ENTREVISTA: INVESTIGADOR TENTA DESVENDAR MISTÉRIO DE ASSASSINATOS EM SÉRIE CONTRA POLÍTICOS CORRUPTOS

 

RIO DE JANEIRO – A começar pelo mais alto escalão dos políticos que regem nosso país, todos eles deveriam estar apavorados com o assassino em série cujo alvos são políticos corruptos, caso a peça Justa, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, não passasse de uma fábula escrita por Newton Moreno e dirigida por Carlos Gradim.   

O espetáculo partiu do pedido do diretor Carlos Gradim e da atriz Yara de Novaes (vencedora da 2ª edição do Prêmio Aplauso Brasil de Teatro como Melhor Atriz por Contrações) ao dramaturgo Newton Moreno de um texto que tratasse sobre prostituição e, associar ao assunto inicial a crise ética da política atual em que nossos congressistas vendem votos em benefício próprio.

A trama traz um oficial justiceiro, interpretado por Rodolfo Vaz, que se apaixona por uma das personagens vividas por Yara de Novaes e se depara com a questão da corrupção brasileira encontrada em diverso níveis.

Em entrevista exclusiva ao Aplauso Brasil, Carlos Gradim, diretor de Justa, conta mais sobre o espetáculo.

 

Aplauso Brasil – Como surgiu Justa: da ideia inicial à proposta do Newton?

Carlos Gradim – Justa surgiu após a leitura de Filha, Mãe, Avó e Puta, de Gabriela Leite. Fiquei muito impressionado com este novo olhar que o livro me trouxe sobre as prostitutas e o lado ético que elas carregam, mesmo habitando este mundo carregado de tantos preconceitos e tabus. Depois de compartilhar com a Yara de Novaes, que junto comigo fundou a Odeon Companhia Teatral há 20 anos, concluímos que precisávamos tratar o assunto mas, também, trazê-lo para o diálogo com a política. De onde então, Newton Moreno trouxe esta fábula e juntos fomos ajustando para que uma metáfora fosse estabelecida entre estes dois mundos.

 

AB – Como são tratados os diversos níveis de prostituição?

Carlos Gradim – É interessante falar que usamos a prostituição para dois movimentos. O mais importante deles é quando invertemos a piada na qual o Congresso é um puteiro e que este possa ser uma salvação dessa lama que estamos, através de nossa heroína justiceira, ainda que torta e violenta. A outra questão é que essas mulheres dão voz, alegoricamente, ao povo brasileiro que não tem mais prazer na vida ou ainda, tratando questões do feminino abordadas através da autonomia e da consciência de classes. Por essas mulheres, também estamos falando de empoderamento feminino e de transformações sociais.

 

AB – Como se estabelece a concepção cênica e de atuação em se tratando de um espetáculo-manifesto?

Carlos Gradim – Temos uma polifonia seja em camadas no texto quanto na encenação e assim, fomos construindo um panorama, um caleidoscópio presente na música forte criada por Dr. Morris e também nas imagens que nos recoloca nesse circo midiático excessivo de destruição do País.

Os dois atores traçam percursos diferentes, mas ao se cruzarem tornam este exercício complexo e bonito de se ver. Rodolfo Vaz através do eixo narrador e Yara de Novaes com interferências diversas, se colocando antes de tudo, como cidadã brasileira dentro da composição de cada uma de suas personagens. Reforçando então, a ideia de peça-manifesto, mesmo não sendo autora do texto, Yara o toma como dela.

 

AB – Qual o objetivo que tal manifesto pretende alcançar?

Carlos Gradim – Pode ser uma reflexão sobre a nossa relação e atuação sobre os desmandos da política, uma necessidade de exterminar esta velha política, no sentido metafórico dela.  É óbvio que pensamos que o povo deveria fazer nas urnas o que Justa faz nas ruas, que são justamente ações de levante, no melhor sentido, mas de mudança e de limpeza dessa camada toda suja de corrupção. Ao mesmo tempo, sabemos que a peça tenta fazer um raio-x desse momento que estamos vivendo, de esgotamento ético, de cansaço dessas figuras violentas para a nossa sociedade, que são estes corruptos. Metaforicamente e ludicamente na nossa fábula, seguimos com a vontade de realizar essas ações de limpeza disso tudo.

 

Ficha técnica:

Texto: Newton Moreno.

Direção: Carlos Gradim.

Elenco: Yara de Novaes e Rodolfo Vaz.

Direção Musical: Morris Picciotto

Cenografia: André Cortez

Produção Executiva: Ana Luiza Lima

Duração: 90 minutos

Classificação indicativa: 18 anos

Local: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro III Endereço: Rua Primeiro de Março, Nº 66 – Centro. Telefone: (21) 3808-2020 Sessões: Quarta a domingo às 19h Período: 21/10 a 19/11

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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