebezinho tinha medo de ter ir-mãos.
Analisando – Medo de ter irmãos?
Doutora – Não queria que sua mãe tivesse mais filhos que disputassem com você o coração materno. Você amava sua mãe.
Analisando – Claro que amava. Ainda amo.
Doutora (Completando) – … Sexualmente.
Analisando – Credo, doutora! Como é que a senhora pode dizer uma coisa dessas?
Doutora – Sabe que às vezes eu também me pergunto? “Como? Como?” Mas eu digo: você sempre quis ter relações sexuais com sua mãe. E não só com sua mãe mas também com seu pai.
Analisando – Com meu pai? Mas, isso é um absurdo!
Doutora – Não discuta comigo. Quem é que é a doutora aqui? Se acha que sabe muito mais que eu, o que é que está fazendo aqui? E te digo mais: a cerquinha quebrada significa que suas tendências homossexuais já eram latentes na sua tenra idade.

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Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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