ENTREVISTA: HISTÓRIA DE FLÁVIO IMPÉRIO, O CENÓGRAFO QUE MUDOU O TEATRO, GANHA MONTAGEM GRÁTIS

Kyra Piscitelli do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Espetáculo "Réquiem Para Um Amigo da Multidão" . Foto: Jonatas Marques
Espetáculo “Réquiem Para Um Amigo da Multidão” . Foto: Jonatas Marques

SÃO PAULO – Um Réquiem Para Um amigo da Multidão é um espetáculo que presta homenagem ao multiartista Flávio Império (1935-1985), que revolucionou a cenografia brasileira, celebrando sua contribuição para o teatro brasileiro.  O projeto fará passagem por diversos teatros municipais de São Paulo e tem entrada gratuita. A temporada começou nessa sexta, 27, no teatro que leva o nome de Império e terminará no final de junho, 26, no mesmo espaço.

O projeto é idealizado e protagonizado pelo ator Nei Gomes, que encarou a missão de passar para o palco as inquietações de Flávio Império morto às vésperas de completar 50 anos, no Hospital do Servidor Público Estadual, vitimado por uma infecção bacteriana causada pela Aids, em 1985.

Com exclusividade para o Aplauso Brasil, Gomes conta um poucoárdua pesquisa para chegar ao espetáculo e de como foi encontrar Flávio por vários “olhares” e sintetizar a obra em cena, sem querer imitá-la.

Espetáculo "Réquiem Para Um Amigo da Multidão" . Foto: Jonatas Marques
Espetáculo “Réquiem Para Um Amigo da Multidão” . Foto: Jonatas Marques

Para o ator é uma oportunidade de todos se permitirem conhecer ou rever um homem que além do valor artístico, passou por momentos individuais e coletivos importantes para “refletir sobre nossos tempos”.

Aplauso Brasil: como surgiu a ideia de trazer o multiartista Flávio Império como personagem aos palcos?

Nei Gomes: sempre tive o Flávio Império como uma figura de referência artística. Em 2015 ele faria 80 anos de vida e foram 30 anos desde que se foi, me senti convocado a rememorá-lo e celebrá-lo. Durante a pesquisa da trajetória artística e profissional do Flávio me deparei com muitas de suas inquietações como artista, que revelavam o grande ser humano que ele é. Seus poemas trazem muito isto. Fazer essa homenagem tendo o próprio Flávio em cena só condiz com a figura excepcional que ele é.

 

AB: como foi seu processo para chegar ao espetáculo? Quanto tempo levou?

NG: foi importante fazer uma construção sendo inspirado pela obra artística do Flávio. Suas soluções para a cena e também elementos que se repetiam no seu processo criativo. Não procuramos reproduzir elementos, mas pensarmos em soluções que tivessem a ver com a forma como ele criava. Construímos tudo de dezembro de 2015 até maio de 2016,  pelo Prêmio Zé Renato, pelo qual o nosso projeto foi contemplado. Creio que uma coisa importante que vale falar é que o Flávio mesmo relata a forma intuitiva com a qual buscava soluções. Desde o texto até a estética do Réquiem foram altamente intuitivos, fomos experimentando e resinificando….

AB: como a história foi construída para dar conta dessa trajetória?

NG: pensei num narrador em seus momentos finais de vida, ou mesmo que já tenha feito sua passagem para que tivesse propriedade de falar e fazer um balanço de toda a vida. O Flávio é sempre citado como uma pessoa de muita energia e vida. Fiz um desenvolvimento ficcional em que mesmo a situação da internação não seria suficiente para fazê-lo não estar em estado criativo.


AB: o espetáculo pode ser considerado uma homenagem para as artes cênicas?

NG: creio que só de ser uma homenagem ao Flávio já passa a ser também uma homenagem a todas as áreas que ele atuou, que não foram poucas. Sem contar dos momentos históricos que viveu. O espetáculo representa um pouco do que o Flávio é, então não tem como não ser múltiplo, desde seus assuntos até mesmo a sua estética.

AB: como trabalhou a liberdade em criar a trajetória de Flávio Império?

