ENTREVISTA EXCLUSIVA: “HERMANOS LATINOS, VAMOS DIALOGAR” É O RECADO QUE ARGENTINO QUER PASSAR COM A PEÇA ‘HERMANAS SON LAS TETAS’

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@apalusobrasil.com)

Juan Manuel Tellategui, diretor e autor da peça 'Hermanas Son las Tetas'. Foto: Miguel Arcanjo Prado.
Juan Manuel Tellategui, diretor e autor da peça ‘Hermanas Son las Tetas’. Foto: Miguel Arcanjo Prado.

 

SÃO PAULO – O ator e diretor Juan Manuel Tellategui comemora seus 20 anos de carreira com a primeira peça escrita e dirigida por ele no Brasil, Hermanas Son las Tetas, que estreia em São Paulo, na SP Escola de Teatro da praça Roosevelt, hoje, em 2 de outubro. A obra tem as atrizes brasileiras Lauanda Varone e Liza Caetano como duas irmãs que se detestam, mas precisam conviver. A temporada do espetáculo é curtíssima: só até 25 de outubro.

Nascido em Zárate, Província de Buenos Aires, na Argentina, Tellategui é argentino radicado em São Paulo desde 2011. Ele que é licenciado em teatro pelo IUNA (Instituto Universitário Nacional de Artes de Buenos Aires) e estudou no Teatro Municipal de Zárate, também se formou no Brasil na Faculdade Paulista de Artes e na SP Escola de Teatro deseja dialogar com os brasileiros para além das rivalidade entre os dois países: “Hermanos latinos, vamos dialogar!”.
É é por meio do mote do diálogo que Juan criou o espetáculo com as duas atrizes. A história foi criada a partir de referências que vão do pop a Pedro Almodóvar e com colaboração delas: “sou filho único, e a relação entre irmãos sempre me interessou. Quando pensei em duas irmãs rivais, chamei duas atrizes de trajetórias totalmente distintas, vindas de formas diferentes de se fazer teatro (..) E depoimentos pessoais da Lauanda e da Liza potencializaram a ficção das irmãs”, diz o diretor.

'Hermanas Son Las Tetas", com Lauanda Verone e Liza Caetano. Foto: Eduardo Enomoto
‘Hermanas Son Las Tetas”, com Lauanda Verone e Liza Caetano. Foto: Eduardo Enomoto

O espetáculo também conta com uma surpresa: a participação de 12 performers – um por sessão. O diretor só não revela quem são, mas adianta que Hermanas Son Las Tetas também conta com a participação em voz de nove artistas. Entre eles, Rodolfo García Vázquez e Zécarlos de Andrade.

E para terminar o covite à leitura dessa entrevista exclusiva para o Aplauso Brasil, uma citação de José Hernández, no clássico da literatura argentina Martín Fierro: “os irmãos sejam unidos, esta é a lei primeira. Porque se entre eles brigam, os devoram os de afora”

Leia até o final.

Aplauso Brasil – Hermanas Son Las Tetas é a primeira peça que você escreve e dirige no Brasil com sua Las Tetas Cia. de Teatro, não é? O nome da companhia criada neste ano tem uma ligação com o nome da peça?
Juan Manuel Tellategui –
O grupo se criou a partir do projeto da peça, como parte de minha pesquisa acadêmica no ano passado. Quando decidimos dar continuidade ao trabalho, o nome da companhia surgiu espontaneamente. Na realidade, não somos um grupo apoiado por editais, tampouco uma produção comercial. Somos um coletivo que se reuniu ao redor de um projeto, independentemente das condições. Esta forma de produção é muito comum na Argentina, de onde venho. Artistas que se encontram vindos de trajetórias individuais enriquecem o trabalho.

AB – A sua intenção é intensificar o intercâmbio artístico entre Brasil e Argentina e podemos falar que Hermanas Son Las Tetas é o primeiro passo para isso? Essa é uma das razões para o espetáculo trazer atrizes femininas e o nome em espanhol?
JMT –
A primeira intenção é comunicar e dialogar. O teatro permite universalizar-nos, derrubando todos os limites, como um idioma, por exemplo. Por outro lado, também há uma tentativa de intercâmbio. Desde que estou no Brasil, sempre quis experimentar aqui uma forma de fazer teatro como a que vinha fazendo na Argentina. Trabalhar com atrizes brasileiras em um processo colaborativo nos permitiu uma grande troca. Nosso próximo desafio é estabelecer o diálogo com o público. Sobre o nome Hermanas Son las Tetas, trata-se de uma expressão argentina, que funciona como um conceito. A leitura em português dá várias interpretações. Esse jogo ambíguo do nome já fala da peça.

