SÃO PAULO Defensora do teatro de revista, Neyde Veneziano  volta à direção no espetáculo Daqui ninguém me tira? em cartaz no Teatro Porto Seguro. O projeto idealizado pelo ator e produtor Giovani Tozi, parceiro de outros trabalhos com a diretora, que divide a cena com Ataíde Arcoverde trata de um senhor conhecido como Veludo. Ele trabalhou por anos numa antiga companhia teatral, e fazia o que fosse preciso para que se abrissem as cortinas para o público. Os anos se passaram e os conteúdos desses espetáculos foram ficando cada vez mais “fora de moda”. Espetculação imobiliária, racismo e o amor do personagem pelas vedetes, mulheres que enfrentavam o bom costume social só pelo seu jeito, são temas da peça, embaladas por marcinhas conhecidas do público.

Em entrevista exclusiva para o crítico e colaborador do Aplauso Brasil Luís Francisco Wasilewski, Neyde fala do espetáculo com direção de Noemi Marinho, da paixão pelo gênero teatral e de preconceito, tempos de cuidado com o humor e das vedetes. Em apenas quatro perguntas, a diretora mostra personalidade e opiniões firmes em um ode de amor ao Teatro de revista. Confira:

 Luís Francisco Wasilewski: Como surgiu a sua paixão pelo Teatro de Revista?

Neyde Veneziano: Eu ouvia, com paixão, as histórias do meu sogro, que fugiu com uma Companhia de Revistas na década de 1920. Essas histórias provocavam em mim um forte fascínio: pelas histórias, pelas lendas, pelas músicas. Meu sogro sabia tudo e me emprestou alguns textos. Porém o que me levou a pesquisar e escrever livros sobre o teatro de revista foi a descoberta de que a histórias que meu sogro contava valiam ouro. Essa descoberta se deu durante um curso sobre commedia dell’arte. Foi quando arrisquei, pela primeira vez, a escrever sobre os personagens fixos do teatro de revista, comparando-os com às máscaras da comédia italiana. O trabalho repercutiu na ECA e acabou virando tema de minha dissertação de mestrado. Alguns meses depois da defesa, já estava publicado meu primeiro livro, sobre dramaturgia e convenções do teatro de revista brasileiro. Foi um sucesso. Com esse mesmo tema e outro enfoque, parti para o doutorado. O amor ao teatro de revista cresceu, virou bandeira e passei a defender uma maior consideração por esse gênero. Depois vieram outros pesquisadores, quase todos são filhos meus.

Em 2004, lancei um livro nada acadêmico, com biografias de vedetes contextualizadas na história do Brasil e seu teatro: As Grandes Vedetes do Brasil, pela Imprensa Oficial de SP. Você foi um dos meus colaboradores pesquisadores. O número de vedetes era maior do que se supunha. Nem levantamos todas, mas contamos a história das mais significativas e emblemáticas que já eram muitas. Foi um sucesso imediato. Anos depois, baseada no material que o livro fiz um documentário que apaixona quem gosta e quem não gosta de revista: Mamãe, quero ser vedete. Esse documentário ainda aguarda um lançamento digno do material, pois tive problemas de liberação dos direitos de um filme no qual a vedete Eloína apresentava um número num filme de Oswaldo Massaíni. Estou ainda aguardando a resposta da CineArte, que hoje pertence ao filho, Aníbal Massaíni. Já cortamos esse trecho do filme, porém gostaria retomar a edição completa, pois os registros de números de vedetes se encontram nos filmes que elas fizeram.

Como vê, a paixão continua e continuará.

Luís Francisco Wasilewski: Como surgiu o projeto da encenação de Daqui ninguém me tira?

Neyde Veneziano: Atualmente, venho trabalhando com o produtor Giovani Tozzi, que também se apaixonou pelo tema e, principalmente, pelo meu documentário. Foi dele a ideia do projeto e é dele o argumento. Convidamos a dramaturga Noemi Marinho para escrever. O resultado é um texto extremamente poético e dramático. Noemi foi muito feliz com seu texto.

Luís Francisco Wasilewski: A peça fala de um homem que cultua o Teatro de Revista. Na sua vivência como pesquisadora (em parte, me incluo nela porque trabalhei com você em dois livros) conhecemos vários fãs do gênero que carregam consigo informações, bem como um vasto material sobre o Teatro de Revista. Fale desse tipo de fã do gênero a partir de sua convivência com eles.

