Entrevista com Lee Taylor sobre a peça Lilith S.A.: “O público em geral não sai imune dessa provocação”

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

Cena do espetáculo "Lilith S.A.". Foto: divulgação
Cena do espetáculo “Lilith S.A.”. Foto: Marcelo Villas Boas.

SÃO PAULO – Hoje e amanhã (28 e 29 de maio) acontecem as duas últimas apresentações do espetáculo Lilith S.A., no Viga Espaço Cênico. A criação da história parte do mito de Lilith que rejeitou a condição de submissão ao homem. Lilith S.A. é uma sólida empresa multinacional de combustíveis fósseis que comemora seus 100 anos, mas encontra-se à beira da falência. Sob o impacto da lua, seus funcionários festejam madrugada adentro até revelarem seus desejos mais secretos.

Esse é o primeiro espetáculo resultante do curso de atuação do NAC – Núcleo de Artes Cênicas, idealizado e coordenado por Lee Taylor, integrante por nove anos como ator e professor de atuação do Centro de Pesquisa Teatral – CPT/SESC dirigido por Antunes filho.

Lee Taylor conta para o Aplauso Brasil sobre Lilith S.A. que dirige em conjunto com Luiz Claudio Cândido em uma conversa hipnotizadora sobre teatro, referências e construção. Taylor fala também dos planos do NAC que se tornou um curso de extensão da UNESP e acaba de começar um novo processo com uma nova turma, que provavelmente resultará em outra obra em 2015. Incansável, o diretor em 05/06 estreia nos cinemas o drama Riocorrente, pretende, ainda, terminar o mestrado que cursa na USP e releva o desejo de desenvolver um monólogo além de outros projetos.

Uma entrevista para ler e correr ao teatro …

Aplauso Brasil: Quando você resolveu sair do CPT/SESC e seguir o próprio caminho?
Lee Taylor: Em fevereiro de 2013.

AB: Lilith S.A. é o primeiro espetáculo resultante do curso de atuação do NAC – Núcleo de Artes Cênicas. Da onde veio a ideia de tratar o mito de Lilith?
LT: Partiu de uma vontade de problematizar a suposta igualdade entre os gêneros na contemporaneidade e, por outro lado, mostrar a precariedade da condição humana quando colocada em posição de enfrentamento, na qual um ser humano tenta se sobrepor ao outro. O espetáculo aborda o mito por meio de três perspectivas diferenciadas nas quais Lilith se manifesta em níveis distintos em cada uma das figuras femininas. Há um esforço para que o mito se revele na peça por uma perspectiva dialética, por isso, é possível observar, nas relações que são estabelecidas entre as personagens, as nuances, as contradições, as implicações, as mudanças de comportamento e a complexidade de sentimentos gerados pela reação de três mulheres à tentativa de domínio masculino. Além disso, a configuração do elenco, composto por  três mulheres e um homem, influenciou bastante na escolha do mito de Lilith. De alguma forma o mito se manifestou nas primeiras improvisações anteriores à escolha de Lilith como material de criação. O preponderante no espetáculo é a questão da insatisfação da mulher quando colocada em uma posição de submissão em relação ao homem, no entanto, a dramaturgia se desdobra no preconceito sofrido por qualquer ser humano e nas possíveis reverberações geradas pela discriminação de qualquer natureza, inclusive a de que o oprimido pode ser também opressor.

