Espectros é atração irresistível para um público adulto

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Nelson Baskerville e Clara Carvalho em "Espectros"

Espetáculo embalado pelo zelo na sondagem das almas humanas de dramaturgos da envergadura do norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) com participação, cem anos após a morte do criador, Ibsen, de Ingmar Bergman (1918-2007), papa do psicologismo abismal, Espectros provoca no espectador um  prazer  racional  em mentes adultas privilegiadas.

Adultas, por que em sintonia com o sublime dos questionamentos do homem e da sua culpa, fazendo da nossa espécie manobra dos deuses, acredite-se neles ou não. Há nesta primorosa análise do texto da dupla Ibsen/ Bergman pelo diretor Francisco Medeiros, um fator que faz o espetáculo alçar voo para além do Realismo. É o tom de tragédia clássica que fez a imortalidade dos míticos herois/ heroinas de Ésquilo, Sófocles e  Eurípides.

Uma majestosa movimentação de atores, música pesada em seu lamento seco, luz pulsante, cenário que se reinventa durante a ação e, sobretudo, o império da palavra candente, dita com a profundidade dos sentimentos verdadeiros. Tudo, ali, nos leva para além do cotidiano atormentado de uma mulher que purga decisões pregressas de conseqüências agora desastrosas. O tom é de tragédia sintetizada naquela imagem do pintor dinamarquês Munch que Jefferson Del Rios, em sua bela e cristalina análise para o Caderno 2/Estadão, escolheu para encerrar sua crítica: “A vida pode ser um grito mudo”.

Elenco de "Espectros"

Não há como relegar a atuação da atriz Clara Carvalho ao mero excepcional: ela está inexcedível, com seu inacreditável equilíbrio do uso da emoção e do racional. Tanto aqui, como lá, não há o mínimo deslize de controle, jogando o espectador inapelavelmente para dentro da tormentosa heroína (ou anti-heroina, como preferem alguns). Clara, sem o saber devido a sua juventude, remete o público mais experimentado pelos anos às grandes criações da eterna Cacilda Becker.

Seus companheiros de elenco procuram manter o alto nível do desempenho, ficando por conta de Plínio Soares a composição mais difícil, a de um homem sem moral, porém digno de compaixão. Boas as atuações dos jovens Patrícia Castilho (de presença forte e sensual) e Flávio Barollo (que enfrenta com galhardia os grandes desafios finais). Nelson Baskerville tem composição bastante convincente numa figura um tanto distante de nossa latinidade. Mas, na estreia pareceu-nos, às vezes, inseguro no texto, fato que deve ter superado com a sua larga experiência de palco

A tradução de Carlos Rabelo, a cenografia de Márcio Medina e Cesar Resende, o figurino de Marichilene ASrtisevski, a iluminação de Wagner Freire e a direção musical de Eduardo Agni contribuem para a solidez estética orquestrada pelo sempre competente (aqui, mais) Francisco Medeiros.

SERVIÇO:

ESPECTROS

NOVA TEMPORADA: Viga Espaço Cênico / Rua Capote Valente, 1323 – Sumaré

Fone 3801-1843/ Metrô Sumaré /6ª e sábado 21h; domingo 19h /R$ 20,00 /

De 24/Junho a 31 de Julho/ A bilheteria abre uma hora antes / 70 lugares

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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