Entrevista: Pedro Granato e o teatro brechtiano além da luta de classes

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com)

"Quanto custa?" faz última apresentação hoje, às 21h30, no  Teatro Pequeno Ato. Foto: divulgação.
“Quanto custa?” faz última apresentação hoje, às 21h30, no Teatro Pequeno Ato. Foto: divulgação.

SÃO PAULO – Um Berlot Brecht diferente em cena, que desafia o senso comum com a junção de dois textos inéditos (Quanto Custa o Ferro e Dansen) do dramaturgo alemão para formar um único espetáculo chamado Quanto Custa? Em uma entrevista sem cortes o diretor Pedro Granato fala da primeira temporada no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), em 2013 e da atual no Teatro Pequeno Ato, na República que acaba hoje (11/06).

Granato recusa rótulos; monta um misto de todas as sensações e signos, em que cada elemento participa do conjunto e tem significado plural. Nas palavras dele mesmo não tem “paciência para discursos simplistas”. Ao montar Quanto Custa? ele buscava um reencontro com Brecht, que o influenciou, mas queria algo novo: qual seria o impacto de fazer mais um espetáculo com cubos pretos e atores de sobretudo lendo manifestos pra plateia?”, diz provocativo.

O diretor busca mesmo a essência de Brecht quando quer retomar o teatro crítico e que tem a pretensão de atingir diversos setores e não só os que detém o conhecimento: “Nada mais anti-político que fazer Brecht só para quem já concorda com ele. Então a peça atingiu esse público mais popular, ficamos quase três meses no CCBB sempre com casa cheia, público de todas as classes, todos os gostos. Chegamos a apresentar em SESCs do interior para públicos que não iam ao teatro e os debates foram excelentes, comunicação total”, diz animado.

Pedro Granato – e toda a equipe da peça que é citada por ele com detalhes na entrevista – defendem a atualidade de Brecht usando a própria experiência da peça: “foi bom fazer uma peça chamada Quanto Custa? logo após os protestos de junho (2013), no centro de São Paulo e em que a meia entrada eram os tais três reais da passagem. Acho que o público busca peças que conversem com sua realidade. Brecht entendia muito isso, gostava de comunicar. Quis resgatar esse espírito comunicador e crítico ao mesmo tempo”.

Ficou animado? Leia a entrevista e corra para o teatro que dá tempo: a sessão é hoje, às 21h30. E quem sabe não vem uma terceira temporada por aí?  

"Quanto custa" busca desafiar brecht do senso comum. Foto: divulgação.
“Quanto custa” busca desafiar brecht do senso comum. Foto: divulgação.

Aplauso Brasil: Você juntou dois textos do dramaturgo Bertolt Brecht para formar essa história. Como surgiu essa ideia? E os dois textos: Quanto Custa o Ferro e Dansen são ainda inéditos no Brasil!

Pedro Granato: Eu sempre fui influenciado por Brecht e queria montá-lo, voltar à raiz. Mas queria algo novo, fugir do senso comum. Encontrei esses dois textos inéditos que misturam humor negro e crítica, com uma pergunta típica do suspense: quem é a próxima vítima? Adorei e comecei a pensar em como articulá-los, porque os dois contam a mesma história por pontos de vista diferentes.

AB: Na história três comerciantes vizinhos são os principais: o açougueiro Dansen, o vendedor de ferro Svenson e a jornaleira Sra. Norsen. E todos esses comerciantes são interpretados por atores, inclusive a jornaleira – que aparece com o rosto tapado e irreconhecível sempre que está em cena. Por que essa opção?

PG: Venho do teatro de grupo e me incomoda ver atores subaproveitados no palco. Pra mim, todos tem que estar sempre trabalhando, construindo juntos o espetáculo. Então dissequei a essência do texto e achei que três atores poderiam contar a história, usando um típico recurso brechtiano de troca de personagens. Eu gosto muito dos três vizinhos, de ter eles em cena ao mesmo tempo (com três atores e com as três lojas sempre representadas no cenário). Acho que isso realça o lado fábula da peça, como um Três Porquinhos para adultos e uma mensagem bem mais complexa.

