Entrevista com o ator Roberto Pirillo: “Lutamos por uma democracia plena” 

Foto da novela Império

EM REDE – Alguns artistas vão além de seus sucessos na TV, Cinema e Teatro para condensar em si uma verdadeira aula da história da nossa cultura nesses segmentos. Roberto Pirillo, além de ser um dos principais atores do país, participou de grandes sucessos, acompanhou transformações e se mantém atuante e atualizado, e mantendo como poucos, uma ética e coerência exemplares em sua carreira e na vida pessoal.

Segue abaixo a íntegra que o ator me concedeu, por e-mail. Falamos de sua carreira, do rótulo de galã, Regina Duarte, ditadura, participação política e outros assuntos.

Aplauso Brasil – Você parece não ser um ator que se acomodou no rótulo de galã.                                           Noto isso também pelo fato de ter permanecido em emissoras de TV por longo período, como TV Globo, Tupi, Bandeirantes, Manchete,  mas sempre  diversificando  as suas atuações em cinema e teatro, até em papéis cômicos. Em 2.018 fez musical pela primeira vez, A Noviça Rebelde.  Foi um caminho natural na sua carreira esse processo de não ser eternamente um galã ou você chegou a recusar papéis?

Roberto Pirillo – Galã quer dizer homem belo, elegante, que galanteia e namora muito. Passei mais de uma década vivendo personagens desse gênero.                                                              Chega uma hora que você diz: Pôxa, quero fazer outros tipos!  Um mau caráter, um bandido,etc.. etc.. A gente vai amadurecendo, e as oportunidades vão aparecendo. Isso não quer dizer que não possa viver um galã mais maduro com meus 72 anos. Nós atores, ao longo de nossas vidas, vamos treinando nossas almas para viver outras almas. Adoro o gênero comédia. Permaneci na peça Trair e coçar é só começar por treze anos e foi ótimo. Quanto a Noviça Rebelde, a experiência foi gratificante. Um elenco grandioso, num mega palco, com uma orquestra brilhante.

Aplauso Brasil – Também participou de grandes marcos na dramaturgia e na TV  brasileira . Escrava Isaura em 1.976 na TV Globo e do espetáculo Trair e coçar é só começar  em 1.989 no Teatro. Dois enormes sucessos que prosseguiram em novas versões e elenco. Você é a favor de  remake  de obras consagradas ?

Roberto Pirillo – Escrava Isaura foi um grande marco da TV brasileira. Abriu o mercado internacional da rede globo. É uma obra livre. Qualquer emissora pode adaptar a história da maneira que achar conveniente.  Trair e coçar…. foi outro grande feito. Permanecemos durante 3 anos consecutivos no Guinnes Book como temporada ininterrupta.                                                     Acredito que ainda está por aí.

Aplauso Brasil – Em 1965 quando você estava iniciando a sua carreira foi decretado Ato Institucional 5, deixando o país na ditadura.  Quando você vê um movimento popular pedindo a volta do AI-5, o que você, como artista tem a dizer sobre isso? 

Roberto Pirillo No início dos anos 70, estávamos ensaiando a peça O quarteto de Antonio Bivar. Perto da estreia, a censura interditou o espetáculo. Queriam que fossem feitos alguns cortes. No elenco estavam Ziembinski, a cantora Marlene, Louise Cardoso e eu.                                    Fizemos uma apresentação para dois ou três censores sentados na plateia, que seguiam com texto na mão para se certificarem que os cortes tinham sido obedecidos. Foi muito humilhante.   O AI-5 foi um período conturbado na nossa cultura com uma censura severa, e sem precedentes. Hoje não há mais espaço pra isso. Lutamos sempre por uma democracia plena.

Aplauso Brasil – Você participou da primeira montagem do texto Dois perdidos numa noite suja  de Plínio Marcos. Qual foi o impacto que o texto causou no público?

Roberto Pirillo – Considerado um autor maldito, o escritor e dramaturgo Plinio Marcos , foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de S. Paulo. Poucos escreveram sobre homossexualidade, marginalidade, prostituição e violência com tanta autenticidade. Alguns aplaudiam, enquanto outros saiam do teatro chocados.

Aplauso Brasil – Amácio Mazzaropi é considerado um gênio do cinema brasileiro. Você trabalhou em produções dele, contracenando com ele. Como foi essa experiência?

Roberto Pirillo – Sabe quando você está contracenando com alguém que sempre foi um grande ídolo? Foi assim que eu me senti. Estava diante daquele grande ícone do cinema, me deliciando com seu “JECA”! Aprendi muito.

Aplauso Brasil – Você acha que hoje Mazzaropi tem hoje destaque merecido na história do cinema brasileiro?

Roberto Pirillo – Mazzaropi é eterno, como Chaplin, como O Gordo e o Magro, Jerry Lewis, e tantos outros.

Silvio Tadeu

Silvio Tadeu , ator, jornalista, diretor e produtor de teatro, atua a quase 30 anos no cenário cultural, lecionando artes cênicas, escrevendo, produzindo e dirigindo espetáculos teatrais. Trabalhou com alguns diretores de expressão do teatro paulista como Antunes Filho, Roberto Ascar, Dulce Muniz e Gabriel Veiga Catellani. Na área de comunicação colabora com o Portal Vila Mariana, e com o Site Aplauso Brasil.

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