Entrevista: A mulher-macaco e a sociedade do espetáculo

Kyra Piscitelli do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

A Atriz Maria Carolina Dressler  como "Monga". Foto/crédito: Adriana Balsanelli
A Atriz Maria Carolina Dressler como “Monga”. Foto/crédito: Adriana Balsanelli

SÃO PAULO – Uma mulher dentro de uma jaula se transforma em uma figura primata que quer se libertar. O número realizado em circos e parques faz parte do imaginário de muitas (se é que não de todas) pessoas. A atriz Maria Carolina Dressler tirou do baú o encanto que tem desde a infância pelo número e engatou uma pesquisa sobre o  tema para uma montagem no teatro. Nessa jornada, a atriz descobriu personagens, histórias reais e inspirações.

Foram três anos de processo e muitas parcerias (inclusive internacionais) para se chegar ao espetáculo Monga.

Dirigida por Juliana Sanches (do Grupo XIX de Teatro), a peça mostra a trajetória de uma mulher que sofre por isolamento e exploração de sua imagem primata.

“A condição de solidão e exploração a que a personagem (Julia) é submetida leva o espectador a fazer outras conexões, como por exemplo, identificar o quanto Monga cada um de nós somos”, afirma Maria Carolina em entrevista para o Aplauso Brasil.

Maria Carolina fala com paixão do projeto e do processo que a levou até Monga. Sucesso de público desde o final de 2013, quando fez temporada no Sesc Santo André.

Os próximos passos do espetáculo Monga será uma apresentação gratuita no III Encontro da cena de Teatro de Mauá dia 30/05. A ideia é, depois, não parar e continuar em cena.

Nessa entrevista para o Aplauso Brasil, a atriz Maria Carolina fala sobre o universo que permeia a montagem. A doença hipertricose (que enche o corpo de pelos e causa aparência primata), a fascinante história da mexicana Julia Pastrana (que foi uma mulher-macaco real) e até a campanha #SomosTodosMacacos ( viral da internet) faz parte desse bate-papo imperdível.

Confira!

Aplauso Brasil: Você pesquisa há três anos para construir a personagem Monga e parece que sempre teve vontade de investigar esse assunto. Você se lembra de ter visto alguma mulher-macaco marcante ao vivo? 

Maria Carolina Dressler: Sim. Na verdade me encantei pelo número na infância e desde que me tornei atriz penso em levar pro teatro. Lembro da monga mais famosa do “Playcenter” e outras de parquinhos no litoral etc.

AB: O que descobriu nessa pesquisa de três anos? Já conhecia a doença hipertricose, que cobre o corpo de pelos tratada na peça?

MCD: Conhecia a doença vagamente, e muita gente passou a me enviar histórias semelhantes. Ainda não conhecia a Julia Pastrana. Essa mexicana me levou também ao cinema de Marco Ferreri que veio a ser meu alicerce na pesquisa, encenação, vídeos e principalmente, sua obra me ajudou a decifrar o que me encantava no numero da Monga.

Esta mexicana é citada como uma possível origem do numero. O que não é verdade, segundo os próprios artistas. Mas a potência da sua história a torna emblemática e deu suporte para a dramaturgia.

AB: Pois é. A sua personagem, Julia, leva o mesmo nome da mexicana Julia Pastrana (1834-1860). Ela teve a doença de Hipertricose e foi explorada pelo marido como mulher-macaco. A história criada por você é fictícia e o nome foi só uma homenagem. Mas você, em algum momento da pesquisa, pensou em contar a história da mexicana?

MCD: Mas do que o nome, nos apropriamos de muita coisa da vida de Julia pra criar a nossa Monga, pois ela se tornou muito presente na pesquisa, não tinha como ignorar sua história e o que ela representa quando queremos falar da sociedade do espetáculo.  Nossa Julia é também a Julia Pastrana e tantas outras mongas, nós mesmos.

A Atriz Maria Carolina Dressler  como "Monga". Foto/crédito: Adriana Balsanelli
A Atriz Maria Carolina Dressler como “Monga”. Foto/crédito: Adriana Balsanelli

AB: Com a montagem você levanta questões como o padrão de beleza, a sociedade do espetáculo entre outras problemáticas contemporâneas. Acredita que o público consegue enxergar isso? Por ser ficção, o público não pode levar na brincadeira?

MCD: Acredito que não, ou pelo menos até agora isso nunca aconteceu. Também tínhamos essa dúvida quanto à clareza desse paralelo com o contemporâneo, mas logo nos primeiros ensaios abertos que fizemos ficou tudo muito claro. A condição de solidão e exploração a que a personagem é submetida leva o espectador a fazer outras conexões, como por exemplo, identificar o quanto Monga cada um de nós somos.

