Entrevista: Grupo Folias estreia versão de Medeia

A cada vez que assistimos a um crime de família – mãe matando filhos, filhos matando pais, irmão matando irmão –  é como se a história de Medeia se desdobrasse”
Dramaturgo Sergio Roveri

Nanda Rovere, do Aplauso Brasil (nanda@aplausobrasil.com.br)

Espetáculo "Medeia: 1 Verbo" . Foto/crédito: divulgação
Espetáculo “Medeia: 1 Verbo” . Foto/crédito: divulgação

SÃO PAULO – O espetáculo Medeia: 1 Verbo é uma adaptação da tragédia de Eurípedes, escrita por volta do ano 430 A.C. O texto ganhou adaptação de Sérgio Roveri e coloca a protagonista Medeia atrás das grades, após ser considerada culpada pelo assassinato dos seus filhos. A estreia acontece sexta-feira, 5, no galpão do Folias, na Rua Ana Cintra. A direção é de Marco Antonio Rodrigues, depois de quatro anos afastado da companhia de teatro. Idealização do projeto: Nani de Oliveira e Dagoberto Feliz. No elenco estão: Nani de Oliveira (Medeia), Dagoberto Feliz (Creonte), Zé Geraldo Jr. (Jasão), Gabriel Esteves de Castro (Eurípides), Ana Nero (Gláucia e coro), Rafa Penteado (filho de Medeia e coro), Fábio Joaquim do Vale (filho de Medeia e coro) e Juliana Grave (coro). 

A conhecida história da mulher abandonada pelo marido Jasão, que mata os dois filhos com as próprias mãos como forma de vingança, recebeu uma adaptação radical assinada por Sergio Roveri.

O objetivo do projeto é provocar reflexões sobre o quanto é difícil silenciar diante das tragédias diárias, através da história de uma mulher que sofre, ama e odeia com grande intensidade.

O dramaturgo Sergio Roveri criou um novo contexto para a trama e uma nova época para o desenrolar das cenas: a montagem transporta Medeia (interpretada por Nani de Oliveira) para um presídio feminino, para onde é conduzida após ser considerada a responsável pela morte dos seus dois filhos.

Duas questões foram fundamentais no processo de adaptação da tragédia grega: a dúvida sobre Medeia ter ou não matado os filhos e a ambientação da história num presídio feminino.

Segundo Roveri, na história de Eurípides, Medeia foge no carro do sol depois de matar os filhos. Nunca foi punida, nunca foi julgada. Relatos demonstram que ela teria conseguido refazer a sua vida, tendo inclusive outros filhos.

Em Medeia:1, já na primeira cena, a protagonista surge presa. Existe o julgamento da personagem, ela é hostilizada na cadeia e se torna a mais indesejada entre as mulheres.

Medeia está submersa numa realidade cruel e sofre com as lembranças do seu passado. Enfrenta a hostilidade de Creonte (Dagoberto Feliz), do seu ex-marido Jasão (Zé Geraldo Jr.), que a trocou por Glauce (Ana Nero), filha de Creonte, e a fúria de um coro de prisioneiras (Rafa Penteado, Juliana Grave, Fábio Joaquim do Vale e Ana Nero).

¨Ela é uma mulher sozinha, indefesa, estrangeira, tentando se defender de uma sociedade doente. Mas há algo de extremamente forte e poético nela, é impossível não concordar com seus argumentos. Até porque, nesta montagem, Medeia conta com o benefício da dúvida: não há certeza de que ela matou as crianças¨, conta Roveri.

Espetáculo "Medeia: 1 Verbo" . Foto/crédito: divulgação
Espetáculo “Medeia: 1 Verbo” . Foto/crédito: divulgação

Os seus filhos estão desaparecidos e são vistos em cenas de flashback. Eles representam a sua consciência e o seu espírito tempestuoso. Para Medeia, a sociedade, violenta e insana, é uma ameaça mais perigosa do que o seu desejo de vingança.

Roveri assinala que a história desta mulher que mata os filhos por vingança cruzou os séculos e ainda nos assombra, ¨porque Medeia não é um caso único na história: parece haver cada vez mais Medeias em nossa sociedade conturbada¨, diz o autor.

¨A cada vez que assistimos a um crime de família – mãe matando filhos, filhos matando pais, irmão matando irmão –  é como se a história de Medeia se desdobrasse e pedisse para ser novamente contada. Sob este ponto de vista, é difícil imaginar uma tragédia que, infelizmente, seja mais atual¨, complementa.

O diretor conta que Medeia é um texto que sempre o assustou e por esse motivo pensou em recusar o convite para participar do projeto, feito Nani de Oliveira e o Dagoberto Feliz. ¨Mas quanto mais eu remexia no tema, mais me vinham motivos para aceitar o desafio.”

Rodrigues afirma que o que mais pesou em sua decisão de aceitar a direção foi a possibilidade de rever a história de Medeia e de procurar entender como reage uma personalidade ferida de dor, num mundo onde ela é considerada estrangeira.

“Mas, para me aventurar na concepção deste espetáculo, eu precisava de um texto que não fosse o original do Eurípides”, conta. “Quando o dramaturgo Sérgio Roveri concordou em escrever esta adaptação, perdi os bons motivos para recusar. Agora era definitivo”, acrescenta.

O diretor também destaca o quanto a obra é atual: ¨A banalidade e frequência com que este tipo de crime ocorre hoje em dia são sinônimos de angústia que não cala, não sara e não diminui¨, reflete.

Sobre Sergio Roveri

Roveri tem uma longa carreira como jornalista e como dramaturgo tem alcançado grande sucesso de crítica e público. Sua primeira peça teatral foi Vozes Urbanas, à qual se seguiu Horário de Visita, um drama familiar que marcou a volta de Alberto Guzik para os palcos como ator. O Encontro das Águas, A Vida que pedi, adeus  O Eclipse, Abre as Asas Sobre Nós, estão entre os destaques. No momento estão em cartaz na capital paulista: Tempos de Marilyn ( Viga Espaço Cênico),Opus 12. para vozes urbanas (Tearo dos Satyros); Palavra de Rainha, com direção de Mika Lins estréia em 13 de setembro, no Teatro Viradalata.

Ficha Técnica:

Direção: Marco Antonio Rodrigues.

Texto: Sérgio Roveri.

Elenco: Nani de Oliveira (Medeia), Dagoberto Feliz (Creonte), Zé Geraldo Jr. (Jasão), Gabriel Esteves de Castro (Eurípides), Ana Nero (Gláucia e coro), Rafa Penteado (filho de Medeia e coro), Fábio Joaquim do Vale (filho de Medeia e coro) e Juliana Grave (coro).

Assistente de direção: Humberto Vieira.

Design de luz e som: Túlio Pezoni.

Cenário: Flavio Tolezani.

Figurino: Fernando Fecchio.

Produção Executiva: Inês Teixeira.

Realização: Folias D’Arte

Serviço:
Medeia: 1 Verbo
Onde: Galpão do Folias, Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília, tel.: 3361-2223. Metrô Santa Cecília.  Temporada: estreia 5 setembro até 30 de novembro. sextas e sábados às 21h e domingo às 20h. Ingressos: R$ 40 inteira e R$ 20 meia-entrada. R$ 10 para os moradores de Santa Cecília.  Estacionamento com convênio. Lotação: 96 lugares. Classificação etária: 14 anos. Reservas pelo telefone:  (11) 3361-2223.

 

 

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