ENTREVISTA EXCLUSIVA COM WAGNER SCHWARTZ, O PERFORMER QUE ENCANTOU NA ‘BIENAL SESC DE DANÇA’

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Foto do espetáculo 'Piranha'. Crédito: Caroline Moraes
Foto do espetáculo ‘Piranha’. Crédito: Caroline Moraes

CAMPINAS* – O performer Wagner Schwartz foi o grande destaque da Bienal Sesc de Dança. O artista colaborou escrevendo e documentando eventos para o jornal eletrônico 7X7 (portal feito de artistas para artistas) e realizou uma ocupação, na qual apresentou quatro espetáculos já conhecidos da sua carreira: Piranha, Transobjeto, La Bête e Mal Secreto .

Isso possibilitou Schwartz de ver a Bienal (com duração de 11 dias) pelos dois ângulos: do palco e da plateia. Então, nesta entrevista exclusiva, fala o que ‘experimentou’ no evento, que depois de oito edições em Santos teve como palco a cidade de Campinas, e contabilizou 42 mil espectadores.

Como apaixonado pela literatura, o performer diz que gosta de estar sozinho no palco, pois acredita que seja a forma de um escritor dançar. Um escritor está sempre sozinho”.  Cidadão do mundo (com residência atual entre São Paulo e França), ele diz que o ‘descolamento’ faz parte dos seus projetos e coloca a causa em seu nome que “contém a história de outros mundos”.

Para o Aplauso Brasil, Schwartz abriu que está editando um livro de ficção. O nome da obra é Nunca Juntos Mas ao Mesmo Tempo.

Leia com carinho:

Aplauso Brasil – Como surgiu a ideia da Ocupação Schwartz para a Bienal Sesc de Dança?

Wagner Schwartz – Conversei com amigos sobre a vontade de apresentar alguns de meus trabalhos na Bienal e a resposta deles foi positiva. Sempre ponho as minhas ideias em questão. Falamos sobre a experiência de passar por várias etapas de um projeto coreográfico que segue no tempo. Fiz a inscrição dos solos e o convite para a ocupação chegou logo em seguida.

AB – Como selecionou os quatro trabalhos que enviaria para a Bienal?

WS – Fiz a inscrição de meus solos, instalações e oficinas. A seleção de Piranha, Transobjeto, La Bête e Mal Secreto foi feita pelos programadores e curadores da Bienal. Achei uma boa ideia e aceitei.

AB – Fazer uma ocupação em uma Bienal que trata a dança como protagonista é diferente de se apresentar em uma temporada? Pode-se dizer que tem um público mais interessado, ou até mais especializado?

WS – Trabalhei na Bienal durante toda a sua programação: uma parte para o jornal eletrônico 7×7, e outra para as apresentações de meus solos. Pude ver muita gente desconhecida no festival. Claro, os amigos estavam lá, mas éramos poucos considerando a massa de pessoas interessadas em dança que passou pelo Sesc, Teatro Castro Mendes, Estação Cultura, MIS, Canteiro da Av. Gov. P. Toledo, Rodoviária, Unicamp, Praça Rui Barbosa, Praça do Fórum, Praça Carlos Gomes, Torre do Castelo, Largo do Rosário. Acho que as pessoas que se deslocam para ver um trabalho de arte contemporânea em uma temporada ou em um festival serão sempre interessadas e, talvez, mais especializadas até que os próprios artistas. Quem pode saber?

Foto do espetáculo Piranha. Crédito: Caroline Moraes
Foto do espetáculo Piranha. Crédito: Caroline Moraes

AB- Em La Bête, por exemplo, a performance precisa de público, é totalmente interativa, e na Bienal o público respondeu bem. Como é apresentar esse tipo de espetáculo para um público mais desconhecido? Esse espetáculo já deve ter rendido boas histórias.

WS– Algumas das pessoas que formaram o público dessa performance na Bienal eram conhecidas por mim; muitas outras, não. Mas a intimidade de um performer com alguém que está presente no teatro não garante o sucesso de uma performance. Cada pessoa tem seu ritmo interior e, às vezes, esse ritmo não é o mesmo da proposta. Se assim for, a pessoa se guarda como observador e não interage. Ela pode, também, deixar o local. La Bête é um risco. Pode tanto durar 50 minutos quanto 15, ou ainda menos. Com muitas pessoas ou com poucas, o trabalho acontece – é preciso que haja pelo menos uma interessada em interagir.

AB- Um dos pontos fortes da sua performance é o didatismo aliado à mescla com literatura, artes plásticas… Como une essas influências e paixões para um projeto?

WS- Em cada um de meus projetos penso em coreografar um conceito, tornando-o inteligível a quem o ‘experiencia’. Dessa intenção emerge a necessidade de me aproximar de outras formas de arte, deixando uma ideia mais clara ao conjugar seu objeto com outras mídias.

AB- Você gosta de trabalhar sempre sozinho no palco?

WS – Sim. Acredito que seja a forma de um escritor dançar. Um escritor está sempre sozinho.

AB- Como cidadão do mundo você sempre leva para os seus espetáculos um tanto de cada país. Ser cidadão do mundo é parte do destaque da sua arte?

WS – Nasci em Volta Redonda, Rio de Janeiro, fui morar em Uberlândia, Minas Gerais, aos 19 anos. Aos 29, comecei a frequentar São Paulo e, em seguida, fui trabalhar em Paris, morando em Berlim. Durante alguns anos vivi e trabalhei na França, na Alemanha e no Brasil. Hoje moro em Paris e em São Paulo. O deslocamento faz parte dos meus projetos desde quando meus pais me chamaram de Wagner Schwartz. Esse nome contém a história de outros mundos. Trabalhar a sua formulação faz parte daquilo que move meus trabalhos.

AB – Para finalizar: como foi ser um dos destaques da Bienal Sesc de Dança, e que outros projetos você está programando?

WS – Fiquei muito feliz em apresentar Piranha, Transobjeto, La Bête e Mal Secreto na Bienal. E a alegria ainda é a prova dos nove. Nesse momento, estou editando uma ficção que escrevi ao longo dos últimos cinco anos, chamada Nunca Juntos Mas ao Mesmo Tempo. Espero lançar esse livro em breve!

*Kyra Piscitelli viajou para Campinas a convite da Bienal Sesc de Dança.

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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