Com relação à caracterização, foi importante preservar o rosto do Pedro Felício porque ele faz três personagens e a peça flerta com o suspense. Seu personagem mais importante para a narrativa, o Cliente, ele faz com o rosto limpo. Era importante essa cara de “bom moço”, barbeado, como um executivo de propaganda. Então carregamos na caracterização da Sra. Norsen, que é uma vizinha, velha, com uma construção super distante da imagem do Pedro. Tem uma cena, que eu adoro, que ele inclusive contracena com ele mesmo, fazendo os dois personagens ao mesmo tempo.

AB: Eu assisti “Quanto Custa” na temporada que vocês fizeram no CCBBSP, no ano passado. O que me encantou foi assistir uma montagem que saia um pouco do comum do que geralmente é feito de Brecht. Quando falo isso, falo que assisto muito o clássico do autor em cena: a ideia de patrão versus proletário e de relações claras (apesar das constantes ironias) de exploração econômica – típico do marxista que ele foi. Mas “Quanto Custa” traz pelo menos um ponto interessante: não tem patrão; em cena são comerciantes que fazem tudo pelo lucro e acabam disputando entre si. Quem aparece como força do capital é um empresário forasteiro. Você acha esse espetáculo especial nesse sentido?

PG: Sim. Era muito importante pra mim explorar algo novo para montar Brecht, um autor tão encenado. Comecei pelo texto, que me entusiasmou e não foi visto ainda. Afinal de contas qual seria o impacto de fazer mais um espetáculo com cubos pretos e atores de sobretudo lendo manifestos pra plateia? Precisamos nos distanciar do que se cristalizou como distanciamento, porque o impacto estético disso já se dissolveu com o tempo. Brecht sugere uma crise na linguagem pra evidenciar suas escolhas, e o mundo mudou muito. Não havia internet nem a tv havia se disseminado quando Brecht formulou suas propostas estéticas. Cabia ao teatro ainda um espaço privilegiado como lugar da ilusão, do realismo, que hoje foi tomado por outras mídias. Então meu caminho foi buscar esse estranhamento hoje. O teatro atualmente é quase sinônimo de falso, quando uma pessoa mente é “teatral”, quando um ator exagera em um filme é “teatral”, um político mentiroso “é um ator”. Então busquei o inverso, aproximar o espectador da trama para renovar o impacto da crítica. O texto tem uma estrutura francamente crítica, apesar de não ter “o patrão”, o inimigo é muito claro. Para mim foi importante ressaltar e disseminar esse mal nas relações entre os comerciantes para tornar a crítica mais complexa. A Alemanha nazista não existe mais, não temos um inimigo tão nítido, o mal estar está disseminado na lógica comercial que rege as relações. E eu não tenho paciência para discursos simplistas.

Em "Quanto Custa?" três comerciantes e a associação que fazem parte são ameaçados por um empresário forasteiro. foto: divulgação
Em “Quanto Custa?” três comerciantes e a associação que fazem parte são ameaçados por um empresário forasteiro. foto: divulgação

AB: O figurino, trilha, luz e o cenário parecem indispensáveis para montar “Quanto Custa”. Fale um pouco da concepção do espetáculo.

PG: Indispensáveis.  Acredito que no teatro todos os signos são igualmente importantes. A estética é um conjunto de ideias e valores, e não está a serviço de um pensamento, como também gera pensamento, sensação, impressões. Quis ter um apuro visual que arremessasse o espectador pra dentro do universo da fábula, em que cada elemento conta e comenta sobre o personagem. Ao mesmo tempo foi muito importante criar uma “atmosfera” forte para a peça e isso se deve muito a escolha de ter uma diretora de arte, Marinês Mencio, para articular todos esses elementos. O figurino e o cenário são feitos do mesmo material e a luz respeita a paleta de cores, assumindo bem claramente as opções estéticas que tomamos.

