Escrita em 1983, a peça potencializa em seus oito personagens um cenário de desigualdade e corrupção

SÃO PAULO – A partir de 6 de setembro, o Sesc Santo Amaro recebe o espetáculo CAIS OESTE, que segue em cartaz até 13 de outubro, sextas às 20h, sábados às 19h e domingos às 18h. Após 30 anos da morte de Bernard-Marie Koltès, seu texto volta para apresentações no teatro brasileiro, com a direção do também francês Cyril Desclés, da Companhia l’Embarcadère. O elenco é formado por Carolina Gonzalez, Giovani Tozi, Janaína Suaudeau, Jefferson Matias, Sandra Corveloni, Sérgio Pardal, Marcelo Lazzaratto e Thiago Freitas.

 

A história de CAIS OESTE gira em torno de Koch, um empresário que decide se suicidar em um galpão abandonado às margens de um rio. Em seu carro luxuoso, o personagem chega à cidade portuária disposto a tirar a própria vida após ter desviado dinheiro. Nesse ambiente, ele encontra imigrantes e moradores de rua em uma situação oposta.

 

Esse encontro entre oito personagens em um galpão – inspirado em um imóvel em desuso que se localizava na cidade de Nova York na década de 1980 – traz para obra de Koltès o choque entre as diferentes classes sociais e desperta um sentimento de contradição: “tem essa pessoa muito rica, que chega com um Jaguar, com um isqueiro luxuoso, e ele tem inveja das pessoas que não têm nada, que apenas sobrevivem”, afirmou o diretor Cyril Desclés.

 

Um Trem para as Estrelas 

O texto misterioso e que se aproxima de um romance policial investiga as nuances de Koch, mas também das outras pessoas que estão no galpão. Monique é a assistente do empresário que tenta impedi-lo de seguir adiante com a ideia do suicídio. Do outro lado da realidade, há a família que presencia a chegada dos dois: Carlos, um jovem a procura de emprego; Clara, a irmã que é contra a partida dele; Cecília, a mãe em busca de um visto de permanência; Fak, que gosta de Clara; Rodolfo, o pai que pouco aparece; e Abad, um homem negro que recusa falar. Entre personalidades e vidas diferentes, os personagens mostram em comum suas obsessões diante do impedimento de viver – apenas sobrevivendo.

 

O cenário conflituoso ganha montagem no Brasil em meio às identificações do escritor e diretor com o país latino-americano. Após o fracasso do texto de Koltès no teatro em 1986, o autor declarou no ano seguinte que o filme brasileiro Um Trem para as Estrelas, de Cacá Diegues, era um Cais Oeste que deu certo. Já o diretor Desclés associa a história da peça com suas experiências pessoais no Brasil de improváveis encontros entre pessoas. Além disso, lança um olhar para as configurações de duas cidades do país: “a situação da zona portuária do Rio de Janeiro ou da Cracolândia em São Paulo lembra aquela descrita por Koltès em 1983”, reflete.

 

Em Cais Oeste, o espectador é convidado a destrinchar as relações humanas dentro de um jogo de ambições, tensões sociais e a sensação de medo que transita entre a sociedade.

 

SOBRE BERNARD-MARIE KOLTÈS

Nascido em 1948, o dramaturgo francês começou a carreira escrevendo e dirigindo peças em Estrasburgo na década de 1970. O sucesso chegou mesmo em 1983, quando Patrice Chéreau encenou Combat de nègre et de chiens. Em seguida, outros textos ganharam montagem pelo mesmo diretor, como Quai ouest (1986), Dans la solitude des champs de coton (1987) e Le Retour au désert (1988).  As peças de Koltès já foram traduzidas em 55 idiomas e montadas em diferentes partes do mundo. No Brasil, a obra do francês chegou aos palcos pelas montagens Na solidão dos campos de algodãoRoberto Zucco e O Retorno ao deserto.

 

SOBRE CYRIL DESCLÉS

Formado em literatura e dramaturgia, seu doutorado teve como tema A Linguagem Dramática de Bernard-Marie Koltès. Cyril já colaborou com diversos diretores franceses, como Catherine Marnas, Clyde Chabot, Moni Grégo, Pascale Nandillon e Yan Allégret. Em 2002, criou a companhia teatral l’Embarcadère e assumiu a direção dos espetáculos. No Brasil, o diretor ministrou a oficina Percurso Koltès no Sesc Santos e também teve contato com o Teatro da Vertigem em residência feita no ano de 2016.

 

Para serviço:

 

CAIS OESTE – De 6 de setembro a 13 de outubro, no Teatro do Sesc Santo Amaro (1º andar | 279 lugares), sextas-feiras, às 20h; sábados, às 19h e domingos, às 18h. Classificação – 14 anos.

Duração – 150 minutos. Ingressos – R$ 40,00 (inteira). R$ 20,00 (estudantes, +60 anos e aposentados, pessoas com deficiência e servidores da escola pública). R$ 12,00 (Credencial Plena válida: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciados no Sesc e dependentes).

 

Ficha Técnica

Texto – Bernard-Marie Koltès. Tradução – Carolina Gonzalez. Direção – Cyril Desclés. Assistente de Direção – Bruno Stierli. Elenco – Carolina Gonzalez, Giovani Tozi, Janaína Suaudeau, Jefferson Matias, Sandra Corveloni, Sérgio Pardal, Marcelo Lazzaratto e Thiago Freitas. Cenografia – Carlos Calvo. Figurino – Victoria Moliterno. Iluminação – Guilherme Bonfanti. Trilha sonora – Aline Meyer. Operador de luz – Guilherme Soares. Operador de som – Tom Ribeiro. Camareira – Alessandra Ribeiro. Produção executiva – Rick Nagash. Produção – Anayan Moretto. Apoio – Consulado Geral da França em São Paulo, Instituto Francês do Brasil e Compagnie Théâtale L’Embarcadère.

 

SESC SANTO AMARO – Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro.

Acessibilidade: universal.

Horário de funcionamento da Unidade e bilheteria: Terça a sexta, das 10h às 21h30. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30.

Estacionamento da unidade: R$ 5,50 a primeira hora e R$ 2,00 por hora adicional (Credencial Plena); R$ 12,00 a primeira hora e R$ 3,00 por hora adicional (outros).

Disponibilidade: 158 vagas para carros e 36 para motos. A unidade possui bicicletário gratuito.

 

Kyra Piscitelli

Kyra Piscitelli é jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo e fez pós-graduação em Globalização e Cultura pela Faculdade de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Escreve sobre teatro e arte desde de 2009. Integra os Juris da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e do Prêmio Aplauso Brasil. Ávida por conhecimento, se não está em viagem ou estudo, só há um lugar para achá-la: o teatro!

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