ENTREVISTA: Grupo mineiro faz ocupação no Sesc Belenzinho: “uma experiência artística só depende disso, de encontro e de troca de pensamentos”

Kyra Piscitelli do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)sesc_webflyers_01_jm

SÃO PAULO – Os mineiros do Quatroloscinco – Teatro do Comum comemoram seu 7º aniversário com o público de São Paulo. Eles estão participando do projeto Ocupação do Sesc Belenzinho, que tem como objetivo apresentar o repertório de um determinado grupo de teatro, e assim permitir que o público acompanhe e assista aos espetáculos, além de participar de oficinas formativas e de processos de criação. A Ocupação Quatroloscinco acontece até 30 de novembro, com quatro espetáculos e duas oficinas para o público.

Já no meio do período de ocupação,  um dos integrantes e co-fundador do grupo Quatroloscinco – Teatro do Comum do grupo mineiro conversou com o Aplauso Brasil sobre a sua história, formação e a importância de estar em São Paulo. Nosso entrevistado Marcos Coletta, que exerce função de ator, diretor e dramaturgo.

Essa é a primeira vez que eles apresentam os quatro espetáculos do grupo: “A ocupação surgiu de uma conversa longa que tivemos com o Sesc que começou em 2012 quando queríamos levar somente um espetáculo para uma temporada, eles tentaram nos trazer várias vezes sem sucesso, e agora finalmente conseguimos realizar. Por um lado, esta demora foi benéfica pra nós, pois nesse tempo criamos mais dois espetáculos e amadurecemos a linguagem do grupo”.

Marcos Coletta é co-fundador do Grupo Quatrocinco - Teatro Cumum. Foto/Crédito: Arquivo/Site do grupo
Marcos Coletta é co-fundador do “Grupo Quatroloscinco – Teatro do Cumum”. Foto/Crédito: Arquivo/Site do grupo

Além dos espetáculos, o grupo que nasceu na universidade UFMG fará duas oficinas com o intuito de criar um ambiente de troca. “Uma experiência artística só depende disso, de encontro e de troca de pensamentos. O ambiente coletivo é o que há de mais pedagógico”.

Coletta explica para o Aplauso Brasil a importância de ter um trabalho autoral, de poder apresentá-la em São Paulo e falam um pouco da cena teatral de Minas Gerais e de outros estados por onde passaram.

Na agenda da Ocupação Quatroloscinco serão apresentados os espetáculos Humor (de 20 a 23 de novembro) e Outro Lado (27 a 30 de novembro). As oficinas estão programadas para o final da ocupação. A primeira é sobre criação coletiva e será nos dias 20, 21 e 22 de novembro. A segunda propõe um laboratório de dramaturgia e será nos dias nos dias 27, 28 e 29 de novembro.

Leia mais na entrevista abaixo:

Aplauso Brasil: Como é participar da Ocupação do Sesc Belenzinho? Como surgiu isso?

Marcos Coletta: É um momento muito importante para o grupo, pois é o ano em que completamos sete anos, exatamente em novembro. E é a primeira vez que realizamos uma mostra completa do nosso repertório. A ocupação surgiu de uma conversa longa que tivemos com o Sesc que começou em 2012 quando queríamos levar somente um espetáculo para uma temporada, eles tentaram nos trazer várias vezes sem sucesso, e agora finalmente conseguimos realizar. Por um lado, esta demora foi benéfica pra nós, pois nesse tempo criamos mais dois espetáculos e amadurecemos a linguagem do grupo.

AB: Vocês nascem em 2007, no curso de teatro da UFMG. Como o acadêmico influenciou e influencia na criação de vocês?

MC: O ambiente acadêmico nos proporcionou um pensamento teórico e uma análise crítica mais aprofundada do teatro. O contato com diversos professores e pesquisadores excelentes também nos inspirou muito na criação do grupo. Começamos a ensaiar nas salas da UFMG, sentíamos que estávamos em um lugar seguro e aberto para experimentar. O grupo serviu para colocarmos toda aquela discussão teórica em prática, e em pouco tempo nos profissionalizamos.

"Outro Lado".Foto: Ricardo Moura
“Outro Lado”.Foto: Ricardo Moura

AB: Vocês trabalham a dramaturgia contemporânea. E fazem “questão” de oferecer e montar peças autorais. O que é a dramaturgia contemporânea? E qual a importância de um grupo teatral trazer um repertório autoral?

MC: Contemporâneo é muita coisa. São muitos conceitos e práxis na arte contemporânea. É impossível generalizar. Para o Quatroloscinco, contemporâneo é um conceito mais temporal que estético. Somos contemporâneos ao pensar e dialogar com nosso tempo, nosso presente, nossas questões do agora, nossas urgências. E por isso a necessidade de escrevermos nossos próprios textos e tentar propor uma conversa direta entre nosso pensamento e o mundo ao redor. Buscamos um lugar próprio, uma identidade como artistas, e a criação autoral tem sido o caminho dessa busca.

