ENTREVISTA: POLITIZAÇÃO NO TEATRO PAULISTANO É TEMA DE NOVO LIVRO


SÃO PAULO – São três os ciclos de politização no teatro brasileiro, que possuem características bem marcadas por cada momento histórico, segundo divisão do professor Sérgio de Carvalho, diretor do grupo teatral Companhia do Latão.

O primeiro, ligado ao período do modernismo brasileiro, das décadas de 1920 e 1930, é mais literário. As peças escritas nessa fase, especificamente por Oswald e Mário de Andrade, só chegaram aos palcos décadas depois, muito por conta das limitações da prática teatral no Brasil da época, conservadora e atrelada ao drama. O segundo está ligado à forte politização da sociedade ocorrida a partir de 1960, antes e durante a ditadura civil-militar, que dá o tom do teatro feito por grupos como Arena, Oficina e Opinião, além da constante assimilação de influências de vanguardas do período. Já o terceiro, no final dos anos 1990, começa com reivindicações por políticas públicas para a cultura e para o teatro, que resultariam na criação da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, em 2002.

No entanto, essa mais recente onda de politização do teatro brasileiro já teria tido seu fim em 2008, com um esgotamento dos movimentos políticos dos artistas. É o que defende o ator e pesquisador Artur Sartori Kon, no livro Da teatrocracia: estética e política do teatro paulistano contemporâneo, recém-publicado pela editora Annablume com apoio da Fapesp. Resultado de uma dissertação de mestrado, apresentada no Departamento de Filosofia da USP, o livro concentra-se na investigação da produção cênica recente da cidade de São Paulo e traça paralelos e diálogos com a filosofia.

“O que me interessava era saber o que acontecia depois desse fim, se o teatro que vinha depois era simplesmente despolitizado, ou como se dava sua politização. Claro que falar que esse teatro era alienado seria um absurdo, mas sua politização menos explícita me interessava”, diz o autor, em entrevista ao Aplauso Brasil.

Não se trata, contudo, de um quarto ciclo do teatro brasileiro, mas uma inflexão em que a politização evidente não é mais a marca central na produção cênica. “Muitas das peças são, sim, explícitas ao tratar de temas políticos, mas o fazem de um modo menos unívoco, menos visando expor certa visão, certa leitura da sociedade brasileira, e mais interessadas em investigar os impasses e limitações desse engajamento direto”, afirma o autor.

Segundo Kon, é como se houvesse um afastamento de uma atitude meramente didática, de propagação de certos temas, e uma necessidade de um reconhecimento de que “não se sabe”.

Na obra, são analisadas peças produzidas a partir de 2009. Segundo o pesquisador, o interesse se deu menos por produções consideradas “bem-feitas”, costumeiramente elogiadas pela crítica, e mais por peças “problemáticas” e repletas de “contradições”. “Mais do que critérios, posso mencionar características das obras escolhidas: o interesse pela cidade é só a primeira. Há também uma estética que poderíamos começar a caracterizar chamando-a de pós-dramática, uma camada fundamental de autorreflexão, uma ideia de crítica não como desmistificação e desvelamento de verdades, mas como mergulho no objeto a ser criticado”, explica.

Conceitos como pós-dramático (que, de acordo com Kon, já virou um clichê da teoria teatral), pós-moderno, pós-vanguardista e pós-brechtiano, usados para falar sobre a produção contemporânea, são colocados também em discussão.

Para o pesquisador, parece também haver um novo momento do teatro no que se refere à ocupação da cidade. Se o espaço público como lugar do cênico atingiu o seu auge em 2012, a nova conjuntura política parece indicar uma retração. “A cena paulistana em que cada vez mais grupos teatrais saíam dos palcos e ocupavam a cidade não é mais a atual. É o que me parece desde que terminei essa pesquisa em 2015. Aquilo tinha a ver com um interesse renovado pela cidade e pelos espaços públicos a nível mundial. Com os retrocessos políticos vividos recentemente, pelo menos desde 2014, e – no âmbito municipal (já que estamos falando de cidade) – com a nova prefeitura paulistana, essa ocupação da rua pela cena tem se tornado cada vez mais difícil e rara, a cidade volta a ser impermeável às tentativas de estetizá-la.”

E é no campo do estético que Kon encontra uma arena política fundamental. “Ele é justamente o campo da dissolução das certezas, o lugar em que o entendimento perde sua rigidez e entra em movimento, volta a ser pensamento. Para isso ele precisa ser um espaço de ambiguidade mais do que de univocidade, de disputa mais do que de consenso, de caos mais do que de ordem”, diz.

Da Teatrocracia: estética e política do teatro paulistano contemporâneo
Autor: Artur Sartori Kon
Editora: Annablume
Ano: 2017
Páginas: 308

Milena Buarque, especial para o Aplauso Brasil (milena_buarque@hotmail.com)

 

 

No Comments Yet

Leave a Reply

Seu email não será publicado