SÃO PAULO – O Teatro do Incêndio estreia, no dia 24 de fevereiro (sábado, às 20 horas), o espetáculo Rebelião – O Coro de Todos os Santos com texto e direção de Marcelo Marcus Fonseca. Esta montagem fecha a trilogia iniciada com O Santo Dialético e seguida por A gente Submersa, que dá nome ao projeto. As três pretendem uma investigação e valorização da formação do homem brasileiro, da raça brasileira.

Para saber mais desse processo, o Aplauso Brasil conversou com exclusividade com o dramaturgo e diretor Fonseca para conhecer o projeto A Gente Submersa. O espetáculo homônimo do projeto, inclusive, lotou o teatro em 2017. “Não faço ‘narrativas’, tento contar histórias. O público quer histórias, não maniqueísmos. É preciso dar ao espectador o direito dele fazer sua própria peça”, diz sobre que acredita ser um teatro que funciona.

O espetáculo que fecha a trilogia, que segundo o dramaturgo se uniu de forma natural, com Rebelião – O Coro de Todos os Santos, que pode ser definida como um grito do povo. “O dia fictício que esse mesmo povo resolve que jongo, samba, catira, umbigada, são armas de guerra e avançam para cima dos que calam suas poesias e manifestações. É a revolta legítima da sabedoria, do contato, da dança, da felicidade. Como dizia o Plínio Marcos, “onde houver autoridade, não pode haver criatividade”, diz.

A entrevista também fala do poder do feminino, já que as três peças trazem a mesma atriz como protagonista: Gabriela Morato. “É uma parceira muito rara, nós criamos bem juntos. O que acabou acontecendo é que o discurso das peças foram ecoando entre os personagens e ela acabou sendo porta voz feminina do Brasil que a gente debate”.

Além do bate-papo sobre a nova peça, dramaturgia e muita brasilidade, Fonseca mostra a sua felicidade pelo Teatro do Incêndio estar indicado Prêmio do Governador do Estado de São Paulo para a Cultura, na categoria Territórios Culturais. Para ele, o fato é uma celebração do coletivo e vem como reconhecimento bem no momento em que o grupo assumiu um espaço.

Leia com calma essa entrevista que trata do Brasil dos excluídos, da resistência que é a arte, do universo da pesquisa e do teatro como potência de uma sociedade.

Aplauso Brasil: Qual a importância de investigar e olhar para o Brasil no teatro?

Marcelo Marcus Fonseca: Acredito no teatro como potência de uma sociedade, principalmente aquela que o artista vive, da qual vem sua formação e ancestralidade. O Brasil é formado por ancestralidades em desarmonia desde o princípio. Como o teatro é a última barreira da respiração coletiva, acho que nele é possível catalizar forças distintas capazes de gerar vontades e pensamentos. No caso do Brasil, identidade.

AB: Como surgiu o projeto A Gente Submersa? Foi com essa vocação de tratar o Brasil? No original era para ser uma trilogia ou a ideia ganhou forma no processo?

MMF: O espetáculo anterior ao projeto, O Santo Dialético, perseguia uma filosofia da formação do brasileiro como uma raça em si, formada por africanos, indígenas e europeus, sob o signo do sangue. Os personagens saiam do presente, da cidade e partiam ao encontro a mitologia, o passado, a mata, a cidade silenciava. Imediatamente surgiu o desejo de respirar outro brasileiro: o sertanejo, o quilombola, aquele que vê o centro urbano destruir sua poesia. Junto com isso veio a questão da idade, da sabedoria popular e do apagamento dessa sabedoria, expulsa do mundo moderno de “tudo pra vender”. Apresentamos o projeto e ele foi contemplado pela Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo. Na verdade, foi uma continuidade natural. Descobri que as coisas se emendavam em trilogia no meio dos ensaios de Rebelião.

AB: O A gente Submersa termina em um texto que, segundo você é um “grito” as insatisfações. Seria Rebelião – O Coro de Todos os Santos um chamado ao povo brasileiro? 

MMF: A Gente Submersa é um grito de socorro de todos os sufocados e desprezados da cultura tradicional popular, tratados como folclore ou manifestações pitorescas. O lugar dessa gente é de ensinar, não de servir. Rebelião é o dia fictício que esse mesmo povo resolve que jongo, samba, catira, umbigada, são armas de guerra e avançam para cima dos que calam suas poesias e manifestações. É a revolta legítima da sabedoria, do contato, da dança, da felicidade. Como dizia o Plínio Marcos, “onde houver autoridade, não pode haver criatividade”. E o coro de humilhados sem possibilidade alguma de vitória, sai pelo Brasil convocando todos a combaterem as mentiras da colonização.

AB: Como você vê o Brasil colocado na dramaturgia brasileira atual. Existe esse diálogo em outros espaços ou uma preocupação maior de apenas revisitar e colar referências?

