ENTREVISTA: MÃE DE JESUS DÁ SEU TESTEMUNHO EM SOLO TEATRAL

Michel Fernandes, do Aplauso Brasil (michel@aplausobrasil.com)

O TESTAMENTO DE MARIA
O TESTAMENTO DE MARIA

SÃO PAULO – O filósofo Walter Benjamim alerta que a História sempre é contada pelo vencedor, portanto, ela é parcial já que está atrelada a narrar os feitos de apenas um ponto de vista. Em O Testamento de Maria o autor irlandês Colm Tóibin coloca o foco sobre a figura da mãe de Jesus. É o olhar humano e não o da mítica imaculada dos livros bíblicos que preenche a cena do solo que abre a temporada teatral do SESC Pinheiros nesta quinta-feira (7), 21h.

O TESTAMENTO DE MARIA
O TESTAMENTO DE MARIA

Denise Weimberg interpreta Maria que, após presenciar os horrores da crucificação de seu filho, foge de Jerusalém e encontra asilo em Éfeso, onde vive uma vida modesta mantida por dois apóstolos a quem deve relatar, com máxima exatidão, a trajetória e os feitos de Jesus. Mas seu depoimento é humano demais, crítico demais, cético demais para os objetivos mitificadores desejados pelos apóstolos.

RON DANIELS
RON DANIELS

Responsável pela adaptação e direção de O Testamento de Maria, Ron Daniels fala ao Aplauso Brasil sobre sua primeira incursão na condução de um monólogo, sobre seu trabalho apaixonado com as palavras, sobre as abordagens únicas em cada espetáculo que dirige, entre outros.

 

Aplauso Brasil – Qual a diferença entre dirigir um monólogo e os espetáculos com muitos atores que é de seu costume?

Ron Daniels – A minha resposta é não sei, porque eu estou dirigindo uma atriz ma-ra-vi-lho-sa. Então, é uma experiência muito específica trabalhar com a Denise. Eu a acho tão boa em tudo que ela faz que, de certa forma, eu sou mais um guia do que um diretor mesmo.

 

AB – Mas você tem um modo de aproximação do espetáculo?

Ron Daniels – Eu não sei, Michel. É tudo na práxis. É olhar, prestar atenção no ator e principalmente na base de qual é a história, a narrativa que estamos contando.

 

AB – Talvez seja por que cada novo processo seja único…

Ron Daniels – Sim. Isso depende do ator, da peça e cada ator exige um trabalho diferente, uma ação diferente. Tem ator que precisa trabalhar nos detalhes, às vezes até precisa de uma bronca e tem quem entenda no olhar. É como se precisássemos ter uma antena para entender cada ator.

 

AB – Como foi o processo? Vocês pegaram o texto, estudaram o texto e como foi passar isso para as ações físicas?

Ron Daniels – Olha, o que foi maravilhoso também é que a Denise chegou no primeiro ensaio com 17 páginas das 21 completamente decoradas. Com isso pudemos começar a brincar imediatamente. Nós não desperdiçamos um momento do ensaio simplesmente passando o texto para ser decorado.  Então, o mergulho no texto foi imediato. Claro que, de certa forma, o trabalho stanislavskiano depende muito de investigar o passado do personagem e tudo mais, mas o que mais me atrai hoje em dia é o estudo do texto, da palavra e de como a palavra é um gancho, um anzol para entrar dentro da realidade do personagem.

 

AB – O que deixou você apaixonado em O Testamento de Maria?

Ron Daniels – A peça é muito interessante. A peça vem de uma novela, de um livro só que o livro vem de uma peça. A primeira fase do processo de criação do texto. Diferente da Maria dos livros bíblicos, a Maria, aqui, é uma mulher, uma mãe, não é um ícone. É um personagem cheio de humanidade, um personagem completamente imaginário, que ele começou a conceber quando estava olhando para o quadro do Tintoretto, O Crucifixo.

 

AB – Na obra de Tóibín há uma concepção imaculada?

Ron Daniels –  Não, de jeito nenhum. É uma mulher que criou esse filho maravilhoso e, de repente, ele trazia rapazes para conversar sobre o do futuro e, de repente, esse filho vira esse líder revolucionário que ela não reconhece. É um homem agora poderoso e ela não reconhece e ela vê se entrosando num processo revolucionário que ela simplesmente não entende.

 

AB – A peça começa após a morte de Jesus?

Ron Daniels – Sim e Maria agora está no exílio em uma pobreza total, em uma casinha, onde ela está prestando testemunho a esses dois discípulos que querem que ela lembre os fatos de uma forma e ela está dizendo: “desculpe, não foi isso que aconteceu”.

