ESPECTADOR PROFISSIONAL: EM ESPETÁCULO SOLO, LU GRIMALDI INTERPRETA DONA MARIA I

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

SÃO PAULO – Com direção de Mika Lins, Palavra de Rainha, de Sérgio Roveri, mescla ficção e fatos reais para contar a trajetória da primeira e única monarca de Portugal, que morreu reclusa num convento no Rio, aos 81 anos. Filha do rei de Portugal D. José I, Dona Maria I assumiu o trono português em 1777. Conhecida em sua terra como A Piedosa e aqui no Brasil como A Louca, Dona Maria teve uma vida recheada de tragédias e reveses e pela primeira vez ganha uma leitura dramatúrgica.

Para o autor, Dona Maria, mãe de D. João VI, é um personagem trágico e complexo, que poderia ter sido criado por Shakespeare ou Eurípedes:

“Mas Dona Maria foi talhada pela vida, o que dá uma dimensão real a suas dores, dilemas e poucos e pequenos prazeres. Primeira mulher a assumir o trono de Portugal, precisou no início aprender a administrar o legado de tirania deixado pelo pai. Depois, quase no fim de sua vida, abandonou às pressas sua pátria rendida diante das tropas de Napoleão, além de suportar a mais implacável das dores para uma mulher: a perda dos filhos. Que esta peça possa servir de um convidativo cartão de visita desta mulher com quem a história foi tão pouco generosa”, argumenta Sérgio Roveri.

O grande impacto do espetáculo é sem dúvida o cenário, que é praticamente constituído do figurino da rainha: ao abrir das cortinas, o espectador se depara com a atriz no centro do palco, trajando um grandioso vestido negro que ocupa todo o espaço.

Ao mesclar ficção e fatos reais, a peça traça um perfil da única monarca portuguesa:

“Em meio a tragédias pessoais, como a perda de cinco dos seis filhos, e os anos de reclusão no Palácio de Queluz, Dona Maria governou Portugal por 22 anos e fez valiosas contribuições à cultura. Morreu em 1816, aos 81 anos, no Rio de Janeiro, cidade em que ela, no meio dos seus delírios, acreditava ver o diabo escondido atrás do Pão de Açúcar”, relata a atriz Lu Grimaldi.

Com uma movimentação limitada, em função da própria idade da rainha e principalmente pelo vestido/cenário que em alguns momentos funciona como o mar revolto, a personagem faz relatos de sua trágica existência, como os anos que viveu reclusa, conta de seus primeiros delírios, da perda dos filhos que morreram de varíola, da fuga da família real para o Brasil em 1808 e de seus últimos anos, em que ficou num convento no Rio de Janeiro, até sua morte.

Personalidade histórica pouco lembrada, Dona Maria I em Palavra de Rainha é resgatada e o público tem acesso a sua sofrida trajetória de vida.

Além do texto apresentado de maneira não linear que obriga o espectador a montar o painel da vida da rainha portuguesa, chamou a minha atenção o belo cenário e figurino assinado por Cassio Brasil, a sensível direção da também atriz Mika Lins e a generosa interpretação de Lu Grimaldi, que dá vida a uma personagem tão importante para a história luso-brasileira.

Quero ressaltar também a casa de espetáulo: o Teatro Viradalata foi criado em 2011 e no ano passado foi ampliado. Além da sala bem equipada e de bom tamanho, o espaço ainda possui um saguão para exposição e um aconchegante restaurante e lanchonete.

Ótima opção de cultura aliada ao lazer.
Roteiro:
Palavra de Rainha
. Texto: Sergio Roveri. Direção: Mika Lins. Elenco: Lu Grimaldi. Assistente de direção: Daniel Mazzarolo. Cenografia e figurino: Cassio Brasil. Designer de luz: Fran Barros. Visagismo: Emi Sato. Trilha sonora: Daniel Maia. Fotografia: Lenise Pinheiro. Administração geral: Ricca Produções. Coordenação de Produção: Giuliano Ricca
Serviço:
Teatro Viradalata (273 lugares), Rua Apinajés, 1.387, tel.(11) 3868.2535. Horários: sexta às 21h30, sábado às 21h e domingo às 20h. Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia). Bilheteria: sábado das 10h às 21h e domingo das 10 às 20h. Vendas: tels. (11) 4003 1212 ou pela internet, ingressorapido.con.br. Duração: 75 min. Classificação: 12 anos. Temporada: até 30 de novembro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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