Entrevista com Gabriela Mellão: a poesia e o delírio do bailarino Nijinsky no Sesc Belenzinho

Kyra Pisictelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Espetáculo sobre o bailarino russo Nijinsky pode ser assistido até dia 21 de agosto, no Sesc Belenzinho
Espetáculo sobre o bailarino russo Nijinsky pode ser assistido até dia 21 de setembro, no Sesc Belenzinho

SÃO PAULO – Com dois espetáculos engatilhados na cena paulistana, a jornalista e dramaturga Gabriela Mellão falou com o Aplauso Brasil sobre o texto Nijinsky – Minha loucura é o amor da humanidade, em cartaz no Sesc Belenzinho até 21 de setembro.

A montagem trata de forma lúdica e simbólica a genialidade e a loucura do bailarino russo Nijinsky, que transgrediu as regras para transformar o ballet moderno.

“Nijinsky foi a primeira peça que eu escrevi, há cerca de 15 anos. É também a última. Desde que me lancei na empreitada de montá-la, reescrevi completamente o texto. Ou seja, Nijinsky me acompanha há muitos anos. E nunca estivemos tão próximos”, afirma Gabriela.

A dramaturga conta também sobre suas referências para o espetáculo. Elas vão de Dostoievsky ao O Diário de Vaslav Nijinsky, obra escrita pelo próprio dançarino, em 1919, quando a esquizofrenia o afastou da dança.

A parceria com o protagonista (e co-diretor) do espetáculo João Paulo Lorenzon também não poderia ficar de fora dessa entrevista apaixonante.

Gabriela faz ainda um convite para Ilhada em Mim, espetáculo sobre poetisa Sylvia Plath, que estreia dia 18 de setembro, no SESC Pinheiros. Segundo a autora, as duas peças abordam a mesma temática.

Aplauso Brasil: Quando surgiu a ideia de escrever um texto sobre o bailarino russo Nijinsky?

Gabriela Mellão: Meu trabalho final de pós-graduação em jornalismo cultural foi sobre Nijinsky. A tênue fronteira entre loucura e genialidade deste e de tantos artistas que marcaram nossa história sempre me atraiu. Todos os meus trabalhos teatrais tocam nesta questão de alguma forma. Dia 18 de setembro estreia no SESC Pinheiros outra peça minha (Ilhada em Mim, da poetisa Sylvia Plath), que também aborda esta temática. Nijinsky foi a primeira peça que eu escrevi, há cerca de 15 anos. É também a última. Desde que me lancei na empreitada de montá-la, reescrevi completamente o texto. Ou seja, Nijinsky me acompanha há muitos anos. E nunca estivemos tão próximos.

AB: Como surgiu a parceria com João Paulo Lorenzon, que além de protagonista assina a direção em conjunto com você?

GM: Convidei João para protagonizar o espetáculo há cerca de quatro anos. Quando começamos a idealizar o projeto, resolvemos dirigi-lo juntos. Eu e o João pensamos cada detalhe da peça juntos, ele também foi fundamental ao sugerir mudanças no texto, propor cenas, enfim, João é o idealizador do projeto ao meu lado. Como é protagonista do espetáculo, meu olhar “estrangeiro” foi responsável por indicar caminhos para os atores nos ensaios e marcar cenas. A peça foi criada a partir de improvisações dos atores. Ou seja, somos todos responsáveis pela criação da peça, eu, João e os demais atores.

AB: A montagem prioriza o lúdico e o simbólico. Essa preferência já existia na ideia embrionária do texto ou foi ganhando corpo no processo?

 GM: Extrapolar a linguagem realista e sugerir um novo tempo e espaço em cena sempre foi nosso objetivo. Quando me deparei com a empreitada de encenar este espetáculo, me perguntei: como retratar poeticamente os voos e as quedas do bailarino, sua glória e ruína? A cama elástica surgiu como resposta. Um palco inusitado que evoca o universo mental e corpóreo do protagonista.

AB: A montagem transita entre o sucesso e a decadência (lucidez e loucura, como já tratamos) de um gênio do Ballet. A dualidade se apresenta a todo o momento no espetáculo. Quais foram as referências para compor os universos de Nijinsky  em conjunto com os outros personagens da vida do bailarino que também são representados no espetáculo?

GM: Nijinsky rejeitou as regras do ballet clássico e da sociedade do início do século XX para dançar o instinto, no palco e na vida. Colocou demência em evidência. Transformou enfermidade em beleza, antecipando preceitos da arte contemporânea. O espetáculo retrata de maneira poética a trajetória do bailarino russo. O embate de Nijinsky, é, sob certo aspecto, o embate do homem consigo mesmo, com as amarras impostas por ele mesmo e a sociedade de seu tempo, que o afastam de sua essência  o impedem de viver de forma plena e absoluta.