AB – Estava lendo esses dias sobre essa questão humana, revolucionária de Jesus e não dele ser exatamente um santo…

Ron Daniels – Sim. Mas o que o Colm também propõe é que Maria também não sabe do que se trata e , ao menos, de que seja  uma revolução. Ela não entende nada do que está acontecendo na vida do filho. Não entende esses milagres. Ela acha um absurdo esse negócio de trazer o Lazaro de volta – ela diz: “ninguém tem o direito de ressuscitar os mortos” -, porque isso é contra a ordem natural.  Então cria uma série de polêmicas interessantes, mas profundamente humanas.

AB – Como é a relação dela com esse filho?

Ron Daniels – O que deixa ela mais atônita é que o filho está praticamente à procura da morte. Antagonizando tanto as autoridades judaicas quanto as autoridades romanas e ela não entende o porquê ele se sacrificar assim.

 

AB – E tem o fato da cultura judaica ter um certo rigor a questão das tradições e de repente ela tem um filho que vai contra as tradições judaicas…

 

Ron Daniels – Por exemplo, ele faz os milagres dele no Shabat, que é só o dia das orações e ela fica abismada – “Ele está fazendo isso de propósito, de propósito” – e não entende.

 

AB – A questão de cenografia, de figurino, música… Como você trabalhou com isso para dar uma cara ao espetáculo?

Ron Daniels – O espetáculo vai ser de uma simplicidade total. O cenário é uma plataforma, uma cadeira e um mastro com papéis onde esses dois rapazes estão escrevendo a bíblia. A não ser a participação do Gregory Slivar tocando os seus instrumentos, que ele mesmo concebeu. É realmente um espetáculo muito despojado. Trabalhado com a palavra e com a atriz. O público é convidado a participar essencialmente da palavra e da atriz.

 

AB – Eu senti durante a entrevista uma paixão pelo texto, como o que você tem pelo Shakespeare. É isso que motiva você a dirigir?

Ron Daniels – Sem paixão não vale a pena. Não se tem energia, emoção… risos… a vontade de continuar e a vontade é o essencial e ela vem da paixão. Mas a paixão porque é uma história maravilhosa, uma história épica, um dos acontecimentos mais importantes da humanidade em uma visão nova, específica e humana e é por isso que tenho paixão pelo texto.

 

AB – Há outro livro do autor que você encenará?

Ron Daniels – Eu estou trabalhando também em uma ópera baseada um livro, sobre o escritor Henry James que escreveu, por exemplo, o livro A Volta do Parafuso. O livro do Colm se chama O Mestre, onde ele cria esse Henry James imaginário de uma forma incrivelmente completa e é isso que ele fez com A Maria do Testamento ( a peça que será encenada em São Paulo).

 

SOBRE RON DANIELS

Um dos sócios fundadores do Teatro Oficina de São Paulo, Ron Daniels nasceu em Niterói, Estado do Rio de Janeiro. Foi diretor associado honorário da Royal Shakespeare Company, na Inglaterra. Hoje mora nos Estados Unidos e trabalha como diretor de cinema, ópera e teatro. Seus últimos trabalhos no Brasil foram Hamlet, e  Repertório Shakespeare, ambos com Thiago Lacerda.

Ficha Técnica
Texto: Colm Tóibín
Concepção, Adaptação e Direção: Ron Daniels
Atuação: Denise Weinberg
Tradução: Marcos Daud e Ron Daniels
Curadoria artística: Ruy Cortez
Cenografia: Ulisses Cohn
Figurino: Anne Cerruti
Música original e execução ao vivo: Gregory Slivar
Iluminação: Fábio Retti

O Testamento de Maria:  produzido originalmente na Broadway por Scott Rudin Productions. Desenvolvido pelo Festival de Teatro de Dublin e por Landmark Productions, com o apoio do Irish Theatre Board.

SERVIÇO

O TESTAMENTO DE MARIA

Local: Auditório (3º andar) – 98 lugares
Dia: de 7 de janeiro a 13 de fevereiro (quinta, sexta e sábado), às 20h30
Duração: 80 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 16 anos
Ingressos: R$ 25(Inteira), R$ 12,50 (Meia: estudante, servidor de escola público, +60 anos, aposentados e pessoas com deficiência), R$ 7,50(Credencial Plena: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). Ingressos à venda pelo portalwww.sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades do Sesc São Paulo.Venda limitada a quatro ingressos por pessoa. Não é permitida a entrada após o início do espetáculo.

SESC PINHEIROS

Endereço: Rua Paes Leme, 195.

 

Bilheteria: Terça a sábado das 10h às 21h. Domingos e feriados das 10h às 18h.
Tel.: 11 3095.9400.
Estacionamento com manobrista: Terça a sexta, das 7h às 22h; Sábado, domingo, feriado, das 10h às 19h. Taxas / veículos e motos: Matriculados no Sesc: R$ 7,50 nas três primeiras horas e R$ 1,50 a cada hora adicional. Não matriculados no Sesc: R$ 10,00 nas três primeiras horas e R$ 2,50 a cada hora adicional. Para atividades no Teatro Paulo Autran, preço único: R$ 7,50.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.