MMF: Dramaturgia não pode ser reprodução. O que eu faço é teatro, não Cultura Popular. Não faço “narrativas”, tento contar histórias. O público quer histórias, não maniqueísmos. É preciso dar ao espectador o direito dele fazer sua própria peça. Senão não é provocação, é autoafirmação. Sinto que muitos grupos têm buscado esse olhar para dentro do Brasil, como uma maneira de se defender até do momento em que vivemos. Tenho assistido coisas que gosto muito nesse sentido. Mas, existe a repetição, a reprodução do que é honesto na cultura popular e quando copiado perde a essência e vira forma vaga. O teatro tem suas próprias leis. Que também não se aplicam à cultura popular.

Rebelião-O Coro De Todos Os Santos -Gabriela Morato -foto de Giulia Martins

AB: A força da mulher aparece nas três peças da trilogia, que traz a mesma atriz, Gabriela Morato, como protagonista, inclusive. Isso foi proposital? Qual o lugar da mulher na identidade dos espetáculos ou nesses gritos brasileiros? 

MMF: Acredito que depois de tudo, desde a escravidão e o contínuo extermínio de indígenas, a mulher acabou concentrando a força que movimenta a guerra com sabedoria. Não é sem razão que estamos vivendo a era da exposição fatal do machismo que não consegue mais se esconder. Quem é capaz de parir é capaz de tudo. O feminino é uma potência de Rebelião sem cinismo. Só uma mulher pode apavorar os corruptos brasileiros (acho que foi isso que aconteceu e tiraram “ela” (Dilma Rousseff que sofreu impeachment, em 2016) do cargo votado, não foi?). Com relação à Gabriela, ela levantou esse e mais três teatros dentro do grupo e é uma parceira muito rara, nós criamos bem juntos. O que acabou acontecendo é que o discurso das peças foram ecoando entre os personagens e ela acabou sendo porta voz feminina do Brasil que a gente debate.

AB: O Teatro do Incêndio está indicado ao Prêmio do Governador do Estado de São Paulo para a Cultura, na categoria Territórios Culturais. O que representa essa indicação?

MMF: Isso foi muito importante nesse momento em que construímos nossa sede própria. Da minha parte considero a indicação mais justa, pois é uma indicação para o trabalho do coletivo, não um feito pessoal. Isso me deixa feliz. Jamais existiria esse Teatro sem meus parceiros de estrada. Principalmente esses que estão aqui agora, nos últimos 6 anos.

Ficha Técnica

Texto e direção: Marcelo Marcus Fonseca

Figurinos: Gabriela Morato

Iluminação: Rodrigo Alves

Direção musical: Bisdré Santos, Erick Malccon e Marcelo Marcus Fonseca

Preparação corporal e coreografias: Gabriela Morato

Operação de som: Ítalo Iago

Música ao vivo: Bisdré Santos, Erick Malccon, Yago Medeiros e elenco.

Operação de luz: Jonathan Yuri e Bruno

Fotos: Giulia Martins e Ítalo Iago

Designer gráfico: Gustavo Oliveira

Adereços: André Souza e Gabriela Morato

Assessoria de imprensa: Verbena Comunicação

Produção e realização: Teatro do Incêndio

Elenco: Gabriela Morato, Elena Vago, Francisco Silva, Marcelo Marcus Fonseca, Valcrez Siqueira, André Souza, Lia Benacon e Erick Malccon.

Coro de guerra (jovens do projeto de vivência artística 2018): Ana Beatriz do Araújo Borges, Bruno, Giulia Soares, Jonathan Yuri, Luiza Kehdi, Murilo Rocha, Stela Coelho, Thays Ferreira, Thaina Muniz, Vallessa Fagundes e Yago Medeiros.

Serviço

 

Espetáculo: Rebelião – O Coro de Todos os Santos

Estreia: 24 de fevereiro – Sábado, às 20h

Temporada: 24 de fevereiro a 24 de junho

Horários: sábados (às 20h) e domingos (às 19h)

Duração: 90 min. Gênero: Drama/teatro épico. Classificação: 16 anos

Ingressos: Pague quanto puder

Capacidade: 95 lugares. Acessibilidade. Ar condicionado.

 Sinopse: Artura e Cacimba saem do interior do país em direção ao mar com o intuito de salvar o Brasil, devolvendo para Portugal símbolos da colonização. Para cumprirem a missão elas enfrentam na viagem os terríveis Arranca-línguas que são figuras míticas.

 

Teatro do Incêndio

Rua Treze de Maio, 48 – Bela Vista – SP/SP

Tel: (11) 2609 3730 / 2609 8561

http://www.teatrodoincendio.com/ / https://www.facebook.com/teatrodoincendio/

Kyra Piscitelli, do Aplauso Brasil (kyra@aplausobrasil.com.br)