Em um dos trechos do espetáculo, o bailarino deixa muito clara esta questão, quando diz:

“Ouço comandos de todos os lados, eles vem de todas as direções. Poderia me movimentar feito marionete em mãos de artistas habilidosos, mas mergulho no centro de mim, me ensurdeço, desabrocho as cordas que me imobilizam e, soltando um rugido que se anuncia através de meu corpo, grito isolamento e dor. Amo o impossível, o sonho, a miragem. Vocês tem regras, condutas de civilidade, bom senso, definições, medidas, padrões, tradições. Eu tenho a minha insanidade. Tenho a volúpia do amor, o instinto do desafio, o prazer da dor. Meu sangue corre feito bicho solto, galopa sem rumo. Desfruta a liberdade dos que não se comprometem com certezas jorrando as feridas abertas pelos massacres do homem. Celebro a vida dançando a solidão. Quero conquistar terras inexploradas, abrir caminhos que não tem fim. Transforme-se no sol e toda a gente o verá”.

Os personagens que contracenam com Nijinsky (Diaghlev, seu empresário e amante; Romola, sua mulher; Nijinska, sua irmã e Eleonora, sua mãe) são memória materializada, vozes que o acolhem ao mesmo tempo em que o violentam. São figuras que impulsionaram e ao mesmo tempo oprimiram Nijinsky e, no espetáculo também podem ser interpretados como forças internas que constituem Nijinsky, das quais, ao mesmo tempo, ele precisa se libertar para fazer valer sua essência plenamente.

O bailarino vive um embate consigo mesmo em cena, e chega a ser amarrado e torturado pelos próprios companheiros de palco ao longo do espetáculo, com cordas que estiram seus membros. Mas Nijinsky consegue se libertar de suas amarras, viver êxtases e glórias dançando a 3m do solo.

 AB: O espetáculo tem alguma pretensão em ser biográfico?

GM: Desde que me propus a mexer no texto original, dados biográficos e históricos perderam importância para mim. Eles são, de forma geral, a base da obra, sustentaram seus primeiros pilares, mas a sensação é de que a construção original foi se esvanecendo… ficou a essência de Nijinsky, mas a ideia foi chegar a uma representação poética de sua figura, sem compromisso com a realidade ou com a história.

O (espetáculo) original era muito didático. Os personagens que contracenam com Nijinsky já habitavam a mente de Nijinsky, como acontece no texto atual. Já agiam feito fantasmas manipulando seus pensamentos, seu imaginário, mas de forma geral o texto tinha um pé no realismo. A reescrita transformou-o completamente. Deu vida a um Nijinsky com a essência de Nijinsky, mas livre para fazer valer, sem compromisso histórico ou didático, suas pulsões de vida e de morte.

AB: Quando escreveu a versão mais atual da peça Nijinsky – Minha loucura é o amor da humanidade, já que foi seu primeiro e último texto?

GM: Os ensaios (para a peça) começaram em fevereiro, mas a reescrita da peça aconteceu em 2013. Foram muitas versões, nem contei pois sabia que perderia a conta!

Para escrever o texto original li biografias do artista e também O Diário de Vaslav Nijinsky, obra escrita durante seis semanas pelo próprio dançarino, em 1919, quando a esquizofrenia o afastou por completo da dança. No processo também soube que Nijinsky gostava muito de Dostoievsky. Cheguei a incluir várias passagens do autor no texto, como delírios do bailarino em cena. Quando reescrevi o texto, acabei mexendo nestas passagens, por insistência do João, que achava -as muito literárias. Recriei esse delírio com minhas palavras. O delírio, aliás, acabou se expandindo para todos os lados. A peça se tornou um grande delírio de Nijinsky. Sua essência sábia e demente e natureza das relações do bailarino com seu empresário, sua mulher, irmã e mãe permaneceram, mas o texto se transformou completamente.

NIJINSKY

Sesc Belenzinho

Sala de Espetáculos II (100 lugares)

Rua Padre Adelino, 1000

Telefone: (11) 2076-9700 | www.sescsp.org.br/belenzinho

Ingressos à venda pela Rede INGRESSOSESC (unidades do Sesc) e pelo Portal Sesc SP www.sescsp.org.br

Estacionamento: R$ 6 (não matriculado); R$ 3,00 (matriculado no SESC – trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo / usuário).

Quinta a Sábado, às 21h30 | Domingo às 18h30.

Ingressos: R$ 25

R$ 12,50 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública de ensino).

R$ 5 (trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes).

Duração: 80 minutos

Recomendação: 14 anos

Curta Temporada:

De 28 de Agosto até 21 de Setembro

Ficha Técnica:

Texto: Gabriela Mellão

Direção: Gabriela Mellão e João Paulo Lorenzon

Elenco: João Paulo Lorenzon, Michelle Boesche, Francisco Bretas e Nabia Vilela.

Trilha sonora: Raul Teixeira.

Desenho de luz: Fábio Retti

Figurinos: Thais Nemirovsky

Coreografia: Reinaldo Soares

Treinamento aéreo: Renato Marino

Costureira: Gabriela Cherubini

Operador de som: André Telles

Operador de Luz: Vinícius Passos

Fotos: Maurizio Mancioli

Assessoria de Imprensa: Morente Forte

Produção: Corpo Rastreado

Realização: SESC São Paulo

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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