Eros Impuro fica só até dia 10 em São Paulo

Luís Francisco Wasilewski, do Aplauso Brasil (lfw@aplausobrasil.com)

"Eros Impuro"
“Eros Impuro”

SÃO PAULO – A montagem da Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro, Eros Impuro, estreou no Teatro Pequeno Ato na última quarta-feira, e terá sessões de quarta a domingo até dia 10 de novembro. Sempre as quartas-feiras as sessões são gratuitas.

A temporada do espetáculo traz também um painel de debates a ser realizado após a apresentação no dia 16 de Outubro. Além disso, há também a oficina O exercício da Crítica Teatral, nos dias 15, 22 e 29 de outubro, das 19h às 22h, no Teatro Pequeno Ato. Serão 20 vagas com inscrições gratuitas pelo email: erosimpuro@gmail.com.

O espetáculo – que estreou em 2011, com patrocínio do Prêmio Myriam Muniz e do Fundo de Apoio à Cultura do GDF para itinerância – cumpriu temporada em Brasília e esteve nos festivais de Vitória, Goiânia e Recife, além de apresentações em Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Belém, João Pessoa.

Depois de São Paulo, parte para Fortaleza, São Luis e Porto Alegre, com agenda programada até abril de 2014.

Inspirada inicialmente nos limites da arte erótica e no caos da criação artística, que envolve sanidade e loucura, Eros Impuro foi escrita em 2007 pelo autor e diretor Sérgio Maggio.

Sérgio Maggio venceu o Prêmio Literário Jabuti com o seu excelente livro Conversas de Cafetinas. Eros Impuro surgiu a partir da fruição artística de Maggio, que teve a ideia da obra depois da experiência criativa de observar uma tela do ator, artista plástico e protagonista da peça Jones de Abreu. A partir da obra – que pontua como um gesto cotidiano pode incitar um pensamento erótico -, o roteiro foi criado propondo um questionamento sobre os limites entre arte erótica e pornografia.

"Eros Impuro"
“Eros Impuro”

Vítima de abuso sexual, a personagem Andrei busca se livrar da angústia que a persegue por meio da arte. O artista plástico acredita que encontrará sua redenção quando conseguir reproduzir na tela a mesma energia sentida no momento do ato de violência. Como os modelos vivos usados por Andrei são garotos de programa, sua obra é vista como pornográfica. O pintor é julgado e marginalizado pela sociedade conservadora, que tem dificuldade em lidar com o erótico, e ele é obrigado a seguir sua carreira sem acesso ao mercado das artes plásticas e acuado em seu processo obsessivo de criação.

Embrião do espetáculo, a pesquisa de Sergio Maggio – admirador confesso de Nelson Rodrigues e Dias Gomes – sobre prostituição resultou na sua obra premiada, a já citada Conversas de Cafetinas.

Durante o processo de criação do livro e da peça sobre prostituição, Maggio teve contato com o tema abuso sexual. Ficou sabendo, entre outras informações, que a maioria das meninas entra na prostituição por conta de abusos sexuais sofridos em casa e cometidos por familiares. Partindo de dados das pesquisas e do quadro de Jones, Sérgio concebeu Eros Impuro.

“Não esperava que a plateia fosse ser tão tocada pelo assunto do abuso. Sentimos a responsabilidade que tínhamos nas mãos. Com a repercussão e sem mexer no texto da peça, assumimos a questão sexual como o tema principal”, conta Maggio.

O foco da discussão alterou-se quando foi percebido que a peça tocava em um tema muito difícil e presente, uma vez que cerca de 30% da população brasileira tem uma história relacionada ao abuso sexual.

A partir desse comprometimento de mudança de foco para a questão do abuso sexual, a equipe criativa coletou uma série de depoimentos de espectadores que os procuravam ao final dos espetáculos para contar suas próprias histórias. Dessa iniciativa, Sérgio criou um painel de debates – que acontece ao final da peça – para dar conta do foco escolhido pelo público.

“Constatamos o quanto é urgente uma conversação a respeito de tema tão impactante, atual e presente no cotidiano”, conta Maggio.

Jones conta de onde veio a ideia de pintar o quadro que inspirou a criação da peça. Ele ainda trabalhava como professor de história da arte e convivia com outros professores que tinham dificuldade em apresentar as obras de arte para as crianças, inclusive clássicos como Michelangelo e Leonardo da Vinci, por apresentarem nus masculinos e femininos.

“Por curiosidade, crianças costumavam me procurar depois das aulas para conversar sobre seus problemas dentro de suas casas. Uns sofriam violência física, assédio moral, outros sentiam desejos pelos colegas etc. Eles queriam saber se era normal, natural. Ficava em mim uma responsabilidade em relação à vida dessas crianças. Daí minha criação trazer a questão do que é de fato erótico ou pornográfico dentro de uma obra de arte.”

Para composição da personagem Andrei, o ator visitou um hospital psiquiátrico em Brasília. Conversou com pacientes vítimas de abuso sexual, “algumas de sexualidade muito aflorada”, e que, portanto, são censurados pela sociedade. De sua visita à clínica, Jones tirou muitas características de sua personagem – principalmente de uma mulher que desenvolveu neuroses por ter sido vítima de violência sexual cometida, quando era criança, pela mãe.

De acordo com Sergio Maggio, a encenação foi criada de forma compartilhada na sala de ensaio, “para que os artistas cênicos – iluminador, cenógrafo, criticassem e se inspirassem. Assim, o texto foi contaminado nesse processo de desconstrução”. O método de criação e de ensaio resultou em um roteiro estruturado em três planos, três camadas de linguagem – consciente, memória e delírio.

O consciente de Andrei (o aqui e agora) pinta a tela sob testemunho do público. No plano da memória, Andrei vive diversas personagens e vai resgatando seu drama. O plano do delírio discute o que é real do que é loucura – a questão da sanidade, da alucinação, o artista sendo taxado de louco, o caos da criação.

Eros Impuro traz um figurino inspirado na obra de Arthur Bispo do Rosário – um parangolé, espécie de manto usado pelo ator. O cenário reproduz uma tela em branco que vai sendo pintada à medida que a iluminação traça seu desenho. A trilha sonora inclui trechos de peças radiofônicas do ator e diretor francês Antonin Artaud. Também há o recurso da projeção de vídeos caseiros, retratando casais em relações sexuais.

Serviço:

Eros ImpuroEstreia dia 9 de outubro no Teatro Ivo 60.

Direção – Sérgio Maggio. Texto: Sérgio Maggio. Elenco – Jones de Abreu. Produção executiva: Claudia Charmillot. Temporada: de 9 de outubro a 10 de novembro. De quarta a sábado às 21h; domingos às 19h.

Inscrição para a Oficina de Crítica Teatral (dias 15, 22, 29 e 5 de novembro, das 19h30 às 22h) pelo erosimpuro@gmail.com

Teatro Pequeno Ato (antigo Ivo 60) – Rua Doutor Teodoro Baima, 78 – República- São Paulo– SP – Telefone: (11) 9642 8350.– Bilheteria aberta com uma hora de antecedência. Não aceita cartões. Ar condicionado. Capacidade – 40 lugares. Ingressos: R$ 20,00 (inteira), R$ 10,00 (meia-entrada). Às quartas-feiras as sessões são gratuitas. Classificação etária: 18 anos.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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