Neyde Veneziano: Vedetes são seres sensuais por sua própria natureza: elas despertam o desejo. São mulheres livres: falam de sexo, contam piadas, usam duplos sentidos e esbanjam alegria. E são atrizes de verdade. Porque se apoiavam no jogo irredutível da teatralidade: a comunicação com a plateia. Mas elas viraram mito. Ficaram as fotos e as lembranças. Modelos ideais do deslumbramento. Antes, os homens enlouqueciam por elas. Antes, as mulheres consideradas “direitas” se atreviam a copiar-lhes o corte de cabelo, o modelo da saia, a cantar marchinhas de carnaval e experimentavam passos de Charleston.

Hoje, gays e drags e afins copiam os figurinos de vedetes. Cada um tem sua “ídola”. As mulheres continuam usando figurinos extravagantes de vedetes, mesmo sem saber que houve, há anos atrás, atrizes poderosas e ousadas que não se curvaram diante dos falsos moralistas que diziam defender a sociedade e os bons costumes. Por incrível que pareça, os falsos moralistas continuam (e em maior número). As vedetes saíram dos palcos: desfilam nas praias, nas ruas, nas paradas gays onde ser livre é o lema absoluto!

Luís Francisco Wasilewski: A Revista era um gênero que, visto pelos leitores/espectadores de agora, seria classificada como machista e politicamente incorreta. Como é lidar com este universo nos dias de hoje, com tanto patrulhamento para o teatro?

Neyde Veneziano: Como pesquisadora, tenho um olhar de “historiadora sobre os acontecimentos. Sabemos que os costumes mudam. Bem mais antigamente, bater em negros e proibi-los de entrar em locais “de brancos” não era incorreto. A história faz os costumes. A revolução industrial mudou muito os costumes. Assim como a revolução tecnológica. Esse politicamente correto é correto, é claro. Foram anos de sofrimento para negros brasileiros. Agora, o humor mudou. A piada também mudou. Não se faz mais gozação sobre imigrantes, por exemplo. Nossa visão é mais clara e menos ingênua. Mas há muitos caminhos para o humor. O que caracteriza a revista brasileira é a fragmentação na dramaturgia. Podemos tirar as piadas de mau gosto. Podemos mudar a palavra “mulata”. Podemos desviar o deboche focando outros ridículos de nossa sociedade. E a revista terá chance de continuar viva.

 

Ficha Técnica:

Texto: Noemi Marinho

Direção: Neyde Veneziano

Elenco: Ataíde Arcoverde e Giovani Tozi

Preparação de ator: Luiz Damasceno

Cenário e Figurino: Fábio Namatame

Iluminação: Domingos Quintiliano

Trilha Sonora: Ricardo Severo

Fotografia: Priscila Prade

Administração Financeira: Carlos Gustavo Poggio

Produção Executiva: Mariana Melgaço

Assessoria Jurídica: Martha Macruz de Sá

Direção de Arte Gráfica, Produção e Idealização: Giovani Tozi

Realização: Tozi Produções Artísticas, Prêmio Zé Renato e Secretaria Municipal de Cultura

DAQUI NINGUÉM ME TIRA com Ataíde Arcoverde Giovani Tozi

De 5 de setembro a 11 de outubro – Quartas e quintas, às 21h.

Ingressos: R$ 70,00 – plateia / balcão e frisas – R$ 50,00.

Classificação: 12 anos.

Duração: 70 minutos.

Gênero: Comédia.

TEATRO PORTO SEGURO

Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo.

Telefone (11) 3226.7300.

Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.

Capacidade: 496 lugares.

Formas de pagamento: Cartão de crédito e débito (Visa, Mastercard, Elo e Diners).

Acessibilidade: 10 lugares para cadeirantes e 5 cadeiras para obesos.

Estacionamento no local: Estapar R$ 20,00 (self parking) – Clientes Porto Seguro têm 50% de desconto.

Serviço de Vans: TRANSPORTE GRATUITO ESTAÇÃO LUZ – TEATRO PORTO SEGURO – ESTAÇÃO LUZ. O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores. Para mais informações, contate a equipe do Teatro Porto Seguro.

Bicicletário – grátis.

Gemma Restaurante: Terças a sextas-feiras das 11h às 17h; sábados das 11h às 18h e domingos das 11h às 16h. Happy hour quartas, quintas e sextas-feiras das 17h às 21h.

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