NG: tive um primeiro contato com o que temos de documentação histórica sobre ele, mas o que trouxe uma grande contribuição e ampliação para criação do homem que era foi o contato com diversas pessoas que conviveram com ele e em diversos ambientes ou momentos. Isso me ajudou a criar uma multiplicidade de pontos de vista sobre sua figura. Foi muito rico criar um Flávio a partir de diversos olhares, muitas vezes bastante opostos. Esse foi o processo mais instigante e desafiador, de como trazer essa diversidade de situações e vivências para dentro da cena. A memória tem lacunas, na construção de nossas lembranças preenchemos os espaços vazios. Ver a história do Flávio por vários olhares foi incrível para buscar uma síntese e transformar esses relatos em cenas.

 

Aplauso Brasil: por que é importante “imortalizar” Flavio Império e seguir contando sua história?

NG: Flávio foi mais que um homem de teatro. Ele foi um homem de seu tempo com compromisso histórico e social. Nos tempos que estamos vivendo ele muito nos ensina a olhar para nossa própria história e refletirmos sobre ela. Pessoas com esse compromisso humano nos ajudam a refletir sobre nossos tempos.

 

Sinopse

O espetáculo conta a história da vida e da obra do multiartista Flávio Império (1935-1985). A narrativa não linear é alimentada pelos delírios causados pela forte infecção que sofreu se misturando à história do próprio teatro.

 

Sobre Nei Gomes

Nei Gomes é ator, professor e diretor de teatro. Tem em sua formação a linguagem circense aliada à prática teatral. É membro-fundador da Cia. Estável de Teatro, criada em 2001.

 

Ficha técnica:

Idealização, Dramaturgia e atuação: Nei Gomes. Direção: Renata Zhaneta. Assistentes de direção: Andressa Ferrarezi e Osvaldo Hortêncio. Assistentes de produção: Maria Carolina Dressler e Adriano Rosa. Participação especial em vídeo: Andressa Ferrarezi, Daniela Giampietro, Karen Menati, Osvaldo Hortêncio, Maria Carolina Dressler, Osvaldo Pinheiro e Renata Zhaneta. Identidade Visual, Registro e Produção Multimídia: Jonatas Marques. Provocadores musicais: Piero Damiani e Rani Guerra. Cenografia: Luis Carlos Rossi. Figurino: Mariana Moll. Iluminação: Erike Busoni. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli. Grupo parceiro com sede para ações: Periferia Invisível.

 

Serviço:

RÉQUIEM PARA UM AMIGO DA MULTIDÃO.

Duração: 70 minutos. Classificação etária: 10 anos. Ingressos: Grátis.

 

TEATRO FLÁVIO IMPÉRIO – R. Prof. Alves Pedroso, 600 – Cangaíba. Telefone – 2621 2719.

Dias 27, 28 e 29 de maio e 24, 25 e 26 de junho. Sexta-feira e sábado, às 20h. Domingo, às 19h.

Capacidade: 100 Lugares. Estacionamento: Grátis. Acessibilidade: Sim.

 

TEATRO ALFREDO MESQUITA – Av. Santos Dumont, 1770 – Santana. Telefone – 2221 3657.

Dias 3, 4 e 5 de junho. Sexta-feira e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

Capacidade: 60 Lugares. Estacionamento: Grátis. Acessibilidade: Sim.

 

TEATRO LEOPOLDO FRÓES – Rua Antonio Bandeira, 114. Santo Amaro. Telefone – 5541-7057.

Dias 10, 11 e 12 de junho. Sexta-feira e sábado, às 20h. Domingo, às 19h.

Capacidade: 60 Lugares. Estacionamento: Não. Acessibilidade: Sim.

 

TEATRO CACILDA BECKER – Rua Tito, 295 – Lapa. Telefone – 3864-4513.

Dias 17, 18 e 19 de junho. Sexta-feira e sábado, às 21h. Domingo, às 19h.

Capacidade: 60 Lugares. Estacionamento: Não. Acessibilidade: Sim.

 

 

 

 

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!