ESPECTADOR PROFISSIONAL: PEÇA DISCUTE O POLÊMICO MÉTODO DE CURA GAY

Maurício Mellone* (redacao@aplausobrasil.com)

CONSERTANDO FRANK
CONSERTANDO FRANK

SÃO PAULO – Sucesso nos Estados Unidos e já apresentada em diversos países — ganhou inclusive versão cinematográfica com roteiro do autor —, a peça Consertando Frank do dramaturgo norte-americano Ken Hanes é encenada pela primeira vez no Brasil e cumpre temporada no  MuBE Nova Cultural até final de abril. Com tradução e direção de Marco Antônio Pâmio, a trama lida com uma questão de grande controvérsia, a conversão da homossexualidade.

Persuadido pelo namorado e psicólogo Jonathan Baldwin, vivido por Rubens Caribé, o jornalista Frank Johnston, interpretado por Chico Carvalho, se apresenta como paciente para o psicoterapeuta Arthur Apsey (Henrique Schafer), que criou um método de cura gay, com o objetivo de fazer uma reportagem denunciando os métodos de conversão da sexualidade humana. Carente e suscetível à manipulação, Frank sofre nas mãos dos dois psicólogos durante seu trabalho de investigação e a vida dos três passa por grandes transformações.

CONSERTANDO FRANK
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Num cenário único, assinado por Chris e Nilton Aizner, em que dois ambientes coabitam (o consultório e o apartamento do casal), Frank conduz a trama, na medida em que primeiramente aparece como paciente frágil e debilitado diante do psicólogo seguro e persuasivo e, logo em seguida, compartilha da sessão de terapia com o namorado, que de maneira afetuosa o incentiva a continuar a investigação. No entanto, o espectador logo percebe que Frank é duplamente manipulado pelos psicólogos, que lutam ferozmente por seus preceitos.

CONSERTANDO FRANK
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De um lado Apsey, com seu poder de persuasão, usa de conceitos caros à Humanidade, como verdade e liberdade, para induzir Frank a se submeter a seu método retrógrado e desumano de conversão da homossexualidade. Do outro lado, Baldwin, por meio de sua relação afetiva, procura convencer o namorado a denunciar a prática de seu opositor, que como muitos já tentaram interferir na sexualidade humana, com práticas violentas como eletrochoque, castração e cirurgia cerebral.

Sentindo-se como joguete nas mãos dos psicólogos, Frank se revolta e sua reportagem afeta e interfere decisivamente na vida dos três.

O diretor, que acaba de receber o prêmio APCA/15 de melhor direção por Assim é (se lhe parece), de Pirandello, acredita que além da dicotomia entre as teorias psicológicas, o texto de Hanes aprofunda a discussão:

CONSERTANDO FRANK
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“Além desta questão bipolar, a peça é sobre manipulação. Nós seres humanos, tantas vezes frágeis, carentes de afeto e inseguros, somos seres manipuláveis. É o que acontece com Frank, que se entrega aos dois manipuladores, deixando-se levar pela falta de ética tanto nas relações profissionais quanto nas pessoais. Eis aí outro tema caro ao autor nesta peça, a falta de ética”, argumenta Marco Antônio Pâmio.

Com um texto primoroso que aprofunda a discussão, já que traz várias visões sobre a conversão da sexualidade (discursos antagônicos defendidos com convicção), Consertando Frank se destaca ainda pela direção sensível e minuciosa — impressionante como o olhar dos atores e o posicionamento do rosto deles propicia a mudança de cena e, principalmente, do tom emocional dos personagens. A interpretação e a sintonia em cena dos três premiadíssimos atores — Caribé acaba de receber o Shell por sua atuação Assim é (se lhe parece), Chico  também faturou o mesmo prêmio em 2013 por Ricardo III e Henrique foi indicado a vários prêmios por atuar em O Porco, em 2005 — deixam o espetáculo ainda mais coeso e impactante.

A iluminação de Fran Barros, que pontua o ritmo das cenas, também merece destaque.

Com uma discussão visceral e o embate de titãs no palco, Consertando Frank é sem dúvida um dos grandes espetáculos em cartaz na cidade. Imperdível!

* Maurício Mellone publicou o texto no www.favodomellone.com.br – parceiro do Aplauso Brasil

Roteiro:
Consertando Frank
. Texto: Ken Hanes. Tradução e direção: Marco Antônio Pâmio. Elenco: Chico Carvalho, Henrique Schafer, Rubens Caribé. Produção: Ronaldo Diaféria e Kiko Rieser. Cenografia: Chris e Nilton Aizner. Iluminação: Fran Barros. Trilha sonora: Ricardo Severo. Figurino: Naum Alves de Souza. Fotografia: Heloísa Bortz.
Serviço:
MuBE Nova Cultural (192 lugares), Rua Alemanha, 221, tel. 4301-7521. Horários: sexta e sábado às 21h30 e domingo às 18h. Ingressos: R$ 20 até 22/03 e R$ 30 a partir de 27/03. Duração: 75 minutos. Classificação: 14 anos. Temporada: até 26 de abril.