AB: As cenas da peça também foram trazidas pelos atores participantes do curso do NAC- Núcleo de Artes Cênicas. Como foi o processo?
LT: O espetáculo surgiu a partir das propostas de cenas criadas por meio de improvisações do elenco e, sem dúvida, o maior desafio foi fazer com que os atores assumissem a responsabilidade de principais criadores da cena. Inicialmente havia certa tendência natural dos atores de se colocarem em uma posição passiva, na espera de uma proposta externa que solucionasse os problemas surgidos nas cenas. Entretanto, houve apenas uma orientação rigorosa por parte da direção que motivou a criação e a solução das dificuldades. A experiência de montagem de um espetáculo do NAC é fundamentalmente um processo de aprendizagem. O grande diferencial desse trabalho e o nosso diferencial (meu e do Luiz), é usar a encenação como processo artístico-pedagógico. Em Lilith S.A. nosso trabalho está a serviço dos atores e não o contrário. Acima da encenação e dos diretores está o aprendizado dos atores ao passar por essa experiência. Com o tempo os atores foram percebendo que o grande ensinamento não se baseia em respostas prontas e que o caminho do aprendizado é único para cada ator, pois depende exclusivamente da busca e da conquista de cada indivíduo. Nesse sentido, a obra é totalmente honesta com a experiência vivenciada pelos atores, porque reflete a conquista artística real desse grupo. Não há concessões nesse trabalho, todos os atores foram desafiados e se arriscaram na construção dessa obra. O foco principal foi a ampliação das possibilidades artísticas e da consciência crítica dos atores, além de um compromisso moral consigo, com o outro e com a criação do espetáculo como um todo.

AB: O espetáculo é divulgado como uma homenagem aos 450 anos de nascimento de William Shakespeare. Shakespeare trabalhou mitos para transpor a realidade. É nesse sentido que vocês trabalham com o dramaturgo inglês? Ele e o mito de Lilith são as grandes referências dessa montagem?
LT: Partimos de improvisações, chegamos ao mito de Lilith e posteriormente ao construirmos a estrutura do espetáculo notamos que estávamos muito próximos do universo de Shakespeare. Nos inspiramos em algumas de suas obras, sobretudo as que tocam mais precisamente na ambição pelo poder, e essas referências foram potencializadas com a colaboração dramatúrgica da Michelle Ferreira.

AB: O mito de Lilith carrega o peso forte de uma subversão da natureza e das verdades absolutas. Traz em cena um ser humano que muitas vezes negamos representar. Como o público tem recebido o espetáculo? É uma peça visceral e que obriga a refletir, né?
LT: A peça não aborda o mito de Lilith de uma maneira esperada e foca na tensão, na provável causa que gerou e que ainda gera sua manifestação nos dias atuais e não em seus efeitos, que talvez sejam mais reconhecíveis por parte do público que assiste a montagem. Nesse sentindo, o espetáculo é uma provocação extremamente contemporânea que coloca em cheque certos paradigmas que aparentemente estão sendo desconstruídos pela nossa sociedade, mas que ainda carecem de tempo para se consolidarem. Portanto, o público em geral não sai imune dessa provocação.

AB: O espetáculo é minimalista, centrado na expressão corporal e no ator. Isso me lembrou muito o trabalho do Antunes Filho. Isso é uma “herança” do Antunes? Que outras referências traz do CPT para o seu trabalho?
LT: Sem dúvida Antunes é uma das referências, visto que passei quase dez anos trabalhando com ele. Porém, a proposta de um espetáculo centrado na figura do ator pode ser reconhecida, por exemplo, no trabalho de Meyerhold, Grotowski, com seu “teatro pobre” na década de 60, Eugênio Barba, Peter Brook (suas obras recentes inclusive estiveram no Brasil), entre outros. Para esse trabalho, os cineastas Béla Tarr e Bruno Dumont, além de Romeo Castellucci foram algumas das principais referências. Tchecov e Shakespeare também foram extremamente importantes para a construção das relações entre as personagens estabelecidas na dramaturgia.

AB: Da primeira temporada de LILITH S.A (no Sesc Consolação) para essa (No Viga Espaço Cênico)  houve algumas alterações. Um exemplo, é que a peça antes terminava com um funk e agora termina no “vazio” com uma chama de fogo. Por que a mudança? É ainda uma peça em construção?
LT: Na verdade a peça estreou no Sesc Consolação sem a música final. No entanto, sentimos a necessidade de experimentar a música no fim do espetáculo depois das primeiras apresentações e mantemos assim até quase o fim da temporada. Quando precisamos mudar de teatro, para a segunda temporada, observamos que o ambiente e o equipamento de som utilizados não causavam a mesma sensação que conseguimos anteriormente e resolvemos voltar a concepção original. O espetáculo está vivo e passa por mudanças sutis a toda apresentação, cada dia pode ser uma nova descoberta se o artista está sensível e aberto à experiência com o público, buscamos fazer com que cada dia de apresentação também seja um aprendizado.

