Entrevista: O espetáculo Não se Brinca com o Amor como elo entre Brasil e França

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

Espetáculo " Não se brinca com o amor" participa da comemoração dos 50 anos do Teatro Aliança Francesa. Foto: divulgação.
Espetáculo ” Não se brinca com o amor” participa da comemoração dos 50 anos do Teatro Aliança Francesa.  Da esquerda para a direita o ator Bruno Stierli e  a atriz e produtora Janaina Suaudeau. Foto: divulgação.

São Paulo – A atriz e produtora Janaina Suaudeau se empenha em “criar uma ponte artística entre Brasil e França”. Como parte desse projeto pessoal e profissional, ela está em cartaz com o espetáculo franco-brasileiro Não se Brinca com o Amor, no Teatro Aliança Francesa, até 26 de outubro. Janaina carrega no DNA e na formação a mistura entre os dois países. Filha de pai francês e de mãe brasileira se formou no Teatro Escola Célia Helena, em São Paulo. Depois, partiu para Paris no Cours Florent. Estudou no Conservatório Nacional Superior de Artes Dramáticas (CNSAD) e em 2012 voltou ao Brasil com o espetáculo Strindbergman, do qual foi coordenadora geral e atriz.

 

Agora, em sua segunda empreitada franco-brasileira no teatro, Janaina mostra paixão pelas parcerias internacionais e nacionais que firmou para levar aos palcos Não se Brinca com o Amor, um clássico do autor Alfred de Musset. Foram “dois anos de pré-produção”. Entre os parceiros dessa história, ela conta com a diretora Anne Kessler, sociétaire da Comédie-Française: “A Anne sabia como ela queria contar essa história, mas não chegou com a banca de “diretora estrangeira”, ela foi muito aberta a todas as proposições, e da nossa parte também houve uma grande escuta e generosidade”, diz Janaina.

Janaina atua também como atriz no espetáculo (na pele de Camille). Em entrevista especial para o Aplauso Brasil, ela dá detalhes do processo, fala da atualidade da história que trata de temas polêmicos e atuais como “o Amor com “a” maiúsculo, a Igreja e suas doutrinas, as relações segundo as classes sociais…”.

Convicta diz que o amor não está fora de moda. E para aparafusar o que diz cita até o poeta Vinícius de Moraes: “Amor só é bom se doer”. A inesperada “honra” (em suas palavras) de participar e abrir a programação de aniversário dos 50 anos do Teatro Aliança Francesa também são tema dessa entrevista cheia de amor. Confira:

Aplauso Brasil – Você idealizou e produziu Não se Brinca com o Amor. Por que escolheu esse texto do autor Alfred de Musset?

Janaina Suaudeau: Este texto é um clássico francês, e por conta da minha formação tem me acompanhado há muitos anos. Para mim, Musset foi o maior poeta romântico francês que já existiu, e poder defender este texto particularmente, é um grande prazer. Temas polêmicos e ainda muito atuais são discutidos nessa peça: o Amor com “a” maiúsculo, a Igreja e suas doutrinas, as relações segundo as classes sociais; sob o ponto de vista romântico, ou seja, palavras e atos têm consequências, muitas vezes irreversíveis, e tudo isso com humor.

Agora, por que montá-lo no Brasil? Faz alguns anos que tenho tentado à minha maneira criar uma ponte artística entre o Brasil e a França, e desde que voltei de Paris, fiquei espantada de ver a que ponto a sua obra não era conhecida aqui, talvez por falta de tradução e publicação. Este foi o ponto de partida, traduzir sua peça mais conceituada e desejar que o maior número de espectadores pudesse ouvi-la – talvez –  pela primeira vez.

AB- Como foi a escolha da diretora francesa Anne Kessler?

JS: Logo após minha formação no Conservatório Nacional de Paris, fui apresentada à Anne Kessler, sociétaire da Comédie-Française, por um grande amigo.  Desde então, acompanhamos o trabalho uma da outra. Quando Guy Zilberstein, com quem eu já tinha trabalhado em Strindbergman soube que eu queria montar Musset no Brasil, e ele me disse na hora “Propõe a direção à Anne, ela sonha em montar um Musset e vocês têm vontade de trabalhar juntas há tanto tempo…”. Achei a ideia genial e pertinente, fiz o convite à Anne e foi assim que a aventura começou…

AB: Como foi o processo para a montagem com a diretora francesa, que mesclou atores brasileiros veteranos com novos?

JS: Durante os dois anos de pré-produção, fizemos muitas reuniões via skype.  Não só eu e ela, mas com outras pessoas da equipe também, como com o nosso cenógrafo Ulisses Cohn, e ao longo dos anos, o projeto foi amadurecendo.

Eu escolhi o elenco brasileiro; eu já acompanhava o trabalho de alguns faz tempo, outros me foram apresentados ao longo destes dois anos e me encantei por eles. Quando a Anne chegou ao Brasil, ensaiamos durante um mês e meio todos os dias num ritmo puxado. A presença da nossa assistente/tradutora simultânea Rita Grillo foi de grande importância, pois graças a ela a comunicação fluiu e em pouco tempo a língua já não era mais uma barreira. A Anne sabia como ela queria contar essa história, mas não chegou com a banca de “diretora estrangeira”, ela foi muito aberta a todas as proposições, e da nossa parte também houve uma grande escuta e generosidade. E quanto à diferença de idade e de experiência entre os atores, isso não foi um empecilho, ao contrário, tornou-se uma força dessa equipe.