AB – Brasil e Argentina são vizinhos, carregam uma história cheia de pontos comuns, mas não se “visitam” muito. Como enxerga isso enquanto artista?
JMT –
É difícil generalizar todo um povo, com diferentes culturas e tradições, com uma ideia de país. Por exemplo, quando eu era criança, em minha casa sempre se escutou música brasileira. Na Argentina, vejo que há um grande interesse na cultura do Brasil, sobretudo nas coisas que nos diferenciam. Aqui, todavia, sinto que a rivalidade do futebol, criada pela mídia, faz com que muitas pessoas não consigam estabelecer outro tipo de relações com a Argentina, que não seja o deboche e o confronto. Outro exemplo que posso citar é que as rádios de lá tocam músicas brasileiras e muitos artistas daqui fazem shows em Buenos Aires e têm seus fãs argentinos. Já aqui no Brasil, não tenho escutado músicas argentinas e pouquíssimos brasileiros conhecem os cantores argentinos, para falar apenas de música. Vamos dialogar mais, por favor!

AB – Quando entrevistei outro autor, também argentino, Santiago Serrano, ele me disse que o melhor do Brasil é a diversidade da arte e que isso não fica restrito ao Rio e a São Paulo. Você compartilha dessa opinião?
JMT –
Sim, concordo com ele. Brasil é um país tão grande quanto sua cultura, produto de diversas tradições que convivem. Essa diversidade é rica. Pude vivenciar isso vivendo em São Paulo e visitando alguns lugares como Rio de Janeiro, Salvador da Bahia, Curitiba e as cidades históricas mineiras. Cada lugar tem sua própria história e tradição. Todavia me falta muito para conhecer.

AB: Agora de volta à Hermanas Son Las Tetas. O espetáculo foi construído de forma colaborativa e trabalha temas tradicionais, como de irmãs rivais, a metalinguagem. O tema, ou os temas, ganharam forma de que jeito?
JMT:
Sou filho único, e a relação entre irmãos sempre me interessou. Quando pensei em duas irmãs rivais, chamei duas atrizes de trajetórias totalmente distintas, vindas de formas diferentes de se fazer teatro. O metateatro foi aparecendo durante o processo. E depoimentos pessoais da Lauanda Varone e da Liza Caetano potencializaram a ficção das irmãs, que também foram crianças-prodígio. São muitas camadas que se vão se relacionando em um mesmo relato.

'Hermanas Son Las Tetas", com Lauanda Verone e Liza Caetano. Foto: Eduardo Enomoto
‘Hermanas Son Las Tetas”, com Lauanda Verone e Liza Caetano. Foto: Eduardo Enomoto


AB – Parece-me que tratar do processo teatral é o ponto fundamental dessa montagem. Estou certa?
JMT –
Sim, você é muito perspicaz, Kyra. Quando começamos a querer contar a história, as atrizes trouxeram, nos workshops, variados estilos teatrais. O que fizemos foi reunir todo esse material e utilizá-lo como elipses, mudanças cronológicas em um ano da vida dessas irmãs que contamos na peça. A proposta traz uma alta carga de performance para as atrizes, e isso faz com que o processo esteja no presente o tempo inteiro.

AB – espetáculo conta também com participações especiais, em voz e ao vivo. Quantos são ao todo e quem são? Pode adiantar para a gente?
JMT –
Teremos participação de 12 performers, um em cada sessão. Não posso contar o que eles vão fazer, tem de ir ver a peça para descobrir. Também pedi a nove artistas que respeito e admiro que gravassem suas vozes em off, que surgirão em cena. Rodolfo García Vázquez e Zécarlos de Andrade são dois deles. Ainda temos a locução de abertura gravada pelo locutor Diego Herrera, com quem fiz um programa de humor de rádio, chamado Mi Mate Personal, em Buenos Aires. Todos estão colocados em situação performática, em risco, fora do que estão formalmente acostumados a fazer.

AB – Hermanas Son Las Tetas tem várias referências. Quanto tempo durou o processo e qual dessas inspirações é a mais forte?
JMT:
Foi um processo de aproximadamente quatro meses e de muita disciplina. Trabalhar a metalinguagem nos fez olhar para o teatro. E esse olhar já é uma referência também. Nos interessou a abordagem do teórico teatral alemão Hans-Thies Lehman acerca do teatro pós-dramático e, ao mesmo tempo, o universo feminino de Pedro Almodóvar, o kitsch e o pop.

AB – Além de Hermanas Son Las Tetas, a Companhia está com outro projeto? Há um processo? Mais um espetáculo feito por Brasil-Argentina?
JMT –
Projetos há. Mais para frente te conto outras novidades. Por enquanto ainda não posso revelar.

AB: Para terminar, faça um convite especial para o público brasileiro, argentino para a temporada…
JMT:
Quero convidar todo mundo para ver Hermans Son las Tetas. Venham conhecer Angustias e Magdalena e suas aventuras pelo mundo teatral. Como diz José Hernández, no clássico da literatura argentina Martín Fierro: “os irmãos sejam unidos, esta é a lei primeira. Porque se entre eles brigam, os devoram os de afora”. Hermanos latinos, vamos dialogar!

SERVIÇO:
“Hermanas Son las Tetas”
Autoria e direção:
Juan Manuel Tellategui
Com: Liza Caetano e Lauanda Varone; participação de performers convidados
Gênero: Teatro pós-dramático
Temporada:
De 2/10/2015 até 25/10/2015
Quando: Sexta e sábado, 21h30; domingo, 18h.
Duração: 50 minutos

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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