Esses ingleses 2: Tom Kempinski de Dueto Para um

Afonso Gentil, especial para o Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Peça inglesa

Depois de Harold Pinter e seu O Amante, agora o pouco conhecido, embora de excepcional talento, Tom Kempinski, com a sua obra de maior repercussão, da década de 80 do século passado, Dueto Para um, cartaz do Sesc-Consolação / Espaço Beta.

Sobre esse autor londrino, nascido em 1938, pouco se sabe, além de algumas incursões como ator na TV inglesa. E que é da sua autoria a comédia teatral Alta Separação, que teria dado origem ao musical Mamma Mia!, sucesso de Meryl Strep em recente versão fílmica. Mesmo a sabichona internet, neste caso específico, é avara em dados sobre Kempinski (e ainda pergunta, em espanhol, se a gente sabe alguma coisa mais).

Na verdade, o vigoroso e muitissimo bem dialogado texto em cena na cidade, fala por si, independente de referências externas, pelo tino perscrutador com que o autor se debruçou sobre a personalidade real focada.

Jacqueline Du Pré iniciou-se no aprendizado do violoncelo, aos 5 anos de idade, por vontade própria. Teve sua carreira como musicista, desde a adolescência, reconhecida mundialmente, vivendo numa espécie de conto de fadas, com lances melodramáticos a partir do momento em que se viu acometida pela esclerose múltipla, privando-a de exercer a sua arte, ou nas palavras da protagonista, privando-a de Vida. Sabe-se que teve de se ater ao ensino musical para os jovens, até a morte prematura aos 48 anos de idade.

É um caso típico, este de Jacqueline, em que a vida supera a arte no horror, dada a fria indiferença com que a Natureza costuma submeter o ser humano, num perene e desigual confronto, que nos leva a indagações metafísicas e existenciais, as quais  Shakespeare, pela voz de Hamlet, abraçava obsessivamente.

Em sua peça, Kempinski flagra sua trágica personagem (aqui com o nome de Stephanie Abrahams, uma violinista) em sessões terapêuticas, com um psiquiatra avaliando os questionamentos sempre agressivos, quando não debochados, com palavras de baixo calão, da paciente voluntariosa. E não há momentos de frouxidão no nervoso desenrolar das sessões, no total de 6. O embate entre ambos pulsa como luta feroz, por um lado, e de prudente cautela, do outro, de final difícil de ser pressentido pelo público, causando espanto a pergunta final do psiquiatra.

O espetáculo conduzido por Mika Lins é solene, buscando o equilíbrio sutil das emoções da dupla cênica. Bel Kovarick, no auge da sua técnica adquirida em início de carreira no CPT de Antunes Filho e no decorrer de uma carreira de constantes bons espetáculos, brinda-nos com uma vibração nervosa, energética,  que  remete – para quem conheceu – aos memoráveis desempenhos de Cacilda Becker.

Marcos Suchara, mais lembrado por desempenhos viscerais, como no recente Macbeth (dirigido por Regina Galdino), está contido no limite do clichê da função médica, superando-o, no entanto, pela sinceridade no sereno entendimento das afirmações ácidas da sua antagonista.

A iluminação de Caetano Vilela ajuda a criar uma atmosfera claustrofóbica, de seres enjaulados, mesma proposta, ao que parece do cenógrafo Cássio Brasil.

Há 25 anos a versão brasileira, sob o titulo Dueto Para um só, foi agraciada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) com os prêmios de melhor direção (Antonio Mercado, radicado há anos em Portugal), de melhor ator (Othon Bastos) e de melhor atriz (Martha Overbeck). Era um espetáculo agitado, “latino”, de forte impacto na platéia. Agora os tempos são outros, a tendência atual é o minimalismo, a vergonha da exposição de sentimentos exacerbados. Mas, o texto é tão bem estruturado para o fenômeno teatral, que funciona em diferentes leituras, inclusive nesta que aglutina nomes fortes da atual geração cênica. de 1992

SERVIÇO:

Dueto Para um / SESC-Consolação –Espaço Beta – 3. Andar – Rua Dr. Vila Nova, 245 –telefone 3234-3000 / 5ª. e  6ª. feira  às 2lh /60 lugares / 90 minutos/ Ingressos R$ 2,50 a R$ lO,00 / 14 anos / até 01 de outubro.

Michel Fernandes

Michel Fernandes, graduado em Jornalismo e pós graduado em Direção Teatral., escreveu de 2000 a 2012 críticas de teatro e reportagens para o iG. Em 2002 criou o Aplauso Brasil - www.aplausobrasil.com.br -, site voltado à noticias, resenhas e críticas teatrais, até hoje no ar. Integrante da APCA desde 2004, Michel Fernandes já esteve nas comissões do Prêmio Miriam Muniz, ProAC, Programa de Fomento ao Teatro de São Paulo, emtre outros Em 2012 criou o Prêmio Aplauso Brasil de Teatro. Em 2014 realiza Residência do Aplauso Brasil na SP Escola de Teatro. Em 2015 é crítico convidado da MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). Em 2016 é membro de comissão julgadora do Proac. Em 2017 faz parte do Conselho Consultivo do CCSP.

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