AB: Vocês participam da comemoração dos 50 anos do Teatro Aliança Francesa com a peça. Isso estava nos planos? Como aconteceu essa “parceria”, já que o espetáculo é uma produção franco-brasileira?

JS: Eu desejava estrear a peça no Teatro Aliança Francesa, por conta da história do teatro e pelo lindo palco italiano que tem. Quando propus o projeto ao Marc Boisson em 2012, ele se encantou por ele e desde então se tornou um grande parceiro, assim como a sua assistente Lívia Carmona. Eles foram muito pacientes, pois afinal foram  dois anos de captação e produção; a data de estreia acabou calhando com os 50 anos do teatro. Foi então que o Marc nos fez o convite de abrir o festival em comemoração de aniversário, e para nós foi uma grande honra. A parceria foi além das minhas expectativas, como não existe mais entre teatros e produções independentes.

AB: O texto tem mais de 200 anos e vocês tentaram trazer uma roupagem contemporânea para ele. Como foram essas escolhas?

JS: O texto trata de assuntos que ainda são muito atuais. Desde o princípio, a Anne e o Ulisses queriam que o cenário fosse atemporal e funcional; é importante notar que Musset num dado momento de sua vida, escrevia peças somente para serem lidas, ou seja, ele não se importava com a unidade de tempo e espaço, cada cena se passava num lugar diferente, o que dificultava e dificulta ainda o trabalho de cenografia e direção. A mesma coisa foi com a criação dos figurinos da Isabela Teles; ela e Anne não queriam que nossos figurinos fossem datados, elas desejavam que nós pudéssemos usá-los no dia a dia. E acima de tudo, a Anne queria que a nossa montagem fosse universal, que a gente esquecesse que o texto foi escrito originalmente em francês, e que se passava na França.

AB: O texto fala de amor eterno, dos desvios, manipulações… Essa busca por um grande amor continua no século XXI?

JS: Como diria nosso grande poeta Vinícius: “Amor só é bom se doer”, e acredito sim que muitas pessoas ainda busquem O grande amor eterno no século XXI. Agora na peça, fica bem claro que a voz de Musset é a voz de Perdican: “Todos os homens são mentirosos, inconstantes, falsos, tagarelas, hipócritas, orgulhosos e covardes, desprezíveis e sensuais; todas as mulheres são pérfidas, artificiais, vaidosas, curiosas e depravadas; o mundo não passa de um esgoto sem fundo onde as focas mais disformes rastejam e se contorcem sobre montanhas de lodo; mas há no mundo uma coisa santa e sublime, a união de dois desses seres tão imperfeitos e tão terríveis. Somos muitas vezes traídos no amor, muitas vezes magoados e muitas vezes infelizes; mas amamos, e quando estamos à beira da cova, nos voltamos para olhar para trás, e pensamos: Sofri muitas vezes, me enganei algumas, mas amei. Fui eu que vivi, e não um ser fictício criado pelo meu orgulho e pelo meu tédio”.

Sinopse
Camille e Perdican, dois jovens que foram predestinados a se casarem quando chegassem à maioridade. Eles se amam desde sempre, mas corrompidos pela sociedade e pela educação que tiveram, acabam abusando das palavras para se seduzirem e se maltratarem, envolvendo a inocente Rosette.

ELENCO E PERSONAGENS
Adilson Azevedo – Barão
Bruno Stierli – Perdican
Fábio Espósito – Mestre Blazius
Gabriel Miziara – Coro
Janaína Suaudeau – Camille
Lilian Blanc – Senhora Pluche
Natalia Gonsales – Rosette
William Amaral – Mestre Bridaine

FICHA TÉCNICA:
Idealização do projeto – Janaína Suaudeau
Texto – Alfred de Musset
Tradução – Janaína Suaudeau
Colaboração – Clara Carvalho
Direção – Anne Kessler (da Comédie-Française)
Assistente de direção e tradutora simultânea – Rita Grillo
Cenografia – Ulisses Cohn
Assistente de cenografia – Flávio Tolezani
Iluminação – Aline Santini
Assistente de iluminação – Felipe Jóia
Figurinos – Isabela Teles
Visagismo – Diego Dhurso
Trilha sonora original – Gabriel Machado e Valmyr de Oliveira
Operador som – Diego Ramalho Lima
Fotografias – Carla Trevizani e Michelle Tomaz
Vídeos – Patrícia C. Alegre
Cartaz e desenhos – Anne Kessler
Design gráfico – Leonardo Miranda
Assessoria de Imprensa – Pombo Correio
Direção de produção – Canto Produções
Produção executiva – Anna Zêpa

SERVIÇO:
Não se brinca com o amor –Temporada de 5 de setembro a 26 de outubro. Sextas e Sábados às 20h30 e domingos às 18h. Duração: 110 minutos. Classificação Indicativa: 12 anos. Local: Teatro da Aliança Francesa (Rua General Jardim, 182).Ingressos: R$ 40.


TEATRO DA ALIANÇA FRANCESA
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Endereço: Rua General Jardim, 182 – Consolação – São Paulo – SP (próximo à estação República do Metrô). Estacionamento em frente. Lotação: 230 lugares. Bilheteria: aberta com 2h de antecedência dos espetáculos. Telefone: (11) 3017-5699 ramal 5602. Online: www.teatroaliancafrancesa.com.br  / www.ingressorapido.com.br

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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