ESPECTADOR PROFISSIONAL: MARIETA SEVERO CONDUZ ELETRIZANTE TRAGÉDIA CONTEMPORÂNEA

Maurício Mellone, para o www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

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SÃO PAULO – Depois de temporada premiada no Rio de Janeiro, está em cartaz no Teatro FAAP até dezembro a peça Incêndios, de Wajdi Mouawad, um libanês de 46 anos que desde a década de 1980 mora no Canadá e pela primeira vez é encenado no Brasil. E os paulistas que raramente podem apreciar Marieta Severo nos palcos, agora têm o privilégio de conferir este que já é um marco em sua carreira. Marieta encarna a árabe Nawal, que em sua saga de décadas tenta resgatar sua dignidade e deixa como legado aos filhos gêmeos Simon e Jeanne, interpretados por Felipe de Carolis e Keli Freitas, a missão de desvendar a origem da família.

O espectador é fisgado para dentro daquela história trágica desde a primeira cena, em que Jeanne sobe ao palco vinda da plateia à procura da pessoa que poderá ajudá-la a elucidar os mistérios deixados pela mãe em duas cartas, uma endereçada a ela e a outra ao irmão.

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A trama não é apresentada de maneira linear: de um lado, Nawal relata de forma cronológica toda sua trajetória de vida, desde sua relação amorosa na adolescência, seu drama de ter sido obrigada a entregar seu filho primogênito, até a luta para aprender a ler e escrever, seu ingresso na guerra, os martírios de que foi submetida e a resolução de se calar até a morte. No outro extremo, depois de lido o testamento deixado por Nawal e de posse das cartas deixadas por ela, os gêmeos precisam cumprir a missão: Jeanne deve levar uma carta ao pai que eles pensavam estar morto e Simon deve entregar outra carta ao irmão mais velho, que eles desconheciam. Neste percurso, eles fazem o caminho inverso da mãe, do presente à origem de suas vidas.

“A peça não tem qualquer limitação de espaço e tempo. Mesmo situando os personagens e ações em contexto real, a peça não localiza geograficamente a ação, apenas sabemos que se trata de Ocidente e Oriente, as cidades têm nomes inventados e datas de fatos históricos são modificadas. As cenas vão e voltam ao longo de 50 anos, às vezes se interpenetram, se misturam, dialogam’, esclarece o diretor Aderbal Freire-Filho.

Com um mínimo de cenário, assinado por Fernando Mello da Costa, — apenas alguns elementos montados a cada cena —, o diretor usa da iluminação para delimitar espaços e tempos narrativos e do figurino destoante (marrom para os personagens do passado e cinza para os do presente) para narrar a trágica saga de Nawal por mais de cinco décadas.

Com a história contada numa agilidade impressionante e com o desfecho surpreendente, o público nem sente o tempo passar (são duas horas de espetáculo); pelo contrário, não se ouve um único ruído durante a encenação, somente alguns suspiros e o choro contido de grande parte da plateia.

No programa da peça, o dramaturgo Wajdi Mouawad, que também é ator, diretor e produtor, é enfático ao definir sua trama:

“A peça é a história de três histórias que procuram seus primórdios, de três destinos que buscam suas origens em uma tentativa de solucionar a equação de suas existências”.

Se no mundo Incêndios já arrebatou diversos prêmios, a montagem brasileira não fica atrás: no prêmio APTR do Rio a peça recebeu quatro troféus (atriz para Marieta Severo, atriz coadjuvante para Kelzy Ecard, cenário e espetáculo) e melhor direção no Prêmio Shell. Com a entusiasmada recepção dos paulistanos, aqui a peça também será premiada, com todos os méritos.
De antemão, considero a montagem carioca um dos mais significativos e contundentes espetáculos de 2014.

A sintonia e a coesão do elenco também devem ser ressaltadas e Marieta Severo, com sua sensibilidade e perfeito domínio em cena, dá vida a uma das grandes mulheres da dramaturgia contemporânea. Não é por acaso que ela dedica este trabalho a Zuzu Angel, que morreu tentando descobrir o paradeiro do filho, assassinado durante a ditadura militar brasileira.

Literalmente um espetáculo imperdível!


Roteiro:
Incêndios. Texto: Wajdi Mouawad. Tradução: Angela Leite Lopes. Direção: Aderbal Freire-Filho. Elenco: Marieta Severo, Felipe de Carolis, Keli Freitas, Marcio Vito, Kelzy  vEcard, Fabianna de Mello e Souza, Flavio Tolezani e Isaac Bernat. Cenografia: Fernando Mello da Costa. Iluminação: Luiz Paulo Nenen. Figurinos: Antonio Medeiros.Trilha sonora: Tato Taborda. Fotografia: Leonardo Aversa. Produção executiva: Luciano Marcelo. Realização: Primeira Página Produções, Emerge  e Teatro Poeira.
Serviço:
Teatro FAAP (504 lugares), Rua Alagoas, 903, tel. (11) 3662-7233. Horários: sexta e sábado às 21h e domingo às 17h. Ingressos: sexta R$ 60,00, sábado e domingo R$ 90,00. Bilheteria: quarta a sábado, das 14h às 20h e domingo das 14h às 17h.
Duração: 120 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 14 de dezembro.

 

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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