ESPECTADOR PROFISSIONAL: CAROS OUVINTES, FAZ RIR COM O FIM DA RADIONOVELA

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

CAROS OUVINTES
CAROS OUVINTES

SÃO PAULO – A peça, escrita e dirigida por Otávio Martins, é ambientada na década de 1960, reproduz a transmissão radiofônica do último capítulo da novela Espelhos da Paixão e mostra a apreensão dos famosos radioatores com ascensão das telenovelas. O palco do grande auditório do MASP se transforma no estúdio de uma antiga emissora de rádio. É neste cenário (assinado por Marco Lima) que a comédia Caros Ouvintes se desenrola: tendo como pano de fundo o conturbado momento político por que passava o Brasil — o golpe militar de 1964 —, a emissora, uma das últimas que produzia radionovela, naquele dia irá transmitir o último capítulo de Espelhos da Paixão.

Além do fim da novela, o clima é tenso devido ao desaparecimento do galã (que na noite anterior participara de uma reunião no sindicato da categoria) e com o futuro de todos, já que a telenovela estava em ascensão e o mercado de trabalho, em ebulição.

Para que o público entre no clima das transmissões radiofônicas, ao vivo e com plateia como ocorria no Brasil nas primeiras décadas do século XX, Caros Ouvintes inicia com a cantora Leonor Praxedes, vivida por Amanda Acosta, apresentando um número musical. Após os aplausos, ela sai e Vicente, o diretor da novela interpretado por Petrônio Gontijo, entra para preparar o estúdio; a seu lado está Eurico (Alex Gruli), sonoplasta e seu braço direito.

ESPECTADOR PROFISSIONAL: CAROS OUVINTES, FAZ RIR COM O FIM DA RADIONOVELA
ESPECTADOR PROFISSIONAL: CAROS OUVINTES, FAZ RIR COM O FIM DA RADIONOVELA

Aos poucos os demais artistas chegam: o locutor Wilson (Rodrigo Lopez), o ex-galã Péricles Gonçalves (Eduardo Semerjian) e a veterana atriz Ermelinda Penteado (Agnes Zuliani). Todos estão apreensivos com a demora do galã, que pode ter desaparecido após sua participação na assembleia do sindicato.

A tensão aumenta no estúdio com as interferências na produção do publicitário Vespúcio (Alexandre Slaviero) e com a decisão da atriz Conceição Neves (Natállia Rodrigues) de se transferir para a TV. A transmissão do último capítulo tem início e o público percebe o desenrolar de duas tramas: o enredo de Espelhos da Paixão e o drama dos radioatores e técnicos, que se sentem ameaçados com a reviravolta no mercado de trabalho e a tumultuada situação política do país, na época.

No criativo programa da peça, que reproduz uma revista de celebridade, Otávio Martins confessa sua preocupação na hora de escrever:

“Encaixar o modus operandi de uma rádio com os fatos históricos estava me impedindo de escrever. Daí veio a opção de não estabelecer um ano específico da ação e abrir mão dos fatos cronológicos em nome da liberdade poética de contar a trajetória dos personagens. O que me move, mais que o retrato fiel, são os homens que viveram esse período entre risos e lágrimas, conquistas e perdas”, argumenta o autor.

Caros Ouvintes acaba de estrear e, ao contrário de grande parte dos espetáculos em cartaz, tem temporada extensa, até o final do ano.

Difícil destacar o trabalho de interpretação, o elenco está coeso e em perfeita sintonia. Porém, me chamou a atenção a atuação de Rodrigo Lopez que dá várias facetas ao personagem — além do locutor hiperprofissional, mostra-se apavorado com o sumiço do namorado, o galã, e com o fim da radionovela. Alex Gruli (um ás na sonoplastia), Petrônio Gontijo e Eduardo Semerjian também emocionam com suas atuações.

Quero ressaltar o trabalho de Otávio Martins: todos já conhecem seu talento como diretor (Divórcio) e ator (brilhante em Córtex), mas desta vez ele mostra sua competência como dramaturgo; seu texto é bem articulado, envolve e prende o espectador, que vai construindo o painel das tramas propostas no enredo.

A peça tem todos os ingredientes para se tornar um grande sucesso.

Roteiro: 

Caros Ouvintes. Texto e direção: Otávio Martins. Elenco: Petrônio Gontijo, Natállia Rodrigues, Alexandre Slaviero, Rodrigo Lopez, Eduardo Semerjian, Amanda Acosta, Agnes Zuliani e  Alex Gruli. Diretora assistente: Maria Silvia Siqueira Campos. Assistente de direção: Marcos Damigo. Desenho de luz: Wagner Freire. Cenografia: Marco Lima. Música original: Ricardo Severo. Figurino: Fábio Namatame. Fotografia: Priscila Prade. Direção de produção: Ed Júlio. Realização: Baobá Produções Artísticas

Serviço:

MASP, grande auditório (374 lugares), Av. Paulista, 1578, tel. 11 3251-5644. Horários: sexta às 18h e 21h, sábado às 21h e domingo às 19h. Ingressos: sexta R$30 (18h) e R$ 40 (21h), sábado R$ 50 e domingo R$ 40. Vendas: 11 4003-1212 ou www.ingressorapido.com.br. Duração: 90 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 14 de dezembro.

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