AB: Vocês falam de atingir grupos diferentes com os espetáculos – dos iniciantes aos iniciados – é possível isso? Qual a fórmula?

MC: Não há fórmula. Há tentativas, erros e acertos. Nos nossos espetáculos, tentamos criar aberturas diversas para vários tipos de fruição. É como uma cebola: é feita de camadas que se sobrepõem sobre as outras. Cuidamos pra que nossas peças possam ser lidas sob vários ângulos. Tem espectador que vai ficar na primeira camada, outros vão querer ir mais fundo, por isso nos preocupamos em oferecer uma obra multifacetada e acessível.

AB: Dos espetáculos apresentados em São Paulo durante a Ocupação, só dois já passaram pela cidade. Qual a importância de se apresentar para o público de São Paulo?

MC: Pra nós, que fazemos teatro em Minas Gerais, São Paulo sempre esteve em nosso imaginário como a cidade onde o teatro “acontece”. Porém, este ano, estivemos em Rondônia, Pará e Mato Grosso do Sul, e vimos que lá também acontecem muitas coisas, e que o público é tão interessante quanto Minas ou São Paulo. No fundo, somos todos uma coisa só. Mas é claro que se apresentar em São Paulo ajuda a credenciar o grupo e nos exige uma postura bastante profissional, principalmente neste caso, quando estamos dentro de uma instituição tão importante quanto o SESC. Para nós é uma espécie de reconhecimento do nosso trabalho.

"Humor". Foto divulgação
“Humor”. Foto divulgação

AB: O que vocês trazem de Minas Gerais para o trabalho de vocês?

MC: Muitas coisas. Nossa geografia está também na nossa forma de pensar e se colocar no mundo. Claro que não tem nada a ver com os clichês e estereótipos atribuídos aos mineiros. Minas sempre teve uma tendência vanguardista, principalmente na arte, nosso movimento cultural é muito rico e diverso. Acho que temos um pouco disso, pois é nesse lugar que estamos crescendo.

AB: Como foi a escolha da ordem dos espetáculos que estão sendo apresentados em SP? Eles não seguem a ordem em que foram criados, né?

Mc: Foi uma escolha técnica, para facilitar as montagens de cenários e mudanças de arquibancadas, pois temos espetáculos em formato italiano, semi-arena e corredor. Também por causa da agenda pessoal dos integrantes.

AB: Vocês têm o costume de publicar os textos do grupo e parecem fazer questão disso. Isso é um propósito do grupo mesmo? Ter as peças publicadas é importante? Como o público pode comprá-las?

MC: Sim, fazemos todo o esforço para publicar. Achamos muito importante fomentar a dramaturgia contemporânea. O texto dramatúrgico é outra obra, tem sua autonomia e um valor particular. Diferente do cinema ou da música, a distribuição do teatro depende da presença de todo o grupo, do cenário, de tudo. A publicação é uma maneira de circular o trabalho do grupo de outra maneira. Vendemos os livros em nosso site e em todas as apresentações. É também uma forma de criar uma memória, uma história para algo tão efêmero como o teatro.

AB: Vocês vão ministrar duas oficinas e me parece que a ideia é trazer a identidade do grupo, fomentar a pesquisa de vocês por meio, principalmente, de um viés muito participativo. Essa é uma característica de vocês?

MC: Sim, temos dado muitas oficinas e cada vez mais percebemos que elas servem pra dialogar, pra trocar, pra partilhar experiências. Não servem pra ensinar nada, aliás, nós nem temos o que ensinar. Não detemos nenhuma técnica ou conhecimento especial, somos artistas abertos para o intercâmbio. Nossas oficinas são uma maneira de criar um ambiente propício para a convivência criativa.

AB: O que o público pode esperar das oficinas? Por que participar?

MC: Nossas oficinas focam o encontro, e estimulam nos participantes seu lado autoral, seu material pessoal, o que vem deles mesmos. Uma experiência artística só depende disso, de encontro e de troca de pensamentos. O ambiente coletivo é o que há de mais pedagógico.