A trilha foi feita originalmente para peça pelo Rafael Castro, cantor e compositor da nova geração que eu sempre adorei pelo sarcasmo e inteligência das letras. Ele já usava narrativas e contradições cheias de humor em suas músicas e eu quis trazer para a trilha o papel de comentar e distanciar o público. Então tem músicas que antecipam acontecimentos da trama,  ridicularizam as preocupações dos personagens e até ilustram a manchete do jornal.

AB: Ao mesmo tempo as relações clássicas tratadas por Brecht  estão em cena também: opressor versus oprimido; a busca pelo poder, a concorrência gerada pelo capitalismo, capaz de aniquilar o homem e etc. É uma peça típica de Brecht – de um teatro que não quer criar um mundo particular da vida real, mas sim fazer pensar e trazer a realidade do homem para o palco. Como o público recebe um teatro assim hoje em dia?

PG: Recebeu muito bem. Quis expandir Brecht para além do “círculo de giz” dos entendidos. Nada mais anti-político que fazer Brecht só para quem já concorda com ele. Então a peça atingiu esse público mais popular, ficamos quase três meses no CCBB sempre com casa cheia, público de todas as classes, todos os gostos. Chegamos a apresentar em SESCs do interior para públicos que não iam ao teatro e os debates foram excelentes, comunicação total. E foi bom fazer uma peça chamada Quanto Custa? logo após os protestos de  junho, no centro de São Paulo e em que a meia entrada eram os tais três reais da passagem. Acho que o público busca peças que conversem com sua realidade. Brecht entendia muito isso, gostava de comunicar. Quis resgatar esse espírito comunicador e crítico ao mesmo tempo.

 AB: Há também um tom de comédia elegante no espetáculo, não? Como é equilibrar os elementos de suspense, crítica, drama e comédia? É uma peça que dá para classificar como de um gênero só?

PG: Olha, acho que os gêneros estão ai para serem misturados. Me sinto numa blockbuster quando sou cobrado em definir o gênero de uma peça minha para botar no release. Essa peça tem todos os gêneros citados acima. Estudamos muito o suspense, o humor negro. Só que é uma peça épica, em que é interessante perceber o que vai acontecer para entender “como” aconteceu. E por ser épica, permite brincar e misturar todos eles. Mas eu sempre misturo, acho uma lógica de produto, ou de deja-vu você se enquadrar num gênero, uma espécie de conforto preguiçoso entre artista e espectador. Nem que seja um gênero “teatro brechtiano”, que parece formalizado.

Temos tantos autores que rompem a linguagem, exploram novos caminhos para virem seguidores e enquadrarem num conjunto de regras estáticas. Ai o autor vira uma marca, e se distancia da ideia, do impulso criador original. Quando eu montei “Navalha na Carne” do Plínio Marcos veio gente cobrando a receita do bolo, mas se não é pra mostrar algo de novo, autêntico na obra de um autor, pra quê montá-lo? Não podemos perder o espírito contestador desses autores quando eles se tornam clássicos.

AB: Duas partes da peça me chamaram atenção. Uma foi momento em que os comerciantes se reúnem para tomar decisões da associação mas jogam cartas e não conversam nada. Para você isso é uma paródia do que são as associações e sindicatos? Aí temos uma crítica aos empregados e não aos empregadores.

PG: Acho que a leitura pode ser feita em todas as escalas. Estamos falando de um modo de funcionamento, não de figuras determinadas. Eles podem ser um sindicato como podem ser pessoas com medo de agir contra o que as ameaça. Ou lutar pelo que acreditam. Muitos erros foram feitos em nome de uma esquerda que quis ignorar as injustiças na escala micro para só ver o macro. Crueldades em nome de um grande ideal. Partidos corruptos, ditaduras sustentadas por discursos progressistas. Acho muito mais complexo um pensamento que entende a política como uma enorme teia que tange todas as relações. E nisso o pensamento do Brecht se torna mais profundo quando enxerga e analisa estruturas, modus operandi, e sai de um papel de apontar vilões. Pobre do povo que precisa de heróis – e vilões.

AB: A outra foi uma fala do ferreiro: quando o personagem diz que em época de crise (violência) ele vende mais, porque as pessoas  com medo compram ferro para se defender e ele lucra mais. Para mim, esse é um resumo do individualismo que circunda a história como um todo. E você tem alguma frase que resumiria a peça?