Cartaz do filme "Riocorrente", próxima empreitada de Lee Taylor. O filme estreia em junho. Imagem: divulgação.
Cartaz do filme “Riocorrente”, próxima empreitada de Lee Taylor dessa vez como ator. Na história, um drama que envolve São Paulo, um triângulo amoroso e uma criança.  Imagem: divulgação.

AB: Fale um pouco da parceria com o Luiz Claudio Cândido e a Michelle Ferreira para Lilith S.A.?
LT: O Luiz e a Michelle também passaram pelo CPT e esse é um fator bem importante para a afinidade artística entre nós nesse trabalho realizado no NAC. Eu e o Luiz ainda temos a USP como experiência comum, fomos da mesma turma de graduação do Departamento de Artes Cênicas da ECA/USP em 2002. Chegamos a realizar alguns trabalhos juntos na época, antes da minha entrada no CPT, e agora retomamos a parceria. Acho a proposta de uma direção compartilhada bastante desafiadora, que vai de encontro ao espírito de coletividade inerente ao teatro. No caso de LILITH S.A., todo o processo de criação de cenas partiu dos atores, a direção trabalhou para potencializar, estruturar, alinhavar, dar condições e estimular a autoria de cada integrante do elenco. Uma ou outra criação de cena partiu da direção, porém apenas para dar corpo à encenação. A Michelle, na dramaturgia, buscou contemplar, dentro do possível, nossos desejos e contribuiu dando uma identidade singular ao texto por meio de camadas que salientaram a complexidade humana das personagens. Acredito que essas múltiplas visões tornaram o trabalho mais inquietante, resultado de um processo multifacetado e não apenas de um único olhar soberano sobre a cena. Durante o trabalho criativo tivemos liberdade absoluta para interferir e modificar o que fosse necessário para a obra e isso só foi possível porque colocamos a obra e a coletividade em primeiro lugar.

AB: Quais são os próximos passos do NAC – Núcleo de Artes Cênicas? Quais são seus outros projetos?
LT: O NAC se tornou um curso de extensão da UNESP e acabamos de começar um novo processo com uma nova turma, que provavelmente resultará em outra obra em 2015. No próximo mês estreio Riocorrente nos cinemas e até o fim do semestre pretendo concluir meu mestrado na USP. Tenho ainda um monólogo a ser desenvolvido, além de uma proposta para uma participação especial em uma série de um canal fechado e um convite para atuar em uma montagem de um texto de Brecht a partir do fim desse ano.

Assista a um trecho do espetáculo aqui

Ficha Técnica:
Com: NAC – Núcleo de Artes Cênicas
Coordenação: Lee Taylor
Direção: Lee Taylor e Luiz Claudio Cândido
Assistente: Hercules Morais
Colaboração dramatúrgica: Michelle Ferreira
Direção de arte: NAC
Iluminação: Fran Barros
Sonoplastia: Fernando Oliveira
Fotos: Marcelo Villas Boas
Elenco: Camila de Maman Anzolin, Fernando Oliveira, Frann Ferraretto, Renata Becker.

Informações sobre o NAC no site  http://nucleodeartescenicas.wix.com/site

Serviço:
LILITH S.A.
De 30/04/2014 a 29/05/2014
Quartas e quintas, às 21:00
R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 (meia)
Sala Viga
Capacidade: 73 lugares
Duração – 50 minutos
Recomendação etária: 12 anos.
Reserva de ingressos: nacreserva@gmail.com
Viga Espaço Cênico
Metrô Sumaré
Rua Capote Valente, 1323 – Pinheiros CEP: 05409-003 São Paulo – SP
Telefone: (11) 3801-1843

Para saber mais sobre o filme Riocorrente que estreia dia 05/06 com Lee Taylor, acesse aqui.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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