ESPECTADOR PROFISSIONAL: ARY FONTOURA PRESTA HOMENAGEM À ARTE DRAMÁTICA EM “O COMEDIANTE”

Maurício Mellone* (redacao@aplausobrasil.com)

O COMEDIANTE
O COMEDIANTE

SÃO PAULO – Montagem marca a última direção de José Wilker, falecido em 2014, e por meio da história de um veterano ator, Walter Delon, a trama do gaúcho Joseph Meyer, O Comediante, reverencia a arte de interpretar.

Terceiro sinal para iniciar o espetáculo, com o cenário (interior de uma residência) sendo iluminado por algumas velas e a plateia é surpreendida com a bela voz de Ary Fontoura cantando, a capela, as primeiras estrofes da clássica Fascinação (Dante Marchetti e Maurice de Feraudy).

Nada mais glamoroso do que este prólogo. O Comediante, em cartaz no Teatro Raul Cortez, faz duas grandes homenagens: primeiro a José Wilker, que idealizou o espetáculo ao lado de Ary e faleceu antes de terminar sua direção e, em segundo, o enredo enaltece a profissão do ator por intermédio da história do veterano Walter Delon (Ary). Afastado dos palcos há anos e sem convites para atuar no cinema e TV, Delon recebe a proposta para dar um depoimento para a jornalista Júlia (Carol Loback) que fará sua biografia. Boa ideia para resgatar a imagem do artista, mas tudo não passa de uma armação do agente Eric (Gustavo Arthiddoro) e da governanta Norma, vivida por Angela Rebello.

Se o velho ator é enganado pelos seus colaboradores diretos (Norma inclusive encomenda flores para que sejam entregues em nome de fãs), ele também usa de máscaras e subterfúgios. Para que a jornalista não desvende a fraude e o ostracismo em que vive na atualidade, Delon tenta supervalorizar, tanto sua vida pessoal como a carreira artística.

O COMEDIANTE
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“A peça é inspirada no filme, Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) de Billy Wilder, e faz uma crítica à indústria cultural do entretenimento. A narrativa transita pelo universo cômico e pelo drama psicológico de um ator que, enfeitiçado pela própria imagem, cria um mundo paralelo, numa época em que a mídia idolatra o efêmero e torna o sujeito descartável, o ator em produto, substituindo o velho pelo novo, o feio pelo belo”, pondera o autor.

O que sobressai em O Comediante é a dualidade da trama; em meio a passagens cômicas — a luta do ator em forçar a presença da jornalista em sua casa e a presença onipresente da governanta, em bela composição de Angela, a tristeza de Delon vem à tona e ele tem de enfrentar a verdade: está velho, descartado do mercado de trabalho e só. Realidade dura, não apenas do personagem, mas de grande parte das pessoas na sociedade contemporânea.

Ter a chance de conferir a performance de Ary Fontoura (que completou 82 anos nesta temporada paulistana) é o grande destaque da montagem. Numa cena, ele dá exemplos de interpretações no decorrer do tempo, desde a época que não existiam os veículos audiovisuais (o gestual do ator era exagerado) até a atuação contida e livre de cacoetes como a atual. Confira!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil
Roterio:
O Comediante
Texto: Joseph Meyer. Direção: José Wilker e Anderson Cunha. Elenco: Ary Fontoura, Angela Rebello, Gustavo Arthiddoro e Carol Loback. Cenografia: José Dias. Figurino:  Marília Carneiro. Iluminador: Maneco Quinderé. Trilha sonora original: Marcelo Alonso Neves. Fotografia: Leonardo Aversa. Visagismo: Rose Verçosa. Produção Geral: Sandro Chaim.

Serviço:
Teatro Raul Cortez (534 lugares), Rua Dr. Plínio Barreto 285, tel. 3254.1631. Horários: Sexta às 21h30, sábado às 21h e domingos às 19h. Ingressos: sexta R$ 70, sábado e domingo R$ 80. Bilheteria: terça a quinta das 14h às 20h; sexta a domingo a partir das 14h. Aceitam os todos os cartões; não se aceita cheque. Vendas: 4003.1212 – www.ingressorapido.com.br. Ar condicionado e acesso para deficientes. Duração: 90 minutos. Classificação: 12 anos. Temporada: até 15 de março.

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