PG: Por isso coloquei no título uma pergunta aberta. Se eu definir a peça, uma experiência viva, narrativa, sensorial, emocional, repleta de reflexões em uma frase é porque fiz meu trabalho muito mal.

AB: Para terminar um clichê: qual o poder transformador desse espetáculo? O que a plateia leva com ele que faz despir a essência do homem?

PG: Muito complexo para mensurar e eu não acho que ao teatro cabe tanta objetividade. A plateia não é um monólito, é um conjunto de individualidades e para cada um as provocações da peça farão diferentes sentidos, nos diferentes dias da peça em cartaz. Essa é a essência do teatro. Perceber isso é fundamental pra quem acredita em uma sociedade plural, porque senão é via de mão única, e não importa a mensagem se você obriga o interlocutor a pensar só o que você quer. A postura de fazer teatro hoje em dia por si só é transformadora, e muito mais enfocando a crise de nossas relações sociais. A sociedade é pautada pelo comércio, não importa quem você seja, você não passa um dia sem comprar ou vender algo. Quanto Custa? O conteúdo da peça já começou antes mesmo do terceiro sinal, na atitude do público de ir ver uma peça assim.  É transformador para nós que reafirmamos opções de vida ao lutar para manter uma peça em cartaz, de trabalhar com o que amamos e acreditamos. O maioria das pessoas não acredita no que faz. Faz para ganhar dinheiro. Parafraseando a peça,  “vende seus produtos porque é pago e enquanto for pago…” Ao ver a peça, se colocar ao vivo frente a três atores encenando uma história sobre ganância e medo a plateia já está tomando decisões políticas, já é transformador. E a peça enfoca toda covardia e crueldade que podemos ter “em nome dos negócios”. Agora qual efeito prático disso? Qual poder do teatro? Ele é o encontro de pessoas, intenso pra quem está lá e pequeno socialmente. Só que uma multidão é feita de pessoas e cada pessoa pode ser uma multidão de personagens. Se fosse fácil de responder essa pergunta eu não faria teatro, eu não teria um teatro. É simbólico que o nome do meu teatro é “Pequeno Ato”. É esse meu cartão de visitas.

FICHA TÉCNICA:
Quanto Custa? – Texto: Bertolt Brecht. Tradução: Christine Röhrig e Marcos Americo Renaux. Coordenação Geral e Direção: Pedro Granato. Assistente de Direção: Diego Dac. Elenco: Luís Mármora, Pedro Felício e Ernani Sanchez. Direção de Arte: Marinês Mencio. Iluminação: Uirá Freitas. Trilha Sonora Original: Rafael Castro. Direção de Produção: Carla Estefan. Assistente de Produção: Ariane Cuminale. Operação de Luz: Vinícius Andrade. Operação de Som- Diego Dac. Fotos: Ding Musa. Design Gráfico: Anna Turra. Vídeo: Beto de Faria. Gênero: Suspense. Duração: 60 min. Recomendação etária: a partir de 12 anos. Este espetáculo estreou em 24/07/2013 no Centro Cultural Banco do Brasil, com patrocínio do Banco do Brasil, apoio do Governo Federal através da Lei de Incentivo à Cultura, Co- patrocínio da UTC Engenharia e apoio institucional do Goethe Institute – Ano Alemanha+Brasil 2013-14.

SERVIÇO QUANTO CUSTA? Reestreou dia 20 de maio, terça-feira, as 21h30 no Teatro Pequeno Ato. Rua Doutor Teodoro Baima, 78- República – São Paulo. Telefone:  11 99642-8350. Ingresso: R$30,00 e 15,00 (estudantes, classe teatral, idosos e professores, com apresentação de comprovante). Ingressos à venda na bilheteria 1 hora antes do início das apresentações. Aceita reservas por telefone. Pagamento somente em dinheiro ou cheque. Não possui acesso para deficientes. Lotação: 30 lugares. Temporada: Terças e quartas-feiras, às 21h30. Até dia 11 de junho.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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