Entrevista: Projeto mistura literatura, música e teatro: “a ideia básica é tirar o livro da estante e levá-lo ao palco”

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)

"CANTO E LIVRO". Foto/Crédito: Sergio Caddah
“CANTO E LIVRO”. Foto/Crédito: Sergio Caddah

SÃO PAULO: O Canto livro nasceu de uma paixão pela obra de Guimarães Rosa. Joana Garfunkel fez sua tese de conclusão do curso de psicologia na PUC, inspirada no Grande Sertão: Veredas. Para tanto, visitou Cordisburgo, cidade natal do autor onde conheceu o grupo Miguilim de contadores de estórias e suas professoras, em seguida, levou seu pai Jean Garfunkel  ao sertão roseano. Este encontro lhes revela a dimensão  da oralidade do texto literário, seu poder de estímulo a leitura, e sua afinidade com a linguagem da canção popular.

Jean e seu irmão Paulo Garfunkel experientes compositores com canções gravadas por grandes nomes da MPB, tais como Elis Regina e Maria Rita (só para citar dois), encararam o desafio de compor uma sinopse cantada do grande sertão e realizaram algumas apresentações deste repertório mesclado a trechos falados do livro. Daí a cantar e contar outros autores e relacionar suas obras com as pérolas do nosso vasto cancioneiro popular. O Canto Livro existe desde 2007, tem perto de 30 espetáculos temáticos diferentes e com seu repertório se apresenta em teatros, escolas, bibliotecas e livrarias e ministra oficinas para educadores, com o intuito de replicar esta vivencia literária e musical e estimular a leitura.

Além dos contadores e cantores Jean e Joana Garfunkel, o Canto Livro conta com a participação dos músico Natan Marques (violonista) , que assina os arranjos e a direção musical dos shows.

Para saber mais desse projeto, o Aplauso Brasil entrevistou Jean, que nos deu detalhes do projeto e falou da agenda deles. Hoje (17 de novembro), eles se apresentarão no Tatu Bar e Palco um show sobre os 50 anos da Ditadura Civil-Militar. Mas, quem não puder ir hoje terá uma chance ainda em novembro: Será dia 22 de novembro, no Museu de Arte Moderna. O show terá, por exemplo, poemas do poeta Manoel de Barros, que morreu recentemente e se eternizou pela poesia e linguagem que criou.

Ainda neste ano, eles irão, também, se apresentar mais uma vez no espaço Tatu Bar e Palco. Para a última apresentação de 2014, o tema será Natal. Mas uma espécie de Natal bem à brasileira. Confira:  

"CANTO E LIVRO". Foto/Crédito: Sergio Caddah
“CANTO E LIVRO”. Foto/Crédito: Sergio Caddah

AB: Alguns shows de vocês são temáticos (o próximo evento é sobre a Ditadura Civil-militar) e outros são em homenagem a artistas (e o último que assisti foi uma homenagem para Machado de Assis). As duas ideias existiam desde o início ou o projeto cresceu e ganhou forma?

JG: O projeto cresceu e ganhou esta forma. A ideia básica que é tirar o livro da estante e levá-lo  ao palco através de shows temáticos , é muito abrangente e temos, por exemplo, uma parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo, que focaliza as exposições de artes visuais, do museu, onde as apresentações acontecem no espaço expositivo, com interpretação simultânea em libras, o que viabiliza o acesso  do público surdo à linguagem poética. Esta iniciativa nos rendeu o prêmio Ibero Americano de Educativos em Museus.

AB: Vocês estão na estrada com o projeto desde 2007, e alguns shows já se repetiram. O repertório é mudado? Como funciona isso? Até por que vocês atendem públicos diferentes: escolas, Sesc, bares…

JG:Nosso repertório é acrescido constantemente, em função das demandas externas e internas do grupo. É claro que os autores clássicos são os mais repetidos. Em breve deveremos repetir o show  Matéria de Poesia  inspirado na obra do já saudoso poeta Manoel de Barros, a quem já havíamos contemplado há 4 anos atrás.

AB: O próximo show de vocês será sobre a Ditadura Civil-Militar. E os 50 anos do Golpe.  Vocês já montaram algum show com o tema da Ditadura? Nos 50 anos do golpe e com o tanto de repertório musical, literário e artístico esse me parece um assunto necessário.

