Espetáculo traz versões contemporâneas de heroínas gregas

Nanda Rovere, do Aplauso Brasil (nanda@aplausobrasil.com)

Heroínas gregas em "Trágica.3". Foto: divulgação
Heroínas gregas em “Trágica.3”. Foto: divulgação

SÃO PAULO – Trágica.3 traz textos curtos e que traduzem com competência a trajetória de MedeiaElectra Antígona. de autoria de Heiner Müller, Francisco Carlos e Caio de Andrade, respectivamente. A trilogia começou a ser criada em 2010, com a montagem Rockantygona e com pesquisas sobre Medeia e ElectraO espetáculo, dirigido por Guilherme Leme, está em cartaz no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, até 7 de julho, aos sábados, domingos e segundas. No elenco estão  Denise Del Vecchio ( Medeia), Letícia Sabatella (Antígona) e Miwa Yanagizawa ( Electra).

A montagem mostra três mitos marcantes dentro da história do teatro e coloca em evidência os sofrimentos e o desespero de mulheres que têm o seu destino guiado por mortes: Medeia, mata os filhos, Electra, induz o seu irmão Orestes a assassinar sua mãe;e Antígona, se mata.

Guilherme Leme assina uma direção sensível. O espetáculo é muito bonito plasticamente. As atrizes estão excelentes, com interpretações viscerais, que relatam o sofrimento e o desespero de mulheres que têm a morte como companheira (Medeia, Electra e Antígona.).

O destino trágico das personagens e a inexistência de meios para que as trajetórias das mulheres ganhem outro rumo, estão retratados nos gestos comedidos.

A história de Medeia, Electra e Antígona em  "Trágica.3". Foto: divulgação
A história de Medeia, Electra e Antígona em “Trágica.3”. Foto: divulgação

O foco principal está nas atrizes e no texto, mas a luz, os movimentos densos e precisos e a trilha trazem encantamento ao palco e contribuem para a saga dessas mulheres ganhe mais força.

O impacto da encenação é tão grande, que a plateia fica em silêncio absoluto ( fato raro nos teatros!). Denise Del Vecchio, Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa estão magníficas em seus papéis.

Na primeira parte, Letícia é Antígona. A música dá impacto à cena, que traz um a voz como um lamento, interpretado pela atriz, que atualmente tem dedicado o seu tempo ao canto.

Miwa merece destaque pela sua expressão corporal. Fica o tempo todo sem se mexer e consegue transmitir através do corpo e da fala toda a emoção da personagem. Nesse momento, um telão ao fundo que na primeira cena aparentemente não tem função, representa através de um desenho de luz, o luto que impera.

Denise, assim como as companheiras, dá um show em cena. O timbre da sua voz contribui para que a dor de Medeia chegue ao extremo, assim como a sua expressão corporal e a competência de sua interpretação.  Nesse momento, imagens projetadas apresentam os filhos de Medeia e prenunciam o assassinato.

Quem conhece tragédia grega com certeza compreenderá mais facilmente o conteúdo, mas os recortes das obras de Sófocles e Eurípedes conseguem transmitir com precisão a trama e a dramaticidade das tragédias gregas.

A temporada se estende até 7 de julho, aos sábados, domingos e segundas e depois segue para o Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte.

Uma oportunidade ímpar para entrar em contato com histórias já conhecidas, mas que ganham adaptações de valor e que dão voz às mulheres de maneira inteligente.

SOBRE AS PERSONAGENS:

MEDEIA

Este texto de Heiner Muller condensa a tragédia de Eurípides em diálogos curtos e monólogos. Em Trágica.3 o foco foi direcionado exclusivamente a personagem Medeia, cuja tônica é a traição da heroína a seu povo e ao seu sangue (mata o irmão e lança seus pedaços ao mar, possibilitando a fuga de Jasão com o velocino de ouro). Jasão por sua vez é convocado por Medeia por tê-la abandonado casando com a filha de Creonte, Rei de Corinto.

ANTÍGONA

Baseado no clássico grego de Sófocles, Caio de Andrade sintetizou, com olhar contemporâneo, as discussões que estão além do tempo: o comportamento humano frente ao poder e à intolerância. Um recorte poético sobre o mito, com inspiração na obra do artista plástico e iluminador americano James Turrel, nos movimentos ligados às artes performáticas e também aos diversos tipos de cânticos e lamentos musicais.

ELECTRA

Electra, (vítima como seus irmãos e também como o pai assassinado); Clitemnestra,tirana que juntamente com seu amante matou o marido e soberano; e Orestes (vingador que volta do exílio em companhia de um ancião e um amigo para reparar a morte do pai) formam a tríade principal desta tragédia. Três visões da vingança cultivada por Electra, guardiã da façanha executada pelo irmão, Orestes, eliminando a mãe, Clitemnestra, assassina confessa. Três personagens capazes de abranger todo o universo do texto de Sófocles, representando todos os outros partícipes da trama. Electra padeceu cotidianamente, vivendo como escrava na corte de sua família, esperando por mais de dez anos o regresso do irmão vingador. É a partir deste conflito, primeiro e fundamental, que a tragédia será contada. Electra narrará suas motivações; a vida amedrontada por expectativas que prenunciam o castigo; o desespero ininterrupto anunciado pelo tempo que, contado grão a grão na ampulheta do destino, aproxima a grande promessa de ter seu irmão Orestes a seu lado e vingar  o pai dos usurpadores que se encontram no poder.

Ficha Técnica

Textos:

Medeia (Heiner Müller)

Antígona (Caio de Andrade)

Electra  (Francisco Carlos)

Elenco: Denise Del Vecchio, Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa, Fernando Alves Pinto e Marcello H

Concepção e Direção: Guilherme Leme

Cenografia: Aurora dos Campos

Iluminação: Tomás Ribas

Figurino: Glória Coelho

Trilha Sonora Original: Fernando Alves Pinto, Leticia Sabatella e Marcello H

Visagismo: Leopoldo Pacheco

Tradução do texto Medeamaterial (Heiner Müller): Monique Gardenberg e Guilherme Leme

Vídeo Medeia: Gustavo Leme e Guilherme Leme (Delicatessen Filmes)

Coordenação de Comunicação: Daniela Cantagalli

Programação Visual e Fotos: Victor Hugo Cecatto

Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro

Produção Executiva: Sílvia Rezende

Direção de Produção: Sérgio Saboya

Serviço:

Trágica.3’

Estreia dia 26 de abril, sábado, às 20 horas, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil.

Indicação de faixa etária – 14 anos

Temporada – Até 7 de julho

Duração: 75 min

Sábado e segunda-feira às 20 horas e domingo às 19 horas.

Ingressos – R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia).

CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL – Rua Álvares Penteado, 112 – Centro. Próximo às estações Sé e São Bento do Metrô. Informações (11) 3113-3651/ 3113-3652. Acesso e facilidades para pessoas com deficiência física// Ar-condicionado // Loja // Café Cafezal. Capacidade – 130 lugares. www.bb.com.br/cultura. Estacionamento conveniado: Estapar Estacionamentos – Rua da Consolação, 228 (Edifícos Zarvos). R$ 15,00 pelo período de 5 horas. Necessário carimbar o ticket na bilheteria do CCBB. Informações: (11) 3256-8935. Van faz o transporte gratuito até as proximidades do CCBB – embarque e desembarque na Rua da Consolação, 228 (Edifício Zarvos) e na XV de novembro, esquina com a Rua da Quitanda, a vinte metros da entrada do CCBB.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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