ESPECTADOR PROFISSIONAL: O PERIGOSO JOGO D’ “AS CRIADAS” DE JEAN GENET

Maurício Mellone* (redacao@aplausobrasil.com)

AS CRIADAS
AS CRIADAS

SÃO PAULO – Clássico contemporâneo, As Criadas, do francês Jean Genet, ganha leitura cênica do diretor Eduardo Tolentino que enfatiza o lado psicológico daquelas duas irmãs — Clara vivida por Clara Carvalho e Solange interpretada por Denise Weinberg —, que trabalham para uma mulher rica e poderosa, papel de Emilia Rey. Num jogo de poder que envolve rancor, raiva, inveja, admiração, submissão, amor e ódio, as duas planejam a morte da patroa.

AS CRIADAS
AS CRIADAS

O cenário escolhido pelo diretor é o interior do quarto da madame, onde estão seus suntuosos vestidos, suas joias, perucas, maquiagem. Clara e Solange aproveitam a ausência da patroa para trocar de papel com ela e usam seus pertences, como crianças que usam os vestidos da mãe quando ela não está.

Em nenhum momento o conflito de classes, o ódio e o rancor desaparecem das falas e atitudes das empregadas.

A cena inicial, em que há a troca de papéis (Clara apresenta-se como a dona da casa e sua irmã é a mais submissa dos serviçais) cria um ruído com a plateia: o espectador percebe que ambas são criadas só depois de vários diálogos entre elas. Estabelecido o jogo cênico novamente, as personagens continuam com a artimanha de se passar pela madame e sendo servida pela outra, além de articularem a morte da patroa, preparando um chá com veneno. A chegada triunfal da patroa restabelece os verdadeiros papéis sociais, com a arrogância e prepotência de um lado e a submissão e a subserviência do outro.

Como o plano de assassinato não vinga e a patroa volta a sair, o sentimento de desespero e revolta se intensifica entre as criadas.

AS CRIADAS
AS CRIADAS

Vencedoras de diversos prêmios em suas carreiras, Denise e Clara têm a chance mais uma vez em As Criadas de mostrarem o quanto são talentosas e brilhantes atrizes. O cuidado e a delicadeza na produção, marca do grupo Tapa, também devem ser ressaltados nesta montagem. Recriada a parceria entre Aliança Francesa e o grupo — o Tapa foi residente artístico do teatro durante 16 anos, de 1986 a 2002 —, o público pode ter certeza que novas e instigantes produções virão deste reencontro.

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

 

Roteiro:
As Criadas. Texto: Jean Genet. Tradução: Pina Cocô. Direção: Eduardo Tolentino de Araújo.  Elenco: Clara Carvalho, Denise Weinberg e Emilia Rey. Cenografia e figurinos: Marcela Donato. Iluminação: Nelson Ferreira. Fotografia: Ronaldo Gutierrez. Produção: César Bacan. Realização: Grupo Tapa
Serviço:
Teatro Aliança Francesa (226 lugares), Rua General Jardim, 182, tel. 3017 5699 – r. 5602. Horários: de quinta a sábado às 20h30 e domingo às 19h. Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Duração: 90 min. Classificação: 14 anos. Estacionamento conveniado em frente. Temporada: até 15 de março.

 

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