JG: É justamente este o tema do nosso show Bodas de Chumbo. A efervescência criativa desta época e a importância da arte como instrumento de luta pela liberdade e pelos direitos humanos, não poderiam passar desapercebidas nesta data.

 AB: Como vocês escolhem os repertórios? Há consultoria, pesquisa?

JG: A pesquisa é fundamental, mas o que determina a escolha é a nossa afinidade pessoal com o texto, a canção e o tema contemplado.

AB: Fazer um evento mais intimista é uma das premissas de vocês? O Tatu Bar e Palco – onde estão se apresentando, por exemplo, – é bem intimista, né?

JG: Um dos nossos principais objetivos é estabelecer, ou na melhor das hipóteses restaurar, a intimidade entre o público e a literatura.

Para tanto, o espaço tem que favorecer. É muito difícil fazer um Canto Livro num ginásio de esportes, por exemplo.

AB: Além do show Bodas de Chumbo – 50 anos do Golpe Militar está programado mais um para dezembro Presepe – Histórias de Natal, também no Tatu Bar e Palco. O que terá nesse show?

JG: Poemas natalinos de autores como Vinícius de Moraes, Mário Quintana, Adélia Prado, o conto Peru de Natal de Mário de Andrade.

Permeados por canções de compositores como Assis Valente e Adoniram Barbosa, enfim… Cantos de um natal bem brasileiro.

 AB: Em novembro vocês ainda se apresentam no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Qual será o show lá?

JG: Neste show inspirado no trabalho instigante de dois grandes artistas contemporâneos Paulo Brusczy e Rivane Neunschwander, contemplamos a valorização do ínfimo e do efêmero na produção da obra, como a arte postal ,ou as esculturas involuntárias  feitas com palitos de dentes ou rolhas de champanhe. Para tanto, usamos poemas de Manoel de Barros  a quem homenageamos no show e canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Moacyr Luz.

AB:E para o ano que vem, já tem algo programadonpara o Projeto Canto Livro Música e Literatura? Dá para adiantar?

JG: Para 2015, estamos buscando patrocínio para realizar um grande evento Canto Livro em SP, onde faremos uma temporada em teatro apresentando nosso repertório variado.

 SERVIÇO

Tatu Bar e Palco

Dia 8 de dezembro: Presepe – Histórias de Natal

Para roteiro:

CANTO LIVRO no show Bodas de Chumbo – 50 Anos do Golpe Militar – Dia 17 de novembro, segunda-feira, às 21 horas, no Tatu Bar e Palco. Com Jean Garfunkel (violão), Joana Garfunkel (voz) e Pratinha Saraiva (flautas e bandolim). Arranjos: Natan Marques.  Duração: 60 minutos. Classificação: 18 anos.

Tatu Bar e Palco – Rua Alves Guimarães, 153, Pinheiros. Telefone – 3083 3003. Capacidade: 50 lugares. Ingressos: R$35,00. Aceita cartões de crédito e débito. Estacionamento: R$12,00.

Sinópse: Jean e Joana Garfunkel apresentam canções e poemas de época da Ditatura-Civil Militar no Brasil.

MAM
Dia 22 de dezembro – 16h30 – ENTRADA FRANCA

CANTO E LIVRO no show inspirado no trabalho instigante de dois grandes artistas contemporâneos Paulo Brusczy e Rivane Neunschwander, contemplamos a valorização do ínfimo e do efêmero na produção da obra, como a arte postal ,ou as esculturas involuntárias  feitas com palitos de dentes ou rolhas de champanhe.

MAM: Auditório do Museu de Arte Moderna de São Paulo – Parque do Ibirapuera – São Paulo

Informações: Museu de Arte Moderna de São Paulo | Parque Ibirapuera, portão 3 – São Paulo SP Brasil

Tel +55 11 5085-1300 | Fax +55 11 5549-2342 | atendimento@mam.org.br

Horário: ter – dom, 10h – 18h. Bilheteria até 17h30. Todos os direitos reservados. 2014.

Acesse o site do do CANTO LIVRO: http://cantolivro.com.br/

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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