AB: Como foi contar com a parceria da diretora Juliana Sanches (Grupo XlX de Teatro, de São Paulo) e o dramaturgo italiano Pietro Floridia (Teatro Dell’Argine, de Bologna) para o projeto?

MCD: Toda a equipe da peça é maravilhosa. A Juliana é uma amiga de longa data que eu admiro demais como artista, então foi um reencontro perfeito. Foi uma das primeiras pessoas a saber do projeto. Eu havia trabalhado com o Pietro em outro espetáculo a convite da própria Juliana e Grupo XlX de Teatro. Ele aceitou o convite de cara e nos surpreendeu pela forma como se integrou na pesquisa. Além disso, a essa altura a peça já tinha um pé na Itália por conta do Ferreri.

AB: Também houve uma grande influência do cinema de Marco Ferreri e dos temas abordados por ele. Você já conhecia o cinema dele? Como foi essa descoberta e essa fusão entre teatro e cinema?

MCD: Me emociono só de falar dele, um gênio. Comecei a procurar artistas que já haviam trabalhado com ele e instituições na Itália e acabei recebendo convites para fazer a pesquisa por lá. Fui recebida com muito carinho pelos museus e profissionais que demonstravam também sua paixão por Ferreri.

Os macacos de Ferreri falam justamente da busca pela humanidade, de como a solidão e a sociedade do espetáculo confunde o homem moderno na busca de sua identidade, sua humanidade.  Ele é considerado um pensador moderno, um visionário na reflexão sobre a importância da imagem no cotidiano do homem contemporâneo, e me apropriei muito disso na peça quanto a utilização dos recursos audiovisuais. Todos seus filmes trazem as questões que pretendemos abordar na peça como isolamento, busca pela identidade x sociedade do espetáculo, mulher como portadora das transformações e do futuro, critica ao matrimônio, e muitas outras identificações conceituais e estéticas.

A Atriz Maria Carolina Dressler  como "Monga". Foto/crédito: Adriana Balsanelli
A Atriz Maria Carolina Dressler como “Monga”. Foto/crédito: Adriana Balsanelli

AB: Você já faz apresentações de Monga desde novembro de 2013. Quais são os planos para a montagem?

MCD: Estaremos em um festival de Mauá dia 30 e outros festivais no segundo semestre. Queremos muito uma nova temporada em São Paulo, mas dependemos de algum subsidio pra isso.

AB: Você está em outros projetos também, né? Conte um pouco deles.

MCD: Monga é a primeira realização do In Bocca al Lupo Criações, onde pretendo realizar trabalhos coletivos com artistas de diferentes áreas.

Além disso, participo da peça Carne da Cia Kiwi, Estrada do Sul com Grupo XlX, Três Movimentos da Cia Ocamorana, e em processo com o projeto America Vizinha também com o Grupo XlX de Teatro.

AB: O que você achou da campanha #SomosTodosMacacos que surgiu depois da polêmica com o jogador Daniel Alves?

MCD: O Macaco tem outro significado pra mim depois da Monga. Representa justamente nossa humanidade. Mas obviamente essa não é a intenção do slogan. Eu sou um pouco macaca porque ele tem outro significado pra mim, mas no âmbito da campanha e principalmente da apropriação publicitária somos todos humanos.

Muita gente se mostrou solidaria a campanha por um entusiasmo e legitima revolta com a atitude racista, outros, se apropriaram dela pra vender e se promover. Acho que não dá pra colocar todo mundo no mesmo balaio.

MONGA – III Encontro da cena de Teatro de Mauá
(APRESENTAÇÃO ÚNICA)
Dia: 30/05
Local: Teatro Municipal de Mauá
Hora: 20h
Preço:  Gratuito
Para mais informações: http://www.maua.sp.gov.br/

Ficha técnica:
Dramaturgia: Juliana Sanches e Maria Carolina Dressler. Supervisão de dramaturgia: Pietro Floridia Direção: Juliana Sanches. Concepção e atuação: Maria Carolina Dressler. Participação especial em vídeo/locução: André Orbacan e Flavio Faustinoni.  Traduções: Daniela Scarpari e Aliança Cultural Italiana. Trilha sonora:  Daniel Maia. Cenário: Paula de Paoli. Figurino: Luciano Ferrari. Produção audiovisual: Corja Filmes (Andrea Iseki, Aline Gaia e Edson Costa) e Jonatas Marques. Iluminação: Andrea Iseki. Designer Gráfico: Jonatas Marques. Fotos: Adriana Balsanelli, Andrea Iseki e Jonatas Marques. Produção: Maria Carolina Dressler e Adriana Balsanelli. Realização: In Bocca al Lupo. Duração: 40 minutos. Gênero: Drama. Classificação etária: 12 anos.

Acompanhe Monga e outros espetáculo produzidos pela atriz  Maria Carolina Dressler na FãPage  https://www.facebook.com/inboccaallupo.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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