Para Roteiro:

Espetáculos:

GET OUT! – De 6 a 9 de novembro, quinta-feira a sábado às 21h30 e domingo às 18h30, na Sala de Espetáculos II do Sesc Belenzinho. Atuação, Dramaturgia e Direção – Assis Benevenuto. Assistência de Direção – Marcos Coletta. Criação de Figurino – Mariana Blanco. Criação de Luz – Marina Arthuzzi. Criação de Cenário – Daniel Herthel. Trilha Sonora ao Vivo – Assis Benevenuto. Vídeos – Laboratório Filmes – Davi Fuzzari e Marco Gonçalves. Duração – 45 minutos. Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos. Ingressos – R$ 25,00; R$ 12,50 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 5,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Vendas pelo Portal Sesc SP (www.sescsp.org.br), a partir de 25 de outubro, às 15h30, e nas unidades, a partir de  26 de outubro, às 17h30. ( JÁ FOI APRESENTADO)

 

É SÓ UMA FORMALIDADE – De 13 a 16 de novembro, quinta-feira a sábado às 21h30 horas e domingo às 18h30, na Sala de Espetáculos II do Sesc Belenzinho. Dramaturgia e Direção – Ítalo Laureano, Marcos Coletta, Rejane Faria e Sérgio Andrade. Atuação –  Assis Benevenuto, Ítalo Laureano, Marcos Coletta e Rejane Faria. Figurinos – Carloman Bonfim. Iluminação – Marina Arthuzzi. Cenografia e Concepção Visual – O Grupo. Trilha Sonora Original – Sérgio Andrade. Música Valsa em Dois – Sérgio Andrade e Luiz Rocha. Trabalho Vocal e Corporal – O Grupo. Vídeos – LUMIART. Duração – 60 minutos. Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos. Ingressos – R$ 25,00; R$ 12,50 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 5,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Vendas pelo Portal Sesc SP (www.sescsp.org.br), a partir de 4 de novembro, às 15h30, e nas unidades, a partir de  5 de novembro, às 17h30. ( JÁ FOI APRESENTADO)

HUMOR – De 20 a 23 de novembro, quinta-feira a sábado às 21h30 e domingo às 18h30, na Sala de Espetáculos II do Sesc Belenzinho. Direção e Atuação – Assis Benevenuto, Italo Laureano, Marcos Coletta e Rejane Faria. Texto – Assis Benevenuto e Marcos Coletta. Orientação Criativa – Rodrigo Campos. Figurinos – Mariana Blanco. Iluminação – Marina Arthuzzi. Cenografia – Ed Andrade. Assistente de Cenografia – Morgana Mafra. Trilha Sonora Original – Lucas Yogananda. Workshop de Improvisação – Gustavo Miranda. Duração – 65 minutos. Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos. Ingressos – R$ 25,00; R$ 12,50 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 5,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Vendas pelo Portal Sesc SP (www.sescsp.org.br), a partir de 14 de novembro, às 15h30, e nas unidades, a partir de  15 de novembro, às 17h30.

OUTRO LADO – De 27 a 30 de novembro, quinta-feira a sábado às 21h30 e domingo às 18h30, na Sala de Espetáculos II do Sesc Belenzinho. Direção e Atuação – Assis Benevenuto, Ítalo Laureano, Marcos Coletta e Rejane Faria. Texto – Assis Benevenuto e Marcos Coletta. Criação de Figurino – Paolo Mandatti. Criação de Luz – Marina Arthuzzi. Criação de Cenário – Daniel Herthel. Assistente de Cenotécnica – Wallace Colibri. Canção Original – Marcos Coletta. Arranjo e Assessoria Musical – Sérgio Andrade. Oficina em Feldenkrais e Direção de Movimento – Jimena Castiglioni. Duração – 65 minutos. Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos. Ingressos – R$ 25,00; R$ 12,50 (usuário inscrito no Sesc e dependentes, +60 anos, estudantes e professores da rede pública) e R$ 5,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). Vendas pelo Portal Sesc SP (www.sescsp.org.br), a partir de 20 de novembro, às 15h30, e nas unidades, a partir de  21 de novembro, às 17h30.

Oficinas:

O ATOR E A CRIAÇÃO COLETIVA

Dias 20, 21 e 22 de novembro, de quinta-feira a sábado, das 13h30 às 17h30.

Coordenação: Atores do Quatroloscinco

Destinada a artistas, estudantes, pesquisadores e criadores cênicos em geral.

Inscrições até 14 de novembro, por meio de envio de carta de interesse, currículo e contatos para o e-mail:  criacao@belenzinho.sescsp.org.br. Os candidatos selecionados serão avisados até dia 18 de novembro por e-mail.

20 vagas. Não recomendado para menores de 16 anos. Grátis.

LABORATÓRIO DE DRAMATURGIA

Dias 27, 28 e 29 de novembro, de quinta-feira a sábado, das 16 às 20 horas.

Coordenação de Assis Benevenuto e Marcos Coletta.

Destinada a artistas, estudantes, pesquisadores, professores de teatro, dramaturgos e criadores cênicos em geral.

Inscrições até 19 de novembro, por meio de envio de carta de interesse, currículo e contatos para o e-mail:  laboratório@belenzinho.sescsp.org.br. Os candidatos selecionados serão avisados até dia 24 de novembro por e-mail.

12 vagas. Não recomendado para menores de 16 anos. Grátis.

 

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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